thumb|220px|O Paraíso Perdido: capa da primeira edição. Paraíso Perdido (em inglês: Paradise Lost) é um poema épico do século XVII, escrito por John Milton, originalmente publicado em 1667 em dez cantos. Uma segunda edição foi publicada em 1674 em doze cantos, com pequenas revisões do autor.

O poema narra as penas dos anjos caídos após a rebelião no paraíso, o ardil de Satanás para fazer Adão e Eva comerem o fruto proibido da Árvore do Conhecimento, e a subsequente Queda do homem. Após uma invocação à Musa,"[...] a Musa de Milton não é uma das nove Musas pagãs; é uma abstração do poder e da sabedoria do Deus judaico-cristão, identificada aqui como a Musa que inspirou Moisés, que então se supunha autor dos cinco primeiros livros da Bíblia." (Comentário de Scott Elledge em MILTON, John. Paradise Lost. 2ª ed. W. W. Norton & Company, 1993, p. 8.) o poeta descreve brevemente a rebelião dos anjos liderados por Lúcifer, a qual, fracassada, lhes custou o paraíso. Despertando no inferno depois de nove dias de confusão, estes deliberam sobre o que fazer, e Lúcifer, daí por diante chamado Satanás (do hebraico שָטָן, Satan: adversário), faz saber de um novo mundo e uma nova criatura — o homem — que seriam criados por Deus. Os demônios decidem corromper esse novo ser e desviá-lo do Criador, seu inimigo. Entrementes, no paraíso, Deus segreda a seu Filho a iminente transgressão do homem e todo o sofrimento que se lhe seguirá, e o Filho se oferece a si mesmo em sacrifício pela redenção da humanidade. Para assegurar que o homem seja responsável por seus atos, Deus envia um anjo para notificar Adão e Eva do perigo; no entanto, a despeito da advertência, Eva é seduzida por Satanás, então no corpo de uma serpente, e come o fruto proibido, fazendo-o comer também a Adão. Os pais da humanidade são expulsos do Jardim do Éden e tomam conhecimento, como toda a sua descendência, do pecado e da morte; mas uma revelação do futuro consola o primeiro homem, que testemunha o nascimento e a morte do Cristo e a remissão dos nossos pecados.

Personagens Satanás thumb|esquerda|John Martin, Satanás Presidindo ao Conselho Infernal, 1823-7. Satanás é o primeiro personagem importante introduzido no poema. Anteriormente chamado de Lúcifer, era o mais belo de todos os anjos no céu. É uma figura trágica que se autodescreve com a famosa citação "Melhor reinar no Inferno do que obedecer no Céu." Ele é forçado a cair no Inferno após ter liderado uma rebelião fracassada para retirar a Deus o controle do Céu. A revolta de Satanás contra o seu criador decorre da sua vontade de não se subjugar a Deus e ao seu Filho, alegando que os anjos são "auto gerados, auto criados,", 5:860. e, assim, negando a autoridade de Deus sobre eles, como seu criador.

Satanás é profundamente arrogante, embora poderoso e carismático. O poder persuasivo de Satanás é evidente ao longo do livro; não só é astuto e enganador, mas também é capaz de reunir os anjos caídos para continuar a rebelião após a sua derrota agonizante na Guerra Angelical. Ele argumenta que Deus governa como um tirano e que todos os anjos deveriam governar como deuses., 5:794–802. Embora comumente entendido como a força antagonista em Paraíso Perdido, Satanás pode ser melhor definido como um herói trágico ou helénico. De acordo com William McCollom, uma qualidade do herói trágico clássico é que ele não é perfeitamente bom e que a sua derrota é causada por um erro trágico. Como Satanás é o causador tanto da queda do homem como da condenação eterna dos anjos caídos seus companheiros, apesar da sua dedicação aos seus camaradas, Satanás é talvez um exemplo de tropo. Além disso, as qualidades helénicas de Satanás, como a sua imensa coragem e, talvez, a falta de uma moral completamente definida, compõem a sua natureza trágica.McCollom, William G. ―The Downfall of the Tragic Hero.‖ College English 19.2 (1957): 51- 56.

O estatuto de Satanás como protagonista do poema épico, no entanto, é discutível; Milton indubitavelmente caracteriza-o como tal, mas Satanás carece de várias características chave que se assim não fora o tornariam o protagonista definitivo da obra. Um factor decisivo que insinua o papel de protagonista de uma história é que com frequência o protagonista é maciçamente caracterizado e descrito muito melhor do que os outros personagens e o modo como o personagem é descrito destina-se a fazê-lo parecer mais interessante ou especial para o leitor.(Taha, Ibrahim. "Heroism In Literature." The American Journal of Semiotics18.1/4 (2002): 107-26. Philosophy Document Center. Web. 12 Nov. 2014) A este respeito, Satanás não apenas é bem caracterizado como é apresentado como muito versátil e como tendo a capacidade de fazer o mal mantendo as suas características qualidades simpáticas e é esta natureza complexa e relacionável que faz dele um candidato admissível para protagonista principal da história.

No entanto, a definição de Ibrahim Taha de protagonista afirma que este deve ser capaz de existir em e de si mesmo ou por si próprio e que os personagens secundários da obra existem apenas pelo enredo do protagonista.Taha, Ibrahim. "Heroism In Literature." The American Journal of Semiotics18.1/4 (2002): 107-26. Philosophy Document Center. Web. 12 Nov. 2014 Dado que Satanás não existe unicamente por si próprio, pois que sem Deus não teria um papel a desempenhar na história, ele não pode ser visto como protagonista devido às contínuas mudanças de perspectiva e da importância relativa dos personagens em cada livro da obra. A existência de Satanás na história envolve a sua rebelião contra Deus e a sua determinação para corromper os seres que ele cria a fim de que possa haver um claro equilíbrio e justiça para si e para os seus anjos caídos. Portanto, é mais provável que ele existe de modo a combater Deus, tornando o seu estatuto como o protagonista definitivo da obra em relação a cada livro. thumb|upright|direita|Gustave Doré, Representação de Satanás, a personagem central de Paraíso Perdido de John Milton 1866. O debate tradicional do estatuto de Satanás como herói da obra é similar ao debate sobre os vários significados que o termo "herói" evoca, dependendo do tempo e da pessoa que dá a definição. De acordo com Aristóteles, um herói é alguém que é "sobre-humano, parecido a um deus e divino", mas que também é humano.Steadman, John M. "Heroic Virtue and the Divine Image in Paradise Lost. "Journal of the Warburg and Courtauld Institutes 22.1/2 (1959): pp. 89 Um herói teria de ser um humano com poderes divinos ou um filho de Deus. Enquanto Milton dá razão para acreditar que Satanás é sobre-humano, dado que foi originalmente um anjo, ele é tudo menos humano. Portanto, de acordo com a definição de Aristóteles de herói, Satanás não é um herói. Torquato Tasso e Francesco Piccolimini desenvolveram a definição de Aristóteles e afirmaram que para alguém ser considerado heróico tem que ser perfeita ou excessivamente virtuoso.Steadman, John M. "Heroic Virtue and the Divine Image in Paradise Lost. "Journal of the Warburg and Courtauld Institutes 22.1/2 (1959): pp. 90 Satanás repetidamente demonstra ser desprovido de virtude ao longo da história, ao pretender seduzir as criaturas de Deus com o mal, a fim de destruir o bem que Deus está a tentar criar. Satanás vai contra a lei de Deus e, portanto, torna-se corrupto e desprovido de virtude e, como Piccolimini advertiu, "o vício pode ser confundido por virtude heróica". Satanás é muito dedicado à sua causa, embora essa causa seja o mal, mas ele esforça-se para retorcer as suas aspirações sinistras para que aparecem como boas. Satanás alcança este fim várias vezes ao longo do texto como quando atiça o seu bando de anjos caídos durante o seu discurso ao deliberadamente lhes dizer para fazer o mal, ao explicar a hipocrisia de Deus e novamente durante a sua súplica a Eva. Ele faz que as suas intenções parecem puras e positivas, mesmo quando estão enraizadas no mal e, de acordo com Steadman, esta é a razão principal por que os leitores muitas vezes confundem Satanás com um herói.

Embora o exército de Satanás perca inevitavelmente a guerra contra Deus, Satanás alcança uma posição de poder e começa o seu reinado no Inferno com o seu bando de seguidores leais, composto de anjos caídos, que é descrito como sendo um "terço do céu". A caracterização de Satanás como o líder de uma causa falhada é melhor exemplificada através da sua própria citação, "ser fraco é ser infeliz; Fazer ou Sofrer,” através de solidariedade compartilhada defendida por poderosa retórica, Satanás atiça os seus camaradas de armas e mantém-nos focados no seu objectivo conjunto.Milton, John. Paradise Lost. The Norton Anthology of English Literature. 9th ed. Vol. B. Nova Iorque ; Londres: W.W. Norton, 2012. 1950. Print. Semelhante ao desejo republicano de Milton de derrube do rei da Inglaterra, no sentido de uma melhor representação e reforço do poder parlamentar, Satanás argumenta que sua rebelião compartilhada com os anjos caídos é um esforço para "explicar a hipocrisia de Deus", e ao fazê-lo, para serem tratados com o respeito e o reconhecimento que eles merecem. Como o estudioso Wayne Rebhorn argumenta, "Satanás insiste que ele e os seus companheiros revolucionários mantêm os seus lugares por direito, o que o levam mesmo a reivindicar que eles eram autocriados e auto sustentados" e assim a posição de Satanás na rebelião é muito parecido com a de seu próprio criador.Rebhorn, Wayne A. “The Humanist Tradition and Milton’s Satan: The Conservative as Revolutionary”. Studies in English Literature, 1500-1900, Vol. 13, No. 1, The English Renaissance (Winter 1973), pp. 81-93. Print.

No entanto, a verdadeira natureza do seu papel no poema tem sido objecto de muito debate de autores e académico. Enquanto alguns estudiosos, como o crítico e escritor C. S. Lewis, interpretam o poema como um conto de moralidade cristã genuína, outros críticos, como William Empson, veem-no como uma obra mais ambígua, com a complexa caracterização de Satanás por Milton jogando em grande parte nessa percebida ambiguidade.Leonard, John. "Introduction". Paradise Lost. Nova Iorque: Penguin, 2000.

Adão Adão é o primeiro ser humano criado por Deus. Embora inicialmente sozinho, Posteriormente Deus lhe faz uma companheira. Considerada a preciosa criação de Deus, Adão, juntamente com sua esposa, manda em todas as criaturas do mundo e reside no Jardim do Paraíso. Ele é mais gregário do que Eva e anseia pela companhia dela. A sua paixão completa por Eva, enquanto pura em si mesma, acaba por contribuir para que se junte a ela na desobediência a Deus.

Ao contrário da versão bíblica, ao Adão de Paraíso Perdido, antes de deixar o paraíso, é dado um vislumbre do futuro da humanidade (incluindo uma Sinopse das histórias do Antigo e do Novo Testamentos) pelo arcanjo Miguel.

thumb|upright|William Blake, A Tentação e Queda de Eva, 1808 (ilustração de Paraíso Perdido de Milton.|esquerda)

Eva Eva é o segundo ser humano criado por Deus, tirada de uma das costelas de Adão e moldada segundo uma forma feminina de Adão. Longe de ser o modelo tradicional de uma boa esposa, ela não se dispõe muitas vezes a ser submissa a Adão. Ela é mais inteligente e curiosa de ideias alheias do que o marido. Embora feliz, ela anseia por conhecimento e, mais especificamente, o autoconhecimento. O seu primeiro acto na existência é afastar-se de Adão e olhar e ponderar sobre o seu próprio reflexo. Eva é extremamente linda e completamente apaixonada por Adão, embora possa sentir-se sufocada pela sua presença constante. Um dia, ela convence Adão que seria bom separarem-se e trabalharem diferentes partes do jardim. Na sua solidão, ela é tentada por Satanás a pecar contra Deus. Adão em breve se junta a ela.

Filho de Deus