Marselha (em francês, Marseille; em occitano, Marselha; antigamente, conhecida como Massália/Massília, do grego Μασσαλία) é a segunda mais populosa cidade de França e a mais antiga cidade francesa. Localizada na antiga província da Provença e na costa do Mediterrâneo, é o maior porto comercial do país.
Em 2019, a população municipal era de habitantes distribuídos por 240,62 km², atingindo habitantes na região metropolitana (equivalente a aire urbaine em francês — área urbana) de Marselha-Aix-en-Provence em km², sendo a terceira região metropolitana mais populosa da França, após Paris e Lyon.
Marselha é a capital administrativa da região (préfecture de région) de Provence-Alpes-Côte d'Azur e do departamento (préfecture départementale) de Bouches-du-Rhône (Bocas do Ródano). Foi povoada pelos gregos no e passou para o domínio romano em
Etimologia Marselha vem do nome grego Μασσαλία (Massalia) usada para nomear a vila fundada pelos gregos de Foceia. Várias hipóteses existem para explicar a origem do nome.
O primeiro vem de Mas Saliens, residência dos Salyens, ‘Mas’ é uma palavra provençal de origem latina e “Saliens” é de origem céltica. Outra explicação diz que o nome provem da palavra grega Mάσσα (Massa), os fenícios que relataram da Ásia Menor o costume de dar esse nome para cidades, castelos, rios, etc. (encontrou-se, por exemplo, mais do que trinta Massa na Itália).
Uma explicação mais plausível é proposta por Ernest Negro, que acredita que o lugar é nomeado pelos fenícios, a partir de um rio atual Grécia, Massalia. Bénédicte e Jean-Jacques FÉNIÉ, acreditam pensar em um nome da língua ligúre.
História Pré-história e antiguidade clássica 200px|thumb|left|Porto Velho de Marselha (Vieux-Port de Marseille)
Diversos achados e estudos arqueológicos de diferentes assentamentos comprovam a presença humana de maneira contínua em Marselha desde a pré-história. As pinturas rupestres paleolíticas na Caverna de Cosquer, próximo ao calanque de Morgiou, datadas entre 27 000 e , atestam a presença humana na área de Marselha há mais de 30 000 anos.J. Buisson-Catil, I. Sénépart, Marseille avant Marseille. La fréquentation préhistorique du site. Archéologia, no. 435, July-August 2006, pages 28-31 No sítio arqueológico da colina de São Carlos, no centro urbano, recentes escavações têm encontrado ruínas de moradias e construções de tijolo de barro e terra modelada do Neolítico, cerca de Estas técnicas de construção poderiam confirmar as teorias de John Guilaine sobre a propagação da cultura neolítica através da migração de povos do Oriente Médio através do Mediterrâneo.em Jean Guilaine, Le Mer partagée, la Méditerranée avant l'écriture, Hachette, 2005
A cidade de Marselha propriamente dita foi fundada em pelos gregos de Foceia, cidade esta que ficava na península de Anatólia,Tucídides Bk1,13 como um porto comercial sob o nome de Μασσαλία (Massália). Embora as circunstâncias e a data precisa da fundação desta colônia continuem imprecisas, a lenda sobrevive.
O desenvolvimento posterior de Massália, que atingiria um significativo número habitantes e a categoria de pólis (cidade-estado), a transformou em um porto grego de referência na Europa Ocidental. Mais adiante se aliou, por proteção, à República Romana em suas disputas com etruscos, celtas e cartagineses. Esta aliança fez a colônia grega prosperar graças a sua posição como ponte de comércio entre Roma e os povos do interior da Gália, facilitando o intercâmbio de bens manufaturados, escravos e, particularmente, de vinho, cuja elaboração e cultivo em Marselha remonta ao , como demonstram a escavações na colina de Saint-Charles, com a descoberta de substratos de viticultura, os mais antigos descobertos na França. Em , como consequência de seu apoio ao partido de Pompeu em sua disputa com Júlio César, foi anexada a Roma por este último após vencer e capturar a sua frota, adotando o nome latino de Massília.
A administração romana manteve a fundação construída pelos gregos, como atestam os achados arqueológicos, que mostram também trabalhos de ampliação e obras de infraestrutura inovadoras dos romanos, como o esgoto, do qual Marselha foi a primeira vila na Gália a ser equipada. Pátria do famoso marinheiro Píteas, Massília foi controlada por um conselho de 15 senadores eleitos entre os 600 do Senado, embora o poder executivo fosse desempenhado por apenas três deles.
De acordo com a tradição católica, Maria Madalena difundiu o cristianismo na Provença a partir de Massilia junto com Lázaro de Betânia, que seria, segundo alguns autores, o primeiro bispo da diocese de Marselha. Do período de expansão cristã, se conserva o epitáfio dos prováveis mártires Volusiano e Fortunato, considerada a mais antiga das inscrições cristãs.
Idade Média: cidade da Provença thumb|Marselha em 1575
Após o colapso do Império Romano na Europa Ocidental, no , a cidade passou a ser governada pelos visigodos, que a cederam aos ostrogodos após a Batalha de Vouillé em 507, para evitar que caísse nas mãos dos francos, que, entretanto, acabaram ocupando-a.
No início do , a destruição do Reino Visigótico pelo Califado Omíada e a instauração de seu poder na Península Ibérica, iniciou um período de disputa pelo controle da Europa Ocidental com o Império Carolíngio, o que afetou o desenvolvimento de Marselha e as demais vilas francas da costa mediterrânea, principalmente na primeira metade do , com o assédio das rotas comerciais pela pirataria. Marselha foi atacada e saqueada duas vezes naquele período por tropas muçulmanas enviadas de Al-Andalus, em 838 e 846. A decadência econômica se manifestou durante todo o , e Marselha não pode manter seus privilégios municipais, porém foi recuperando-se uma vez integrada as possessões dos condes da Provença. Em 1262, a cidade se rebelou sob Bonifácio VI de Castellana e Hugues des Baux, primo de Barral des Baux, contra o governo dos angevinos, porém foi derrotada por Carlos I da Sicília e Nápoles. Em 1348, a cidade foi um dos focos de penetração na Europa da devastadora epidemia de peste bubônica (peste negra), por sua condição de porto, resultando na morte de cerca de 15 000 de seus 25 000 habitantes.Duchêne e Contrucci (2004), página 182. Além disso, sem se recuperar do desastre demográfico, a cidade é atacada e saqueada durante 3 dias em 1423 pela frota de Afonso V de Aragão, em resposta as pretensões de Luís III de Nápoles em recuperar o domínio dos territórios do sul da Itália.
thumb|esquerda|Torre de Renato I de Nápoles de meados do , no forte de São João
Em 1437, Renato I de Nápoles, que sucedeu a seu pai Luís II de Nápoles como Rei da Sicília e Duque de Anjou, chegou a Marselha e tornou-a um dos assentamentos mais fortificados fora de París. Marselha foi logo usada pelo duque de Anjou como uma base marítima estratégica na reconquista de seu reino da Sicília. O Rei René, que desejava equipar a entrada do porto com uma sólida defesa, decidiu construir sobre as ruínas da antiga torre Maubert e estabelecer uma série de muralhas para proteger o porto. Jean Pardo, engenheiro, criou os projetos e Jehan Robert, pedreiro de Tarascon, cuidou do trabalho. A construção das novas defesas da cidade ocorreu entre 1447 e 1453.
O comércio em Marselha também floresceu enquanto o sindicato começou estabelecer uma posição de poder com os comerciantes da cidade. Renato também fundou a Corporação de Pescadores.
Marselha se uniu a Provença em 1481 e então se incorporou ao Reino da França no ano seguinte, mas logo adquiriu uma reputação por se rebelar contra o governo central. Cronologia, página 182, e Parte III, Capítulos 25-36.
Renascimento: integração à coroa da França Uns 30 anos após sua incorporação, Francisco I visitou Marselha, atraído por sua curiosidade de ver um rinoceronte que o rei Manuel I de Portugal estava enviando ao papa Leão X, mas que havia naufragado na Ilha de If. Como resultado desta visita, se construiu a fortaleza do Castelo de If, o que não bastou para impedir o cerco do exército do Sacro Império Romano alguns anos mais tarde. Marselha tornou-se base naval para a aliança franco-otomana em 1536, enquanto uma frota franco-turco ficava estacionada no porto, ameaçando o Sacro Império Romano e, especialmente, a Gênova. No final do , Marselha sofreu outro surto da praga, o que contribuiu para que pouco depois se fundasse o hospital do Hôtel-Dieu. Um século mais tarde o rei teve que descer a Marselha, a frente de seu exército, com o fim de eliminar um levante local contra o governador. Como consequência, os fortes de San Juan e San Nicolás foram erguidos acima do porto e uma grande frota e arsenal instalados no próprio porto.
250px|thumb|Intérieur du port de Marseille, de Joseph Vernet (1754)
Séculos XVIII e XIX No transcorrer do , a defesa do porto foi melhorada e Marselha se tornou mais importante, como principal porto militar francês no Mediterrâneo. Em 1720, a grande peste de Marselha, uma variante da Peste Negra, provocou mortes na cidade e nas províncias limítrofes.Roger Duchêne e Jean Contrucci (2004), capítulo 24, La peste, páginas 360-378. Jean-Baptiste Grosson, notário real, escreveu de 1770 a 1791 o almanaque histórico de Marselha, Recueil des antiquités et des monumentos marseillais qui peuvent intéresser l'histoire et les arts, ("Coleção de antiguidades e monumentos de Marselha que podem interessar a história e as artes"), que durante muito tempo foi o principal recurso sobre a história dos monumentos da cidade.
A população local abraçou com entusiasmo a Revolução Francesa e 500 voluntários marcharam para Paris em 1792 para defender o governo revolucionário. Em sua marcha de Marselha a Paris cantavam uma canção, que passou a ser conhecida como La Marseillaise, hoje em dia convertida no hino nacional da França.
Durante o , a cidade foi lugar de inovações industriais e de crescimento na indústria. A ascensão do Império Francês e as conquistas da França de 1830 em diante (sobretudo a Argélia) estimularam o comércio marítimo e aumentaram a prosperidade da cidade. As oportunidades marítimas também aumentaram com a abertura do Canal de Suez em 1869. Este período na história de Marselha se reflete em muito de seus monumentos, como o obelisco napoleônico de Mazargues e o arco do triunfo real na Praça Jules Guesde.
Século XX left|200px|thumb|Porto de Marselha depois da Segunda Guerra Mundial Durante a primeira metade do , Marselha comemorou seu status de "porto do Império" na exposição colonial de 1906 e 1922. A monumental escadaria na estação de trem, glorificando as conquistas coloniais francesas, datam desta época. Em 1934, Alexandre I da Iugoslávia chegou ao porto para se reunir com o ministro das relações exteriores francês Louis Barthou, porém, ambos foram ali assassinados por Vlado Chernozemski.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade foi bombardeada pela Alemanha e Itália em 1940. Foi ocupada pelos alemães entre novembro de 1942 e agosto de 1944. Uma grande parte do centro antigo da cidade foi dinamitado num enorme projeto de limpeza, com o objetivo de reduzir as possibilidades de ocultar membros da suposta resistência, que operavam nos edifícios antigos de grande densidade de população. Os governos da Alemanha Oriental, Alemanha Ocidental e Itália pagaram enormes reparações, acrescidas de juros, para indenizar civis mortos, feridos ou que ficaram sem-teto ou indigentes como consequência da guerra, e para a reconstrução da cidade.
A partir da década de 1950, a cidade serviu como porto de entrada na França de mais de um milhão de imigrantes. Em 1962, houve um grande fluxo após a independência da Argélia que incluiu uns 150 000 Pieds-Noirs, que se estabeleceram em Marselha, um número considerável para uma cidade grande que já atravessa uma crise econômica. Muitos dos imigrantes permaneceram e tem dado a cidade um vibrante barro africano com um grande mercado.
Geografia