Síria (; ou ; transl.: ), oficialmente República Árabe Síria () é um país localizado na Ásia Ocidental. O território sírio de jure faz fronteira com o Líbano e o Mar Mediterrâneo a oeste; a Turquia ao norte; o Iraque a leste; a Jordânia ao sul e Israel ao sudoeste. Um país de planícies férteis, altas montanhas e desertos, é o lar de diversos grupos étnicos e religiosos, inclusive árabes, gregos, armênios, assírios, curdos, circassianos,Gammer, 2004, p. 64. mandeusWho cares for the Mandaeans?, Australian Islamist Monitor e turcos. Os grupos religiosos incluem sunitas, cristãos, alauitas, drusos, mandeus e iazidis. Os árabes sunitas formam o maior grupo populacional do país.
Antigamente, o nome de "Síria" era sinônimo de Levante (conhecido em árabe como Xame ou Axame), enquanto o Estado moderno abrange os locais de vários reinos e impérios antigos, como a civilização eblana, do Sua capital, Damasco, está entre as mais antigas cidades continuamente habitadas do mundo. Na era islâmica, a cidade se tornou a sede do Califado Omíada e uma capital provincial do Sultanato Mameluco do Egito. A Síria moderna foi estabelecida após a Primeira Guerra Mundial durante o Mandato Francês e era o maior Estado árabe a surgir na região do Levante, que antigamente era dominada pelo Império Otomano. O país conquistou a independência como uma república parlamentar em 24 de outubro de 1945, quando a Síria tornou-se membro fundador da Organização das Nações Unidas, um ato que legalmente pôs fim ao antigo domínio francês — embora as tropas francesas não tenham deixado o país até abril de 1946.
O período pós-independência foi tumultuado e vários golpes militares e tentativas de golpe abalaram a nação árabe no período entre 1949 e 1971. Entre 1958 e 1961, a Síria entrou em uma breve união com o Egito, que foi encerrada depois do golpe de Estado de 1961. A República Árabe Síria surgiu no final de 1961 depois do referendo de 1 de dezembro, mas se tornou cada vez mais instável até o golpe de Estado de 1963, após o qual o Partido Baath assumiu o poder. A Síria esteve sob uma lei de emergência entre 1963 e 2011, o que efetivamente suspendeu a maioria das proteções constitucionais de seus cidadãos, além de seu sistema de governo ser amplamente considerado como autoritário. Por cinquenta e três anos, a Síria foi governada pela Família Assad. Primeiro por Hafez al-Assad, no poder de 1971 a 2000, e depois por seu filho Bashar, que governou o país por vinte e quatro anos. O regime Assad caiu em dezembro de 2024, após quase uma década e meia de uma violenta guerra civil que matou mais de 500 mil pessoas. Atualmente, a Síria segue arruinada e politicamente fragmentada, com sua infraestrutura interna devastada, cidades em ruínas e milhões de refugiados.
Um país de planícies férteis, altas montanhas e desertos, a Síria é lar de diversos grupos étnicos e religiosos. Os árabes são o maior grupo étnico e os muçulmanos sunitas são o maior grupo religioso. Até a captura de Damasco por forças rebeldes, era o único país governado por neobaasistas. O governo baasista era uma ditadura totalitária com um culto de personalidade abrangente em torno da família Assad, atraindo ampla condenação por sua severa repressão interna e crimes de guerra. Antes da queda de Assad, a Síria era classificada como o quarto pior país no Índice de Estados Frágeis de 2024 e era um dos lugares mais perigosos do mundo para jornalistas. A liberdade de imprensa era extremamente limitada e o país ocupava a segunda pior posição no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2024. Era o país mais corrupto da região MENA e estava classificado como o segundo pior globalmente no Índice de Percepção de Corrupção de 2023. A Síria também havia se tornado o epicentro de uma indústria de Captagon patrocinada por Assad, exportando anualmente bilhões de dólares em drogas ilícitas, tornando-se um dos maiores cartéis de drogas do mundo.
Etimologia
O nome Síria é derivado do termo luvita Sura/i do e dos nomes derivados do grego antigo (, , ou ), ambos originalmente derivados de Aššūrāyu (Assíria), no norte da Mesopotâmia.Rollinger, Robert (2006). "The terms "Assyria" and "Syria" again" (PDF). Journal of Near Eastern Studies 65 (4): 284–287. doi:10.1086/511103.Frye, R. N. (October 1992). "Assyria and Syria: Synonyms" (PDF). Journal of Near Eastern Studies 51 (4): 281–285. doi:10.1086/373570. No entanto, desde o Império Selêucida (323–), este termo também tem sido aplicado ao Levante como um todo e, a partir deste ponto, os gregos passaram a aplicar o termo, sem distinção, para se referir aos assírios e sírios da Mesopotâmia e do Levante.Herodotus, The Histories, VII.63, s:History of Herodotus/Book 7. As principais opiniões acadêmicas defendem que a palavra grega relacionada ao cognato , em última análise, deriva do acadiano .First proposed by Theodor Nöldeke in 1881; cf. No passado, acreditava-se que o nome do país era derivado de Siryon, o nome que os sidônios davam ao Monte Hermon.
A área designada pela palavra mudou ao longo do tempo. Classicamente, a Síria se encontra na extremidade oriental do Mediterrâneo, entre a Arábia, ao sul, e a Ásia Menor, ao norte, e se estende para o interior até incluir partes do Iraque, além de ter uma fronteira incerta a nordeste, que Plínio, o Velho descreveu como incluindo, de oeste a leste, Comagena, Sofena e Adiabena.
Na época de Plínio, no entanto, esta Síria maior tinha sido dividida em uma série de províncias sob o domínio do Império Romano (mas politicamente independentes entre si): a Judeia, mais tarde renomeada como Palestina em 135 (a região correspondente ao atual Israel, a territórios palestinos e à Jordânia), no extremo sudoeste; Fenícia (estabelecida em 194) correspondente às regiões modernas do Líbano, Damasco e Homs; Celessíria, ao sul do rio Eleutéris, e o Iraque.
História
Pré-história e primeiras civilizações
Habitado há dezenas de milhares de anos, o território sírio está localizado no Crescente Fértil, onde, por volta de 12 mil anos atrás, a agricultura e a pecuária foram descobertas. Mil anos depois, o cultivo de cereais já era generalizado nessa região.
Por volta de , surgiu o Reino de Ebla, sediado na cidade de mesmo nome, o primeiro da atual Síria. As tábuas de argila encontradas em sítios arqueológicos em Ebla mostram a intensa vida desse reino. A língua falada por esses povos era o eblaíta, da família semita do noroeste. esquerda|miniaturadaimagem|Ruínas de Ebla
Por volta de , o Império Acádio, de Sargão, conquistou o reino de Ebla, destruindo a sua capital por volta de No entanto, os acádios caíram pouco tempo depois, sendo substituídos pela dinastia dos gútios e depois pelo Império de Ur. Entre e , os amoritas, um povo semita oriundos do atual território sírio, criaram seus estados no que hoje é a Síria e o Iraque, um dos quais deu origem ao Império Babilônico. Por volta de , os hititas, uma civilização na Ásia Menor, invadiram o norte sírio e destruíram as cidades de Alalaque, Alepo e Ebla. Décadas depois, os hurritas se estabeleceram na Alta Mesopotâmia e fundaram o Reino de Mitani, que, no , se tornou a força dominante na Síria, sendo alvo de disputa de influência entre os egípcios e hititas. Por volta de , os hititas dominaram Mitani, ao mesmo tempo que os assírios criaram o seu primeiro reino.
No , os arameus, oriundos do norte da Síria, criaram reinos pelo território sírio. Por volta do , foi criado, por esse povo, o Reino de Arã-Damasco, sediado em Damasco, cujas batalhas com o Reino de Israel, criado pelos israelitas na mesma época, formam muito do Antigo Testamento. No , o Império Assírio conquistou grande parte do Levante, mas falhou em conquistar os reinos arameus e neo-hititas do norte da Síria. No final daquele século, os cimérios, medos e citas, povos indo-europeus irânicos. Em , o Império Neobabilônico, criado pelos caldeus e liderado por Nabucodonosor II, conquistou Nínive, a capital assíria, por conseguinte dominando todo o império.
Em , Ciro, o Grande, líder do persa Império Aquemênida, conquistou a Babilônia e o território sírio passou a fazer parte dos seus domínios. Na organização territorial do imperador Dario I, a Síria, junto com a Palestina, a Fenícia e o Chipre, era parte da satrapia “Do outro lado do rio”, dentre cujos principais centros estavam Damasco e as cidades fenícias.
Gregos, romanos e bizantinos Em , as tropas de Alexandre, o Grande derrotaram os persas na Batalha de Isso. Com isso, todo o Oriente Próximo cai nas mãos do Império Macedônico. Após a morte de Alexandre, em , seus generais disputaram o domínio da Síria entre si até que, na Batalha de Ipso (), foi decidido que o norte da região em disputa pertenceria ao Império Selêucida e o sul, ao Reino Ptolemaico. Os ptolemaicos respeitaram a autonomia e a cultura dos povos dominados, enquanto que os selêucidas fundaram colônias militares e cidades, como Antioquia, Apameia e Selêucia Piéria. Por volta de , os selêucidas conquistaram o sul da Síria. Durante os quase três séculos de domínio helênico, houve uma forte influência cultural grega nos povos levantinos e muitos dos locais foram helenizados. miniatura|esquerda|Cidade antiga de Palmira antes da Guerra Civil
No final do período helênico, as disputas pelo poder no Império Selêucida fizeram-no perder o controle de muitas regiões do Oriente Próximo. Ao norte, conseguiram manter seus domínios, mas, ao sul, houve o surgimento de três reinos: o da Itureia, da Judeia e Nabateu. Em , a Síria foi tomada pelo Reino da Armênia, que governou essa porção até os romanos, liderados por Pompeu, conquistarem a região entre 64 e , transformando-a em uma província romana, renomeada durante o reinado do imperador Adriano para Síria Palestina.
No início do Império Romano, a Síria era uma das províncias mais importantes. A prosperidade dessa região durante o domínio romano dependia dos cultivos de uvas, oliveiras e frutas, das indústrias de tintura, tecelagem e metalurgia e das rotas comerciais vindas do leste para o Mediterrâneo, passando por cidades como Palmira, Bostra e Damasco.
Com a divisão do Império Romano, a Síria passou a fazer parte da sua porção oriental, o Império Bizantino. A Síria se tornou uma importante base de operações bizantina durante as Guerras bizantino-sassânidas. Houve vezes em que essa região foi invadida pelos sassânidas, a mais duradoura das quais durou de 606 a 628.
Civilização árabe esquerda|miniaturadaimagem|Interior da Mesquita Omíada, em Damasco, construída durante a conquista da cidade pelos árabes
A conquista árabe da Síria se iniciou entre 633 e 634, tendo como líder mais importante Calide ibne Alualide. Em 634, Damasco foi conquistada pelo Califado Ortodoxo. O imperador bizantino Heráclio tentou contra-atacar os árabes na Batalha de Jarmuque (636), mas não deu certo; em 640, a conquista já estava completa. Em 660, foi estabelecido o Califado Omíada, tendo como capital Damasco, que se torna um importante centro cultural e religioso islâmico, acumulando ainda mais riquezas. Os califados toleraram os hábitos e a religião dos cristãos e judeus que viviam em seus domínios, mediante pagamento de imposto. Os sírios, em grande parte, foram arabizados e islamizados ao longo do tempo.
Em 750, os abássidas tomaram o poder do califado e transferiram sua capital para Bagdá. A Síria foi uma província resistente ao domínio dessa nova dinastia e ainda leal aos omíadas; a última revolta pró-omíada foi em 905. Ao mesmo tempo, os cristãos foram tratados com menos tolerância, acelerando a islamização.