As Variações Goldberg, BWV 988, formam um conjunto de variações para cravo compostas por Johann Sebastian Bach. Publicadas inicialmente em 1741 como o quarto volume da série Clavier-Übung ("Prática do Teclado") de Bach, a obra é considerada um dos mais importantes exemplos da forma variação.

Depois da exposição da ária no começo da peça, surgem trinta variações seguidas pela repetição da ária. As Variações foram escritas, provavelmente, por volta de 1741 para o Conde Hermann Karl von Keyserling; foram tocadas para o conde pelo cravista Johann Gottlieb Goldberg, a quem elas foram, por fim, dedicadas.

As Variações Goldberg eram tidas no passado como um exercício técnico árido e aborrecido. Hoje, entretanto, o conteúdo e a abrangência emocional da obra tem sido reconhecido e se tornou a peça favorita de muitos ouvintes de música erudita. As Variações são largamente executadas e gravadas e têm sido objeto de muitos artigos, livros e estudos analíticos.

__NOTOC__ Composição | Publicação | Forma | Recepção | BWV1087 Transcrições | Cultura popular | Livros | Edições | Gravações | Ligações externasÁria - As variações: - Aria da capo1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30

Composição thumb|right|Página Título das Variações Goldberg (primeira edição)

A história da criação das variações foi tirada da biografia de Bach escrita por Johann Nikolaus Forkel:

"(Quanto a essas variações), devemos agradecer à provocação do ex-embaixador russo na corte eleitoral da Saxônia, o conde Hermann Karl von Keyserling, que frequentemente passava por Leipzig e que trouxe consigo o já mencionado Goldberg para receber orientações musicais de Bach. O conde tinha frequentes acometimentos de doenças e ficava noites sem dormir. Em tais ocasiões, Goldberg, que vivia em sua casa, tinha que passar a noite na antecâmara para tocar para ele durante sua insônia. … Certa vez, o conde mencionou, na presença de Bach, que ele gostaria de ter algumas obras para teclado para Goldberg executar, que deveriam ser de caráter suave e algo vigoroso de modo que ele pudesse ser um pouco consolado por elas em suas noites sem dormir. Bach imaginou que a melhor maneira de atender a esse desejo seria por meio de variações, cuja escrita ele considerava, até àquela data, uma tarefa ingrata devido ao fundamento harmônico repetidamente semelhante. Mas, uma vez que a essa época todos os seus trabalhos já eram padrões de arte, tais se tornaram, em suas mãos, estas variações. Mesmo assim, ele produziu um único trabalho desta espécie. Daí em diante, o conde sempre as chamava de "as suas" variações. Ele nunca se cansou delas e, por um longo período, noites sem dormir significavam: 'Caro Goldberg toque para mim uma de minhas variações'. Provavelmente Bach nunca foi tão bem recompensado por seu trabalho quanto foi neste. O conde o presenteou com um cálice de ouro com 100 luíses de ouro. Não obstante, mesmo que o presente tivesse sido mil vezes maior, seu valor artístico nunca teria sido pago." (tradução para o inglês da edição de Ralph Kirkpatrick citada abaixo)

Forkel escreveu sua biografia em 1802, mais de 60 anos depois dos acontecimentos relatados, portanto, é possível que a história tenha sido um pouco embelezada. A falta de uma dedicatória na capa também torna questionável a encomenda. A idade de Goldberg na época da publicação (14 anos) também tem sido apontada como base para por em dúvida o relato de Forkel; entretanto, o jovem cravista de Keyserling era famoso por suas habilidades no teclado, especialmente em leitura à primeira vista. Sob este prisma, parece possível que Bach tenha cedido uma cópia das variações ao conde para que Goldberg as tocasse (possivelmente durante sua visita à Saxônia no fim de 1741?).

A ária em que as variações foram baseadas, foi sugerida por Arnold Schering, não sendo de autoria de Bach. A literatura acadêmica mais recente (a edição de Christoph Wolff citada abaixo) deixa claro que não há qualquer base para se duvidar da autoria da ária.

Publicação Bastante incomum nas obras de Bach, as Variações Goldberg foram publicadas durante sua vida, especificamente em 1741. O editor foi o amigo de Bach Balthasar Schmid de Nuremberga. Schmid imprimiu a obra utilizando chapas de cobre gravadas em vez de utilizar tipos móveis. Portanto, as notas da primeira edição foram escritas a mão pelo próprio Schmid. Esta edição contém vários erros de impressão.

A capa, mostrada na figura acima, reza, em alemão: Clavier Ubung / bestehend / in einer ARIA / mit verschiedenen Veraenderungen / vors Clavicimbal / mit 2 Manualen. / Denen Liebhabern zur Gemüths- / Ergetzung verfertiget von / Johann Sebastian Bach / Königl. Pohl. u. Curfl. Saechs. Hoff- / Compositeur, Capellmeister, u. Directore / Chori Musici in Leipzig. / Nürnberg in Verlegung / Balthasar Schmids, que significa: "Prática do teclado, consistindo de uma ÁRIA para cravo com diversas variações para cravo de manual duplo (dois teclados). Composto para conhecedores e para o refrigério dos espíritos por Johann Sebastian Bach, compositor da corte real da Polônia e da corte eleitoral da Saxônia, Kapellmeister e Diretor de Música Coral em Leipzig. Nuremberg, Balthasar Schmid, editor."

Com a expressão "Clavier Ubung" (atualmente se escreve "Klavier Übung"), Bach designou as Variações como o quarto e último volume de uma série de obras para o cravo publicadas para os "Liebhaber", isto é, tecladistas amadores dotados de destreza e discernimento.

Sobrevivem hoje 19 cópias da primeira edição, mantidas em museus ou livrarias de livros raros. Destas, a mais valiosa se encontra em Paris, na Biblioteca Nacional da França, que inclui correções e adições feitas pelo compositor.

Estas cópias contêm virtualmente as únicas informações disponíveis aos editores modernos que tentam recuperar as intenções originais de Bach. O autógrafo (manuscrito) não sobreviveu. Uma cópia manuscrita da ária foi encontrada no caderno de música, de 1725, da segunda esposa de Bach, Anna Magdalena. Christoph Wolff, com base na evidência caligráfica, sugere que Anna Magdalena tenha copiado a ária da partitura autógrafa por volta de 1740; ela aparece em duas páginas anteriormente deixadas em branco.

Forma Depois da apresentação da ária no início da peça, há trinta variações. As variações, não acompanham a melodia da ária, antes, seguem seu linhas do baixo e desenvolvimento do acorde. Por essa razão, frequentemente se diz que a obra é uma chacona — a diferença sendo que, na chacona, o tema tem apenas quatro compassos de comprimento enquanto que a ária de Bach é composta por duas se(c)ções de 16 compassos, com repetição.

A linha do baixo é anotada por Ralph Kirkpatrick na sua edição de execução, como segue. right|thumb|Linhas do baixo arquivo de som (Ogg format, 391K).

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Os dígitos acima das notas indicam o acorde específico no sistema do baixo contínuo; dígitos separados por vírgulas indicam diferentes opções tiradas de diferentes variações.

Toda terceira variação, na série de trinda é um cânone que segue um padrão ascendente. Assim, a variação 3 é um cânone em uníssono, a variação 6 é um cânone na segunda (a segunda entrada começa um intervalo de uma segunda acima da primeira), a variação 9 é um cânone na terça e assim por diante até à variação 27, que é um cânone na nona. A variação final, em vez de ser o esperado cânone na décima, é uma quodlibet, discutida abaixo.

Conforme observado por Ralph Kirkpatrick, as variações que se distribuem entre os cânones também são organizadas segundo um padrão. Se ignorarmos o material inicial e final da peça (especificamente a Ária, as duas primeiras variações, o Quodlibet e a ária da capo), o material restante é organizado como segue. As variações imediatamente "após" cada cânone são peças de vários tipos de gêneros, entre eles três danças barrocas (4, 7, 19); uma fugueta (10); uma abertura francesa (16); e dois ornatos árias para a mão direita (13, 25). As variações localizadas "duas" posições após cada cânon (5, 8, 11, 14, 17, 20, 23, 26, e 29) são o que Kirkpatrick chamou de "arabesques"; são variações em tempo vivo com grande utilização do cruzamento de mãos. Este padrão ternário – "cânone", "peça gênero", arabesque – é repetido um total de 9 vezes até que o Quodlibet interrompe o ciclo.

Ao término das trinta variações, Bach escreve Aria da Capo è fine, significando que o executante deve retornar ao começo ("da capo") e tocar novamente a ária antes de concluir.

Duração Uma execução completa das Variações Goldberg usualmente leva de quarenta a oitenta minutos, dependendo dos andamentos e de quantas repetições são feitas.

Variações right|thumb|250px|A Aria das Variações Goldberg A seguir está uma lista de variações com descrições breves fornecidas por alguns autores e executantes. Deve ser observado que a peça tem sido interpretada de várias maneiras e que há uma ampla gama de pontos de vista sobre ela, nem todos aqui representados.

A obra foi composta para um cravo de manual (teclado) duplo (ver teclado musical). As variações 8, 11, 13, 14, 17, 20, 23, 25, 26, 27 e 28 conforme a partitura devem ser executadas em instrumentos com dois manuais (teclados) enquanto que a partitura indica que as variações 5, 7 e 29 podem ser tocadas em cravos com um ou dois manuais. Não obstante, com muita dificuldade, a obra pode ser e executadas em cravos com um manual ou ao piano. Todas as variações são em Sol maior (G major), com exceção das variações 15, 21, and 25. Muitas variações são em forma binária, isto é, uma se(c)ção "A" seguida por uma se(c)ção "B" – geralmente fica a critério do intérprete repetir uma, ambas ou nenhuma dessas se(c)ções.

Ária Esta é a peça que fornece o material temático para as variações seguintes. Numa "ária com variações" típicas do barroco, as variações são baseadas na melodia da ária de abertura, mas aqui, esse objetivo é cumprido pela linha do baixo, mais especificamente as harmonias por ela sugeridas. A ária das Variações Goldberg é uma sarabanda em tempo 3/4, e consiste de uma melodia pesadamente ornamentada: center|thumb|800px|Os primeiros 8 compassos da ária das Variações Goldberg.

O estilo francês da ornamentação sugere que os ornamentos são pensados como parte da melodia entretanto, alguns executantes (notadamente Wilhelm Kempff ao piano) omitem durante a execução alguns ou todos os ornamentos.

Peter Williams, escrevendo em Bach: The Goldberg Variations (Bach: As Variações Goldberg – ver referência a seguir), argumenta que este, afinal de contas, não é um tema, mas a primeira variação, um ponto de vista que apoia a ideia da obra como uma Chacona em vez de ser verdadeiramente uma peça na forma Variação).

Variação 1 right|thumb|Primeiros dois compassos desta variação

Esta variação vivaz contrasta profundamente com o clima lento, contemplativo do tema. De modo interessante, o ritmo na mão direita força a ênfase no segundo tempo originando uma síncope dos compassos 1 ao 7. As mãos se cruzam no compasso 13 do registro superior para o inferior, trazendo de volta este ritmo sincopado por mais dois compassos. Nos primeiros dois compassos da parte B, o ritmo reflete o do início da parte A mas, depois, é introduzida uma nova ideia.

Williams interpreta isso como um tipo de polonaise. O ritmo característico na mão esquerda também é encontrado na Partita nº 3 para violino solo de Bach e no prelúdio em Lá bemol maior do primeiro livro do Teclado Bem Temperado.

Variação 2 Esta é uma peça contrapontística simples, a três partes, em 2/4: duas vozes se entrelaçam numa interação motivadora, constante, acima de uma obstinada linha de baixo. A peça é quase um cânone puro . Cada se(c)ção tem um fim alternativo para ser executado na primeira e na segunda repetição.

Variação 3