Lisístrata (em grego ático: Λυσιστράτη "que dissolve o exército") é uma comédia famosa de Aristófanes. Escrita e encenada na Atenas clássica em 411 a.C., provavelmente nas Lenéias, um dos festivais anuais atenienses sagrados em homenagem ao deus Dioníso.STUTTARD, David. Looking at Lysistrata: Eight essays and a new version of Aristophanes provocative comedy. Londres: Bloomsbury, 2010 Nessas festas, além dos rituais de homenagem a Dioníso, havia também dias reservados para as competições de tragédias e comédias. As obras teatrais eram apresentadas ao público e havia uma votação para saber qual foi a preferida.BOURSCHEID, Marcelo. ENCENAÇÃO E PERFORMANCE NO TEATRO GREGO ANTIGO. 2008. 42f. Monografia de Graduação - Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2008.

A peça Lisístrata é um relato cômico sobre as mulheres gregas, lideradas por Lisístrata, uma personagem feminina de caráter forte. Essas mulheres fartas da guerra entre Atenas e Esparta trancam-se num templo e decidem por votação deflagrar uma greve sexual para forçar uma negociação de paz, uma estratégia ousada para acabar com a Guerra do Peloponeso, mas que, no entanto, provoca uma batalha entre os sexos. Segundo Aristófanes, em sua obra, Lisístrata.

A peça é considerada notável por fazer uma exposição extemporânea das relações sexuais numa sociedade dominada pelos homens. As comédias não eram apenas engraçadas, na Grécia antiga o teatro grego era uma forma de entretenimento extremamente popular, pois abordava questões políticas relevantes e fazia grandes críticas à sociedade.

Foi produzida no mesmo ano que As Tesmoforiantes outra peça de Aristófanes focada nas críticas sociais e de gênero, mas a qual segundos grandes estudiosos da área do teatro grego como Gilbert Murray e Whitman Cedric, foi uma peça de menor valor literário, pois não parecia se aprofundar nas críticas pelas quais Aristófanes era conhecido.MURRAY, Gilbert. Aristophanes: a study. Oxford: The Clarendon Press, 1968.

Trama miniaturadaimagem|Lisístrata defendendo a Acrópole (desenho de Aubrey Beardsley)

A peça se inicia com Lisístrata (Dissolvetropa), uma mulher ateniense, convocando outras mulheres Atenienses e de outras cidades, inclusive de Esparta para discutir uma questão importante. Devido a Guerra do Peloponeso os homens das cidades pólos estão completamente envolvidos no exército, não tendo mais tempo para suas famílias. Lisístrata tem uma possível solução para o problema, ou seja, o fim da guerra, ela propõe as outras mulheres que façam uma greve de sexo até que os homens desistam da guerra e façam um acordo de paz, podendo voltar assim para suas famílias. Inicialmente, há uma certa recusa, por parte das outras mulheres, entretanto, após Lampito, uma Spartana acatar a ideia de Lisístrata, as demais também concordam, fazendo um juramento o qual não poderá ser quebrado.Aristófanes, Lisístrata, v.1-239

Como continuidade do plano, as mulheres ocupam a Acrópole ateniense, a fim de privar os homens de meios financeiros para prosseguir com a guerra. Chega então, o Coro de Velhos atenienses, que por vingança, ameaçam colocar fogo na própria Acrópole, porém, são interrompidos por um Coro de Mulheres, onde ocorre um conflito entre eles. Os homens então enviam um delegado para lidar com as mulheres, acompanhado de 4 arqueiros, o delegado manda os arqueiros invadirem a Acrópole, porém, sem sucesso, pois são ameaçados pelas mulheres. Há em seguida uma discussão entre Lisístrata e o Delegado, onde ela explica-lhe sobre a situação, revelando bastante descontentamento, por parte das mulheres, em relação a vida que levam e como são tratada por seus maridos. Sentindo-se insultado pelas mulheres o Delegado se retira e vai ao Tribunal se queixar.Aristófanes, Lisístrata, v.240-613

Algumas mulheres têm muita dificuldade em manter a aliança para prosseguir com o plano, inventam desculpas para saírem da Acrópole e irem para casa com seus maridos. Lisístrata se esforça para convencê-las a ficar, concedendo apenas a Vulverina a oportunidade de encontrar seu marido Trepásio, com propósito de estimular os desejos do homem, mas para depois deixá-lo apenas “na vontade”. E ela o faz com perfeição, deixando seu marido pronto para o ato sexual, mas depois de várias desculpas, foge deixando-o insatisfeito.Aristófanes, Lisístrata, v.708-979

Enquanto isso, a abstinência também é sentida em outras cidades gregas. Vem um Arauto Espartano enviado a Atenas para trazer uma proposta de paz, mas com argumentos poucos convincentes. Conversa, então, com um Embaixador ateniense que o manda de volta à Esparta para que traga os Embaixadores e assinem de uma vez o acordo de paz. Após chegarem na Acrópole, chamam Lisístrata. Diante dela estão o Embaixador Ateniense e o Embaixador Lacedemônio que com toda a situação deprimente que se encontram os homens gregos, decidem então firmar o acordo. Após um grande discurso pacifista de Lisístrata, lembrando as raízes comuns entre os povos gregos, finalmente entram em um acordo, e ficam felizes pela reconciliação. No fim, um banquete é feito para celebrar a paz e o retorno das mulheres aos seus maridos.Aristófanes, Lisístrata, v. 980-1318

Personagens miniaturadaimagem|Lisístrata em companhia de outras mulheres. Estela de mármore, 350 - 325 a.C. Lisístrata – personagem principal da peça, é uma mulher ateniense que tenta junto com outras mulheres acabar com a guerra do Peloponeso através de uma greve de sexo.SPODE, Raphael. A defesa da paz na dramaturgia cômica: A perspectiva da Política em Lisístrata, de Aristófanes. Revista de Relações Internacionais, UFG, v.5, n.10, 2016.

Cleonice – mulher ateniense, tem papel secundário e é vista como a humorista do grupo em alguns momentos, mora ao lado de Lisístrata.

Mirrina – mulher ateniense, é como Cleonice, porém é apresentada como uma ludibriadora, aparecendo brevemente em situações humorísticas.MATA, Giselle Moreira da. “Entre risos e lágrimas”: uma análise das personagens femininas atenienses na obra de Aristófanes (séculos VI a IV a.C.). 2009. 213 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Goiás, Faculdade de História, 2009. Bibliografia: f. 202-213.

Cinésias – Marido de Mirrina, é um guerreiro que tentar convencer a esposa ceder. (Márcio, p. 116)

Lampito - é uma mulher espartana, faz o mesmo papel de Lisístrata, mas em Esparta, no intuito de acabar com a guerra por parte dos espartanos.

Coro de Velhos – grupo de homens que se opõem a tomada da Acrópole e que querem invadi-la para retirar Lisístrata a força.

Coro de Mulheres – grupo de mulheres mais velhas que irão ajudar Lisístrata a tomar a Acrópole. Limitam-se a papéis secundários e apoiam a causa de Lisístrata e Lampito.

Um comissário – Tem a tarefa de tentar solucionar os problemas sociais que ocorrem naquele momento na polis. Acredita que as mulheres não possuem conhecimento algum para resolver estes problemas.SANTANA, Márcio Santos de. Cultura e Identidade na Pólis Grega: Modelos Femininos em Medéia e Lisístrata. Revista Opsis. Departamento de História e Ciências Sociais. UFG, v.8, n10, 2008.

Guerra do Peloponeso Lisístrata foi encenada em 411 a.C., quando a Guerra do Peloponeso já durava 20 anos,DUARTE, Adriane da Silva. O destino de Lisístrata. Uma adaptação para o cinema da comédia de Aristófanes. Archai n. 7, 2011, p. 123-129. tendo como base este fato histórico. A Guerra do Peloponeso é um título que se aplica as várias batalhas ocorridas entre essas duas cidades, Atenas e Esparta, no período de 431 a 404 a.C.. A peça ocorre após o contexto da derrota da expedição grega à Sicília, dois anos mais tarde.FABRÍCIO, Arthur Rodrigues. Aristófanes e sua Lisístrata: Um espelho para relações de alteridade na época da Guerra do Peloponeso. In___. Alethéia – revista de estudos sobre Antiguidade e Medievo, v ½, 2011, p. 89-100.

A Guerra do Peloponeso foi um conflito entre várias cidades gregas, com foco maior nas rivalidades entre Esparta e Atenas, envolvendo também cidades aliadas às partes. Embora o povo helênico compartilhasse crenças, língua e os costumes físicos e espirituais, cada cidade atuava como um Estado autônomo com características próprias.MOSSÉ, Claude. Atenas: A História de uma Democracia. Trad. João Batista da Costa. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982, 2ª edição. Atenas tinha o controle do mar, enquanto a Confederação Espartana dominava na terra. O envolvimento mais sério, que é o ponto de partida de Lisístrata, foi a falha na expedição à Sicília organizada por Atenas para a tomada de Siracusa. Devido à traição do general Alcibíades ao fornecer informações da inteligência ateniense para Esparta, tanto o exército naval quanto terrestre de Atenas foram aniquilados. Pressionados, os atenienses procuraram reconstruir seus exércitos com os fundos de reserva para guerra estocados na Acrópole, local ocupado por Lisístrata e as demais mulheres na peça. Dentro deste cenário de batalha e corrupção, Aristófanes foi o maior relator deste período através de suas comédias, Lisístrata e As Tesmoforiantes.

A comédia aristofânica e a Guerra do Peloponeso A comédia retrata a revolta das mulheres como um problema comum a todos os gregos, independente se forem atenienses ou não, obrigando os homens a buscar a paz e cessar hostilidades. Além da personagem Lampito, suas aliadas da Beócia e Corinto em momento algum são tratadas de maneira rude pelas anfitriãs de Atenas.FABRÍCIO, Arthur Rodrigues. Aristófanes e sua Lisístrata: Um espelho para relações de alteridade na época da Guerra do Peloponeso. In___. Alethéia – revista de estudos sobre Antiguidade e Medievo, v ½, 2011, p. 89-100. O objetivo da revolta feminina é instalar um governo temporário liderado pelas mulheres com foco em reestabelecer a ordem, já que no cenário político cotidiano elas eram privadas de participação. A discussão da peça visa restaurar a vida doméstica das esposas com seus maridos como era antes da guerra ter início, garantindo o desenvolvimento da cidade de forma pacífica.NOBRE, Milena. Tecendo o universo feminino através em Lisístrata: Entre guerras divinas e mortais. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2013.

A identidade grega poderia ser definida por três aspectos: rituais religiosos, terras em comum e a oposição dos helênicos contra os bárbaros. Dentro desta perspectiva, a comédia visava demonstrar o quanto se perdia nas guerras entre povos gregos, enquanto estrangeiros poderiam se organizar e massacrá-los a qualquer momento. O ideal de paz transmitido pelo autor indica o temor pela desunião dos gregos, fazendo da paz um instrumento essencial na luta contra os bárbaros.

Esta obra não foi a única concebida como uma crítica à guerra, tendo outros dramaturgos gregos também explorado o tema, de modo que pode ser analisada a perspectiva destes homens em relação ao conflito, levando a discussão para o teatro e criando uma relação de interlocução da política para com os cidadãos de Atenas no período.

Papel político da mulher Em Lisístrata, Aristófanes aproveita do papel inferior da mulher para gerar o efeito cômico da peça. É a união do cômico com o absurdoDELAGE, Yves. Sur la nature du comique. Revue du Mois (Paris), v. 20, p. 337-54, 1919. – a mulher, fora de seus padrões e em uma posição superior ao homem é algo totalmente além do imaginário dos atenienses.

Ao contrário do que se parece, não se encontra em Lisístrata um discurso de liberação da mulher, pois Aristófanes dividia do mesmo pensamento comum da época: a mulher é um ser inferior e sua única função é garantir seus descendentes.14. MOSSÉ, Claude. La femme dans la Grèce antique. Paris: Albin Michel, 1983. A mulher como núcleo da obra, foi utilizada de forma debochante e exagerada para garantir o riso. As mulheres que até então eram vistas como as causadoras de conflitos, propuseram um acordo de paz, invertendo completamente os conceitos da época.ALVES, Nathaly Felipe Ferreira. Comédia Grega em foco. 2009.

Acessado em: 25/10/2017