thumb|Loba capitolina: Segundo a lenda, o animal teria amamentado os gêmeos Rômulo e Remo A Fundação de Roma é um evento ainda pesquisado por arqueólogos e historiadores, uma vez que as fontes literárias sobre o assunto datam de centenas de anos após sua ocorrência, de forma que cada descoberta arqueológica demanda novas formas de analisar as citadas fontes. Os romanos elaboraram um complexo conto mitológico sobre a origem da cidade e do Estado, que se uniu à obra histórica de Tito Lívio e às obras poéticas de Virgílio e Ovídio, todos da era do imperador Augusto. Naquela época, as lendas oriundas de textos mais antigos foram trabalhadas e fundidas num conto único, no qual o passado mítico foi interpretado em função dos interesses do império. Os modernos estudos históricos e arqueológicos, que se baseiam nestas e em outras fontes escritas, além de objetos e restos de construções obtidos em vários momentos das escavações, tentam reconstruir a realidade que existe no conto mítico, no qual se reconhecem alguns elementos de verdade.
Por muito tempo postulou-se que os verdadeiros fundadores da cidade propriamente dita teriam sido os etruscos que instalaram-se na região no , no entanto, evidências arqueológicas recentemente descobertas questionam a veracidade desta afirmação. A data da fundação é, a rigor, desconhecida, embora autores como Tim Cornell argumentem que teria sido no , . Durante o reinado de Augusto, o historiador Marco Terêncio Varrão estabeleceu a data como 21 de abril de com base em estudos do astrólogo Lúcio Tarúcio Firmano. Outro ponto conflitante em relação a Roma é a etimologia de seu nome. Embora associado pela tradição com Rômulo, diversos autores, tanto clássicos como modernos, associaram diversas origens para o nome "Roma".
Contexto histórico e localização thumb|esquerda|upright=1.1|Rota da Via Salária (em rosa)
Os primeiros habitantes de Roma, os latinos e sabinos, integram o grupo de populações indo-europeias originárias da Europa Central que vieram para a península Itálica em ondas sucessivas em meados do segundo ; era o antigo território dos latinos, atualmente o sul do Lácio. Estes indo-europeus divergiam em origem, língua, tradições, estágios de desenvolvimento e extensão territorial. Por se dispersarem por toda a península Itálica, entraram em contato com outros dois povos que habitavam a região, os etruscos e os gregos. Os etruscos assentaram-se e floresceram a norte de Roma na Etrúria (moderno norte do Lácio, Toscana e parte de Úmbria), a partir do onde fundaram cidades como Tarquinia, Veios e Volterra e influenciaram profundamente a cultura romana. Suas origens são desconhecidas e muito do que se sabe sobre eles é derivado de achados arqueológicos em suas necrópoles. Os gregos haviam se estabelecido na chamada Magna Grécia e fundaram colônias tais como Síbaris, Tarento, Crotona, Cumas e Nápoles entre . Estes, assim como os etruscos, exerceram nítida influência nos povos itálicos e em Roma.
Roma cresceu na margem esquerda do rio Tibre, a cerca de 25 quilômetros de sua foz, num trecho navegável do rio, portanto com acesso fácil ao mar Tirreno. Esta região, de clima temperado, em vista da sua topografia acidentada, possui entre as colinas circundantes alguns importantes vales que, no processo de desenvolvimento da cidade, tornaram-se úteis para a mesma. Além disso, por estes vales serem, no geral, vales vulcânicos, a produtividade do solo, em vista da presença de fertilizantes naturais como potássio e fosfatos, é elevada. A cidade tinha as vantagens de uma posição ao mesmo tempo marítima e do interior. Situada a cerca de 20 km das colinas Albanas, que constituem uma defesa natural, e numa planície suficientemente afastada do mar, a cidade não precisaria temer incursões dos piratas. Além disso, tanto o próprio rio (e a ilha Tiberina) como os montes Capitólio e Palatino operavam como cidadelas naturais facilmente defensáveis.
O maior trunfo de Roma quanto a sua localização foi a proximidade com o rio Tibre. Este desempenhou papel fundamental no desenvolvimento econômico da cidade, pois as mercadorias que provinham do mar Tirreno tinham que subir pelo curso do rio para serem dirigidas quer para a Etrúria, quer para a Campânia grega (Magna Grécia). Desse modo era capaz de monopolizar o tráfego terrestre, uma vez que estava situada na intersecção das principais estradas do interior da península Itálica. Por haver importantes salinas nas proximidades da cidade, conseguiu transformar-se em ponto de mercado perfeito da "via do sal", futuramente conhecida como via Salária, da mesma forma que os rebanhos desempenharam papel primário na economia romana deste período formativo.
Arqueologia thumb|upright=1|A chamada Casa de Rômulo, um conjunto de cabanas primitivas encontradas no monte Palatino ()
Pesquisa arqueológica na área de Roma detectou presença humana datável de anos, havendo restos cerâmicos, ferramentas e armas de pedra de anos. Estas evidências mostram o quão precoce se deu a ocupação do Lácio, embora atualmente não seja possível estabelecer uma visão panorâmica, pois sítios paleolíticos e neolíticos foram obscurecidos pela densa camada de detritos provenientes de fases mais tardias. As primeiras evidências concretas de povoamento nas colinas de Roma são ossos de animais e fragmentos cerâmicos datados dos séculos que foram encontrados na área do Fórum Boário, no sítio de Santo Omobono. Resquícios de habitações datadas do foram encontrados na área do Fórum Romano, bem como uma necrópole (datada do ) com reminiscências de fossas de cremação (os indo-europeus incineravam seus mortos); no Palatino detectaram-se habitações do
Antes do existiam aldeias dispersas nas colinas e ocupadas por latinos que, em caso de perigo confederavam para enfrentar os inimigos. No centro de Roma três recintos muralhados sucessivos sobrepostos foram datados, dois dos e um dos . As habitações deste período eram cabanas de planta circular sobre um soclo (base) de madeira (para isolá-las da umidade) e tinham uma única porta, precedida por um pórtico; urnas funerárias encontradas em escavações representam estas moradias primitivas. A população do assentamento girava em torno de poucas centenas de habitantes que baseavam sua economia na agricultura (trigo, cevada, ervilha, feijão), pecuária (cabras, porcos), pesca, caça e coleta; objetos cerâmicos, roupas e outros artigos de uso doméstico eram produzidos pelas famílias para consumo interno; não havia estratificação social definida. A partir de as necrópoles da região começaram a apresentar maior números de restos humanos, que mostra crescimento da população, bem como artefatos arqueológicos mais elaborados, que indicam contatos com culturas externas, em especial com as colônias gregas da Campânia (objetos de origem grega foram encontrados entre as escavações), maior especialização artesanal (emprego de roda de oleiro) e o aparecimento de classes sociais economicamente diferenciadas.
Lenda
thumb|esquerda|Eneias carregando Anquises (enócoa com pintura negra ática ), Louvre thumb|esquerda|Verso de um didracma,
Na Eneida de Virgílio e na Ab Urbe condita libri de Tito Lívio, Eneias, filho da deusa Vênus, foge de Troia com seu pai Anquises, seu filho Ascânio, e os sobreviventes da cidade. Com este realiza diversas peregrinações que o levam, por fim, ao Lácio, na península Itálica. Lá ele é recebido pelo rei local, Latino, que oferece a mão de sua filha, Lavínia. Isto provoca a fúria do rei dos rútulos, Turno, um poderoso monarca itálico que havia se interessado por ela. Uma terrível guerra entre as populações da península eclode e, como resultado, Turno é morto. Eneias, agora casado, funda a cidade de Lavínio em homenagem à sua esposa. Seu filho Ascânio governa na cidade por trinta anos até que resolve se mudar e fundar sua própria cidade, Alba Longa.
Cerca de 400 anos depois, o filho e legítimo herdeiro do décimo-segundo rei de Alba Longa, Numitor, é deposto por um estratagema de seu irmão Amúlio. Para garantir o trono, Amúlio assassina os descendentes varões de Numitor e obriga sua sobrinha Reia Sílvia a tornar-se vestal (sacerdotisa virgem, consagrada à deusa Vesta), no entanto esta engravida do deus Marte e desta união foram gerados os irmãos Rômulo e Remo (nascidos em março de ). Como punição, Amúlio prende Reia em um calabouço e manda jogar seus filhos no rio Tibre. Como por um milagre, o cesto onde estavam as crianças acaba atolando-se em uma das margens do rio no sopé do monte Palatino, onde são encontrados por uma loba que os amamenta; perto das crianças estava um pica-pau, ave sagrada para os latinos e para o deus Marte, que os protege. Tempos depois, um pastor de ovelhas chamado Fáustulo encontra os meninos próximo à Figueira Ruminal (Ficus Ruminalis), na entrada de uma caverna chamada Lupercal. Ele os recolhe e leva para sua casa, onde são criados por sua mulher Aca Larência.
Rômulo e Remo crescem junto dos pastores da região praticando caça, corrida e exercícios físicos; saqueavam as caravanas que passavam pela região à procura de espólio. Em um dos assaltos, Remo é capturado e levado para Alba Longa. Fáustulo, então, revela a Rômulo a história de sua origem. Este parte para a cidade de seus antepassados, liberta seu irmão, mata Amúlio, devolve Numitor ao trono e dá à sua mãe todas as honrarias que lhe eram devidas. Ao perceber que não teriam futuro na cidade, os gêmeos decidem partir, junto com todos os indesejáveis, para então fundar uma nova cidade no local onde foram abandonados. Rômulo queria chamá-la Roma e edificá-la no Palatino, enquanto Remo desejava nomeá-la Remora e fundá-la sobre o Aventino. Como forma de decidir foi estabelecido que se deveria indicar, através dos auspícios, quem seria escolhido para dar o nome à nova cidade e reinar depois da fundação. Isto gerou divergência entre os espectadores e uma acirrada discussão entre os irmãos, que terminou com a morte de Remo. Uma versão alternativa afirma que, para surpreender o irmão, Remo teria escalado o recém-construído pomério quadrangular da cidade e, tomado em fúria, Rômulo o teria assassinado.
Outras lendas thumb|Fastos Capitolinos, Museus Capitolinos
thumb|upright=1|Mapa das Sete colinas de Roma
Com relação à fundação de Roma muitas tradições foram estabelecidas para retratar o surgimento da cidade, algumas advindas de modificações do mito oficial, outras de diversas origens. Uma delas conta que o deus Saturno, após ser derrotado pelos deuses olímpicos, refugiou-se no Lácio, onde construiu uma vila à beira do Tibre, no local onde Roma seria fundada; ensinou aos habitantes locais como melhor lavrar o solo e cultivar parreiras para produzir vinho. A palavra "Lácio", segundo alguns autores como Philip Wilkinson, originou-se da palavra grega latio que significa refúgio, em referência à fuga de Saturno.
Outra tradição, transmitida por autores clássicos como Estrabão e Tito Lívio, afirma que Roma teria se originado da cidade de Palanteu, fundada por Evandro no Palatino; esta cidade é mencionada na Eneida de Virgílio. Evandro teria dado hospitalidade a Hércules quando este fugia com o rebanho recém-roubado do gigante Gerião, em um de seus doze trabalhos. Diz-se que, durante sua estadia, os rebanhos foram roubados pelo gigante Caco, filho de Vulcano. Hércules então luta com o gigante e, em sua homenagem, os habitantes locais construíram o Grande Altar de Hércules, local onde futuramente se situaria o Fórum Boário.
Historiografia