Bento Gonçalves é um município do estado do Rio Grande do Sul, na Região Sul do Brasil. Ao longo de sua história, já foi conhecido como Cruzinha e Colônia Dona Isabel. A cidade foi erguida na sede da Colônia Dona Isabel, distrito da cidade de Montenegro até 1890. A área era percorrida por indígenas caingangues, os quais se fixavam em pequenos grupos, especialmente nas margens do Rio das Antas, mas estes foram desalojados progressivamente pelos chamados "bugreiros",BUENO, E. Brasil: uma história. Segunda edição revista. São Paulo. Ática. 2003. p. 267. abrindo espaço, no final do século XIX, para que o governo do Império do Brasil decidisse colonizar a região com uma população europeia. Desta forma, milhares de imigrantes, em sua maioria italianos da região do Vêneto, mas com alguns integrantes de outras origens como alemães, franceses, espanhóis e polacos, cruzaram o mar e subiram a Serra Gaúcha, desbravando uma área ainda quase inteiramente virgem.

Depois de um início cheio de dificuldades e privações, os imigrantes conseguiram estabelecer uma próspera cidade, com uma economia baseada inicialmente na exploração de produtos agropecuários, com destaque para a uva e o vinho, cujo sucesso se mede na rápida expansão do comércio e da indústria na primeira metade do século XX. Ao mesmo tempo, as raízes rurais e étnicas da comunidade começaram a perder importância relativa no panorama econômico e cultural, à medida que a urbanização avançava, formava-se uma elite urbana ilustrada e a cidade se abria para uma maior integração com o resto do Brasil. Durante o primeiro governo de Getúlio Vargas houve uma séria crise entre os imigrantes e seus primeiros descendentes e o meio brasileiro, quando o nacionalismo foi enfatizado e as manifestações culturais e políticas de raiz étnica estrangeira foram severamente reprimidas. Depois da Segunda Guerra Mundial a situação foi apaziguada, e brasileiros e estrangeiros passaram a trabalhar concordes para o bem comum. Em 2016 o município adotou o talian como língua co-oficial, ao lado da língua portuguesa.Aprovada em primeira votação projeto que torna o Talian segunda língua oficial de Bento GonçalvesCo-oficialização do Talian é oficializada pela câmara de Bento GolçalvesCâmara Bento – Projeto do Executivo é aprovado e Talian se torna a língua co-oficial

Atualmente, a cidade é o 16º município mais populoso do Rio Grande do Sul e o 248º município mais populoso do Brasil. Sua economia se baseia na produção de uva e vinho, no turismo e no setor moveleiro, sendo o maior polo moveleiro e um dos maiores polos industriais e turísticos do Brasil.

Etimologia A cidade recebeu o atual nome em 1890 por ocasião de sua emancipação, decidindo o governo provincial dar o nome de Bento Gonçalves, em homenagem a Bento Gonçalves da Silva, principal líder da Revolução Farroupilha e por cinco anos presidente da República Rio-Grandense. Anteriormente, foi chamada de Colônia Dona Isabel e também conhecida como Cruzinha. Ainda antes de se iniciar a imigração italiana, a região onde hoje está a cidade era chamada de Cruzinha por tropeiros que ali passavam, já que havia uma pequena cruz no local. Este nome, embora não oficial, designou a área por alguns anos, especialmente entre os anos de 1870 e 1875, enquanto era realizada a demarcação dos lotes que os imigrantes ocupariam, por ser um marco e ponto de referência.  Em 1870 é criada oficialmente a Colônia Dona Isabel, por decreto do governador da província, cujo nome foi uma homenagem à Princesa Isabel. O local, mesmo com o nome oficial de Colônia Dona Isabel, ainda era conhecido como Cruzinha, até que, após o estabelecimento da sede da Colônia e a chegada dos primeiros imigrantes em dezembro de 1875, o nome Cruzinha foi caindo em desuso, sendo designado apenas por Dona Isabel.

História Contexto histórico No final do século XIX, enquanto havia excesso de população na Europa, o Brasil modificou sua política de mão-de-obra e de terras. A maior parte do território brasileiro estava desabitada e sofria com a carência de mão-de-obra livre. Com o processo imigratório, o Brasil teria seus problemas resolvidos pela substituição da mão-de-obra escrava na lavoura e pelo povoamento de áreas desocupadas, com ênfase ao desenvolvimento agrícola das regiões do sul do Brasil. O território do Rio Grande do Sul ficou definido após três séculos e meio da chegada dos portugueses e espanhóis, onde ocorreram diversos conflitos pela disputa da terra. Pela ausência de recursos naturais do antigo sistema colonial, o Rio Grande do Sul ficou cinquenta anos isolado dos interesses tanto de Portugal quanto da Espanha.

Nos primeiros anos do século XVI, diversas expedições exploradoras portuguesas chegaram ao litoral, e passaram a chamar a terra de "Rio Grande de São Pedro". Esta ocupação portuguesa gerou diversos conflitos, além de acordos assinados para a delimitação das fronteiras. Em 1828, após a Guerra da Cisplatina chegar ao fim, foi assinado um acordo que delimitava a fronteira entre o Império do Brasil e o Uruguai. Os jesuítas também tiveram uma considerável importância para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul. O comércio na região do Rio da Prata beneficiou as nações europeias, enquanto que a pecuária e a extração da erva-mate também foram decisivas para o processo de povoamento.

No Rio Grande do Sul, a imigração também era necessária para a revitalização da agricultura, principalmente para o cultivo de trigo, que estava abandonado desde 1820, além do povoamento das regiões da Campanha e dos Campos de Cima da Serra. Na região da Serra Gaúcha, a preocupação principal era no estabelecimento de núcleos para a produção de alguns alimentos para o mercado interno e urbano. Com isso, a divisão territorial foi refeita.

Imigração

Em 1870, na Itália, chegava ao fim o movimento de unificação do país, onde as formas feudais são substituídas pelo capitalismo moderno. Mas antes, em 1855, o governo italiano institui altos impostos, endividando os pobres que perderam as terras para o governo ou para os proprietários maiores, também chamados de senhores, lembrando o feudalismo. O excesso de população aliado à doenças endêmicas e ao horror à guerra e ao serviço militar, deixaram o povo italiano sem perspectivas de melhorar sua própria qualidade de vida. A solução encontrada na época para uma vida mais digna era emigrar.

Desde a Idade Média, a Itália estava dividida em diversos estados, inclusive no século XIX, era constituída por algumas unidades políticas independentes. Com a difusão de ideias nacionalistas, além de um considerável crescimento do movimento liberal presente, a formação de um país unificado passou a ser defendida até mesmo pela burguesia. Surgiram ainda alguns conflitos entre as regiões do norte e sul, já que a porção norte tinha uma relação mais estreita com a Europa Central, que apresentava um alto e rápido nível de desenvolvimento industrial para a época, enquanto a porção sul tinha um povo com costumes mais arcaicos, com predomínio de estruturas latifundiárias.

Chegada à colônia A primeira leva desta corrente migratória chegou ao Brasil em 1875, fixando-se principalmente na região que hoje corresponde a Serra Gaúcha, onde haviam sido delimitadas, a partir de 1870, as colônias Conde d'Eu, Dona Isabel e Caxias, perfazendo as três primeiras colônias de imigração. Após alguns anos, o aumento da densidade populacional tornou os lotes pequenos, o que causou a mudança de local de imigrantes da região, onde alguns que estavam situados na Colônia Dona Isabel se transferiram para a colônia de Encantado. Posteriormente, a colônia de Encantado estava tão cheia que, no início do Século XX, às margens do Rio Taquari, iniciou sua expansão em direção ao norte, onde foram ocupadas as áreas que hoje pertencem aos municípios de Nova Bréscia, Putinga, Anta Gorda, Ilópolis e Arvorezinha. Da mesma forma, após a delimitação da colônia de Guaporé, os lotes restantes foram ocupados pelos filhos e netos dos imigrantes que inicialmente foram assentados nas colônias de Caxias (Caxias do Sul), Dona Isabel (Bento Gonçalves) e Alfredo Chaves (Veranópolis).

Diversos núcleos originaram outras colônias novas, como Caxias, que deu origem as colônias de São Marcos, Nova Trento (Flores da Cunha) e Nova Vicenza (Farroupilha), além de subdivisões como Ana Rech, Galópolis, Forqueta e Desvio Rizzo. Sob a área de influência da colônia Conde d'Eu estavam as localidades de Garibaldi, Carlos Barbosa, Daltro Filho, Coronel Pilar e Arcoverde. Mesmo com desmembramentos, as colônias permaneciam unidas, principalmente pela realização de festas de padroeiros e atos de culto.

Ao contrário de outras regiões gaúchas, que foram colonizadas por povos germânicos ou espanhóis, a Serra Gaúcha teve o predomínio italiano em sua colonização. Por serem totalmente católicos, os italianos fundaram a própria capela, formando-se ao seu redor as comunidades. A colonização da terra era feita em lotes, que foram doados pelo Governo Federal para cada família, onde estas deveriam ser cultivadas pela mesma, com objetivo agrícola, principalmente para o cultivo de trigo, milho, centeio, aveia, cevada, feijão, abóbora, frutas cítricas e, após alguns anos, as videiras.

Colônia Dona Isabel Até 1870, o território onde atualmente é Bento Gonçalves chamava-se Cruzinha, onde existem duas teses que definem o nome: o local onde morreu e foi enterrado um traçador de estradas; ou o local onde era o túmulo de um tropeiro. O Ato de 24 de maio de 1870, assinado pelo Presidente da Província João Sertório, determinou a criação das Colônias Dona Isabel e Conde d'Eu, deslocando para a região engenheiros, agrimensores e demais funcionários nomeados pela administração provincial a fim de demarcarem as linhas e lotes. Este foi o local em que grande parte dos imigrantes de origem italiana se estabeleceu pós-1875.

A colônia Dona Isabel, situada às margens do Rio das Antas, possuía cerca de 11,5 léguas quadradas, e ficava a cerca de 72 quilômetros distante da colônia sede, São José de Montenegro. Embora a altitude fosse de apenas 770 metros, as temperaturas costumavam-se ser muito baixas, não sendo rara a neve entre os meses de setembro e outubro, porém os colonos encontraram uma estabilidade de temperatura ideal para a plantação de culturas como milho, cevada, centeio, aveia, linho e algodão. O Rio das Antas, que atravessava a colônia, era totalmente navegável e era utilizado também para o transporte de madeira, através de barcos de vapor que seguiam até Porto Alegre. A população que habitava a colônia era bastante longeva, sendo que em um ano foram registradas apenas 37 mortes, em uma população que beirava as 14 mil pessoas, o que era atribuído a carga de trabalho aplicada, o que tornava as pessoas mais resistentes à doenças e complicações.

thumb|esquerda|Inauguração da Igreja de Santo Antônio, após a demolição da capela de tábuas Em 30 de setembro de 1876, o padre Bartolomeu Tiecher celebrou a primeira missa na colônia, no mesmo ano em que foi erguida a primeira igreja com tábuas, sendo ampliada dois anos depois com pedras e tijolos. Em 26 de abril de 1884, foi inaugurada a Paróquia de Santo Antônio de Pádua, santo escolhido devido a acentuada devoção dos imigrantes a ele.

Em 1881 foi iniciada a construção da primeira estrada de rodagem, que ligava as colônias Dona Isabel, Conde d'Eu e Alfredo Chaves, denominada na época como rodovia Buarque de Macedo, no trajeto onde atualmente localiza-se a BR-470. O tráfego de mulas de carga e carretas era mais intenso entre as colônias Dona Isabel e São João de Montenegro, local que era o ponto de embarque para embarcações no rio Caí. Tanto as tropas de animais como as carretas levavam de seis a sete dias para realizar o trajeto, que possuía cerca de noventa quilômetros ida e volta. Assim, os produtos da colônia eram levados até Montenegro e, de lá, partiam em barcos a vapor para Porto Alegre.