Heitor Villa-Lobos (Rio de Janeiro, 5 de março de 1887 – Rio de Janeiro, 17 de novembro de 1959) foi um compositor, maestro, violoncelista, pianista e violonista brasileiro, descrito como "a figura criativa mais significativa do Século XX na música clássica brasileira",Béhague, Gerard. 2001. "Villa-Lobos, Heitor". The New Grove Dictionary of Music and Musicians, edited by Stanley Sadie and John Tyrrell. London: Macmillan. e se tornando o compositor sul-americano mais conhecido de todos os tempos.Wright, Simon. 1992. Villa-Lobos. Oxford and New York: Oxford University Press. ISBN 0-19-315475-7 Compositor prolífico, escreveu numerosas obras orquestrais, de câmara, instrumentais e vocais, totalizando mais de 2 mil obras até sua morte, em 1959.

Destaca-se por ter sido o principal responsável pela descoberta de uma linguagem peculiarmente brasileira na música, sendo considerado o maior expoente da música do modernismo no Brasil, compondo obras que contêm nuances das culturas regionais brasileiras, com os elementos das canções populares e indígenas.

Suas composições foram influenciadas tanto pela música folclórica brasileira quanto por elementos estilísticos da tradição clássica europeia, como exemplificado por suas Bachianas Brasileiras. Suas Etudes para violão (1929) foram dedicados a Andrés Segovia, enquanto seus 5 Prelúdios (1940) foram dedicados à sua esposa Arminda Neves d'Almeida, também conhecida como "Mindinha". Ambas são obras importantes no repertório violonístico.

Sua data de nascimento é celebrada, no Brasil, como "Dia Nacional da Música Clássica".Villa-Lobos, Alma Brasileira - Especial da EBC - Empresa Brasil de Comunicação - Página visitada em 12 de março de 2014 Em 2011, seu nome foi inscrito no Livro de Aço dos heróis nacionais depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves.

Carreira Juventude miniatura|Arminda: aluna, esposa e divulgadora de sua obra

Filho de Noêmia Monteiro Villa-Lobos e Raul Villa-Lobos, que era filho de imigrantes espanhóis, Heitor foi desde cedo incentivado aos estudos, pois sua mãe queria vê-lo médico. No entanto, Raul Villa-Lobos, pai do compositor, funcionário da Biblioteca Nacional e músico amador, deu-lhe instrução musical e adaptou uma viola para que o pequeno Heitor iniciasse seus estudos de violoncelo. Aos 13 anos, órfão de pai, Villa-Lobos passou a tocar violoncelo em teatros, cafés e bailes; paralelamente, interessou-se pela intensa musicalidade dos "chorões", representantes da melhor música popular do Rio de Janeiro, e, neste contexto, desenvolveu-se também no violão. De temperamento inquieto, empreendeu desde cedo escapadas pelo interior do Brasil, primeiras etapas de um processo de absorção de todo o universo musical brasileiro.

Em 1913 Villa-Lobos casou-se com a pianista Lucília Guimarães, indo viver no Rio de Janeiro.

Em 1922 Villa-Lobos participou da Semana da Arte Moderna, no Theatro Municipal de São Paulo. No ano seguinte embarcou para a Europa, regressando ao Brasil em 1924. Viajou novamente para a Europa em 1927, financiado pelo milionário carioca Carlos Guinle. Desta segunda viagem, retornou em 1930, quando realizou turnê por sessenta e seis cidades. Realizou também, nesse mesmo ano, a "Cruzada do Canto Orfeônico" no Rio de Janeiro. Seu casamento com Lucília terminou na década de 1930. Depois de operar-se de câncer em 1948, casou-se com Arminda Neves d'Almeida, a Mindinha, uma ex-aluna, que depois de sua morte se encarregou da divulgação de uma obra monumental. O impacto internacional dessa obra fez-se sentir especialmente na França e Estados Unidos, como se verifica pelo editorial que o The New York Times lhe dedicou no dia seguinte a sua morte.

Semana de Arte Moderna

thumb|upright|Cartaz anunciando o último dia da Semana de Arte Moderna. Villa-Lobos participou da Semana de Arte Moderna de 1922, apresentando-se em três dias, com três diferentes espetáculos:

+ dia 13 dia 15 dia 17 Segunda Sonata O Ginete do Pierrozinho Terceiro Trio Segundo Trio Festim Pagão Historietas: Lune de Octobre; Voilà la Vie; Je Vis Sans Retard, Car vite s'écoule la vie Valsa mística (simples coletânea) Solidão Segunda SonataRondante (simples coletânea) Cascavel Camponesa cantadeira (suíte floral)A Fiandeira Terceiro Quarteto Num Berço Encantado (simples coletânea)Danças Africanas Dança Inferugnal e Quatuor (com coro feminino) Embora tenha sido um dos mais importantes nomes da música a apresentar-se na Semana de Arte Moderna, Villa-Lobos não foi o único compositor a ser interpretado. Também foram interpretadas obras de Debussy, por Guiomar Novaes, de Eric Satie, por Ernani Braga — que também interpretou "A Fiandeira", de Villa-Lobos.

Era Vargas thumb|upright|Villa-Lobos e Walt Disney em 1941.|alt= miniaturadaimagem|upright|Villa Lobos e Bidu Sayão, 1945 (Fundo Correio da Manhã). Em 1930, Villa-Lobos, que atuava no Brasil como maestro, planejava o seu retorno a Paris. Uma das consequências da revolução nesse ano resultou que dinheiro não poderia ser retirado do país, tornando Villa-Lobos incapaz de pagar qualquer tipo de aluguel no exterior. Sendo assim, forçado a ficar no Brasil, ele organizou vários concertos nos arredores de São Paulo e compôs músicas educativas e patrióticas. Em 1932 ele se tornou diretor da Superintendência de Educação Musical e Artística (SEMA).

Em 1936, aos 49 anos de idade, Villa-Lobos deixou a sua esposa e teve um relacionamento amoroso com Arminda Neves d'Almeida, que o acompanhou até os seus últimos dias. Arminda, em certo momento, mudou o seu sobrenome para Villa-Lobos, apesar de Villa-Lobos nunca ter se divorciado oficialmente da sua primeira esposa. Após a morte de Villa-Lobos, Arminda se tornou diretora do Museu de Villa-Lobos em 1960, até a sua morte em 1985. Arminda era musicista e também exerceu grande influência no trabalho de Villa-Lobos.

As publicações de Villa-Lobos na era Vargas incluíam propaganda pela nacionalidade brasileira (brasilidade),Por exemplo, Villa-Lobos [?1941] e teoria musical. O seu Guia Prático publicou 11 volumes, Solfejos (2 volumes, 1942 e 1946) contendo exercícios de canto, e Canto Orfeônico (1940 e 1950) contendo músicas patrióticas para escolas e eventos civis. A sua música para o filme O Descobrimento do Brasil de 1936, que inclui versões de composições antigas, foi também adaptada para suíte orquestral.

Villa-Lobos publicou A Música Nacionalista no Governo Getúlio Vargas 1941, no qual ele considerava a nação como uma entidade sagrada, e os seus símbolos (entre eles, a bandeira com o lema nacional e o próprio hino nacional) como invioláveis. Villa-Lobos foi também o diretor de um comitê que tinha como tarefa estabelecer uma versão definitiva para o hino nacional brasileiro.Wright 1992, 108. thumb|upright|Villa-Lobos durante a meia-idade. Depois de 1937, durante o Estado Novo, período em qual Vargas tomou poder por decreto, Villa-Lobos continuou com a produção de obras patrióticas visando a grande massa brasileira. O "Dia da Independência", celebrado no dia 7 de setembro de 1939 contou com um coral de crianças cantando o hino nacional e outras peças trabalhadas por Villa-Lobos. Para a mesma celebração em 1943, Villa-Lobos compôs o ballet Dança da terra, o qual as autoridades brasileiras julgaram como inapropriado até a sua revisão. A celebração de 1943 também contou com o hino de Villa-Lobos Invocação em defesa da pátria, logo após o Brasil ter declarado guerra contra a Alemanha nazista.Wright 1992, 115.

Na criação do curso do Canto Orfeônico, Villa-Lobos utilizava um vocabulário oriundo de outras áreas do conhecimento. Entre estas nomenclaturas encontramos os conceitos de califasia, califonia e calirritmia. Estas terminologias simbolizavam as qualidades a serem adquiridas através da prática do Canto Orfeônico. Os cursos oferecidos tinham como incumbência a preparação do aluno na prática de uma pronúncia legível e perfeita do texto a ser cantado (Califasia), de cantar uma melodia com perfeita afinação (Califonia) e no ajuste de cada palavra do texto com o ritmo da música (Calirritmia).

Últimos anos miniaturadaimagem|Cortejo fúnebre de Villa-Lobos, 1959.|191x191px

A reputação de Villa-Lobos como demagogo prejudicou a sua imagem diante de certas escolas de música, entre elas as dos discípulos de novas tendências europeias como, por exemplo, o serialismo, que estava completamente fora dos limites nacionais até a década de 1960.

Essa crise foi, parcialmente, atribuída ao fato de que certos compositores brasileiros julgavam necessário reconciliar a libertação da música brasileira proposta por Villa-Lobos com os modelos europeus da década de 1920, do qual eles consideravam ser um estilo de música mais universal.Wright 1992, 117–8.

Heitor Villa-Lobos faleceu, vítima de um câncer, em 17 de Novembro de 1959. Seu corpo bem como o de sua segunda esposa Arminda encontram-se sepultados no Cemitério São João Batista, túmulo 17942 quadra 18, no Rio de Janeiro.

Apesar de Villa-Lobos não ter tido filhos, tem como sobrinho-neto o músico Dado Villa-Lobos.

Obra

As primeiras composições de Villa-Lobos trazem a marca dos estilos europeus da virada do século XIX para o século XX, sendo influenciado principalmente por Wagner, Puccini, pelo modernismo da Escola de Frankfurt e, logo depois, pelos impressionistas. Teve aulas com Frederico Nascimento e Francisco Braga.

Nas Danças características africanas (1914), entretanto, começou a repudiar os moldes europeus e a descobrir uma linguagem própria, que viria a se firmar nos bailados Amazonas e Uirapuru (1917). O compositor chega à década de 1920 perfeitamente senhor de seus recursos artísticos, revelados em obras como a Prole do Bebê para piano, ou o Noneto (1923). Violentamente atacado pela crítica especializada da época, viajou para a Europa em 1923 com o apoio do mecenas Carlos Guinle e, em Paris, tomou contato com toda a vanguarda musical da época. Depois de uma segunda permanência na capital francesa (1927–1930), voltou ao Brasil a tempo de engajar-se nas novas realidades produzidas pela Revolução de 1930.

Apoiado pelo Estado Novo, Villa-Lobos desenvolveu um amplo projeto educacional, em que teve papel de destaque o Canto Orfeônico, e que resultou na compilação do Guia prático (temas populares harmonizados). O compositor preocupava-se muito com os rumos da educação musical nas escolas brasileiras e quando foi aprovado seu projeto de educação na área, voltou a morar definitivamente no Brasil.O Educador

À audácia criativa dos anos 1920 (que produziram as Serestas, os Choros, os Estudos para violão e as Cirandas para piano) seguiu-se um período "neobarroco", cujo carro-chefe foi a série de nove Bachianas brasileiras (1930–1945), para diversas formações instrumentais. Em sua obra prolifera, o maestro combinou indiferentemente todos os estilos e todos os gêneros, introduzindo sem hesitação materiais musicais tipicamente brasileiros em formas tomadas de empréstimo à música erudita ocidental. Procedimento que o levou a aproximar, numa mesma obra, Johann Sebastian Bach e os instrumentos mais exóticos.

Villa-Lobos teve diversos discípulos e colaboradores, dentre compositores, regentes e instrumentistas que lhe assistiam nas diversas atividades de implantação do projeto de Canto Orfeônico nas escolas públicas brasileiras, na realização de grandes espetáculos, muitos deles para públicos de milhares de pessoas, e na revisão, cópia e organização de suas partituras. Dois músicos que se destacaram nesta parceria com Villa-Lobos foram os maestros e pianistas José Vieira Brandão (1911–2002) e Alceo Bocchino (1918–2013).

Estilo thumb|O maestro Villa-Lobos e orquestra após concerto em Tel Aviv, 1952.