Bertholletia excelsa ou castanheira é uma árvore de grande porte da família Lecitidácea, originária da floresta de terra firme, muito abundante na Amazônia, cujo fruto contém a castanha, do qual se extrai o núcleo de sua semente para o consumo. A primeira menção registrada remonta a 1596, realizada por Juan Álvarez Maldonado, nas matas do território que hoje corresponde ao Peru.

Também chamada de "castanha-do-brasil", conservando ainda diversas variações regionais como "castanha-do-pará", "castanha-da-amazônia" e "castanha-do-acre". Por sua vez, outros nomes refletem uma realidade mais sulamericana, como "noz amazônica", "amendoeira-da-américa" e "noz boliviana", enquanto os nomes "tocari", "juvia" e "tururi" refletem sua denominação dada pelos povos originários amazônicos.

Etimologia e nomes "Castanha" vem do grego kástanon, por meio do latim castanea. "Tocari" vem do caribe. "Tururi" vem do termo tupi turu'ri. Embora seja histórica e vernaculamente conhecida como uma castanha, os botânicos referem-se a Bertholletia excelsa como uma semente, e não uma castanha, já que, segundo a classificação moderna, nas castanhas e nozes, a casca se divide em duas metades, com a carne separando-se da casca.

O gênero foi batizado em homenagem ao químico francês Claude Louis Berthollet.

Nomenclatura Existem denominações diversas para a semente. Nas nações de língua inglesa, sua comercialização é feita sob o nome "Brazil Nut" (literalmente castanha-do-brasil), devido o país ser, à época da popularização e início das exportações (século XIX), o maior produtor. Desde o final do século XX, o posto de maior produtor pertence à Bolívia, onde a semente é conhecido como "almendra" (amêndoa em espanhol), "nuez amazónica" e "nuez boliviana" (respectivamente "noz amazônica" e "noz boliviana" em espanhol).

No Amazonas, estado com maior produção desde a década de 2020, a semente é conhecida popularmente como castanha-do-brasil e castanha-do-pará. Apesar disso, em 2025 a semente passou, por lei estadual, a ser chamada de "castanha-da-amazônia" pelos órgãos oficiais do Amazonas, alegadamente para dar certificado de origem e reconhecimento ao produto originado no estado. Tal nome, "castanha-da-amazônia", foi adotado como parte de uma estratégia comercial em maio de 1992 durante a Terceira Convenção Mundial de Frutos Secos, promovida em Manaus-AM por cerca de 300 empresários, onde foi decidido chamar a Bertholletia excelsa de "castanha-da-amazônia", em substituição ao nome "castanha-do-pará". Os acrianos, que por muitos anos foram os maiores produtores nacionais da semente, referem-se a ela como "castanha-do-acre", enquanto no Pará e nos demais estados amazônicos adota-se o nome "castanha-do-pará". Porém, o nome "castanha-do-pará" foi popularizado como uma imposição comercial feita na década de 1940 ao nome da semente pela Mutran Exportadora (originária de Marabá-PA), numa tentativa de controlar e monopolizar o comércio do produto em Marabá (localidade que foi, por décadas, a maior produtora nacional) e no porto de Belém, inclusive, proibindo extrativistas do restante da Amazônia de comercializarem o produto e ameaçando vender ao exterior o registro da marca "castanha-do-pará". Até então, a planta, o fruto e a semente eram conhecidas universalmente no Brasil somente como castanha ou "castanha-mansa". O governo brasileiro, num esforço de evitar tais estratagemas comerciais da família Mutran e controlar o comércio do produto, além de se preocupar com o registro da marca "castanha-do-Brasil" no exterior (que também estava ameaçada pelos interesses dos Estados Unidos em monopolizar o comércio do produto), impôs, pelo Decreto Federal nº 51.209, de 18 de agosto de 1961, que o produto somente fosse comercializado pelo país com o nome "castanha-do-Brasil". Cabe ressaltar que o nome "castanha-do-Brasil" é a mais antiga das nomenclaturas vulgares que se tem registro acerca da Bertholletia excelsa, constando na obra "Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas", datada do início do século XVIII, de autoria do Padre João Daniel.

Como as castanhas são encontrados em toda a Amazônia — não somente o Brasil, mas também a Bolívia, o Peru, a Colômbia e a Venezuela — alguns nomes indígenas também são populares, como juvia, na região do rio Orinoco na Venezuela e Colômbia, e em outras regiões da Amazônia brasileira com os nomes tocari e tururi.

Ecologia miniatura|150px|Castanha com casca É a única espécie do gênero Bertholletia. Vive preferencialmente nas florestas de terra firme, e cresce apenas onde a estação seca é de 3 a 5 meses. Nativa das Guianas, Venezuela, Brasil (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará e Rondônia), leste da Colômbia, leste do Peru e leste da Bolívia, ela ocorre em árvores espalhadas pelas grandes florestas às margens dos rios Amazonas, Negro, Orinoco, Madeira/Abunã, Purus, Tocantins e Itacaiúnas. A densidade da espécie varia muito ao longo de toda a Amazônia, indo de 26 árvores reprodutivas por hectare a apenas um exemplar em 100 hectares. Cogita-se que alguns grupos de árvores devam sua existência a indígenas pré-colombianos.

Sua semente, bastante apreciada, possui alto teor calórico e proteico.

Características morfológicas A Bertholletia excelsa é uma grande árvore, chegando a medir entre 30 e 50 metros de altura e 1 ou 2 metros de diâmetro no tronco; está entre as maiores árvores da Amazônia. Há registros de exemplares com mais de 50 metros de altura e diâmetro maior que 5 metros, no Pará. Pode viver mais de 500 anos, e, de acordo com algumas autoridades frequentemente chega a viver 1 000 ou 1 600 anos.

Seu tronco é reto e permanece sem galhos por mais da metade do comprimento da árvore, com uma grande coroa emergindo sobre a folhagem das árvores vizinhas. Sua casca é acinzentada e suave.

A árvore é caducifólia, suas folhas, que medem de 20 centímetros a 35 cm de comprimento e 10 cm a 15 cm de largura, caem na estação seca. miniatura|150px|Aspecto de um galho com folhas e flores Suas flores são pequenas, de uma coloração verde-esbranquiçada, em panículas de 5 centímetros a 10 cm de comprimento; cada flor tem um cálice caducifólio dividido em duas partes, com seis pétalas desiguais e diversos estames reunidos numa massa ampla em forma de capuz.

Fenologia

Floresce na passagem da estação seca para a chuvosa, que, nas bacias do Amazonas e Tocantins, ocorre de setembro a fevereiro, com pico de outubro a dezembro. Perto de julho suas folhas caem, algumas ficam completamente sem folhas na estação seca. As flores são em grande número, e duram apenas um dia. Os frutos demoram de 12 a 15 meses para amadurecer, e caem principalmente em janeiro e fevereiro. As sementes, quando não tratadas, demoram de 12 a 18 meses para germinar, devido a sua casca espessa.

Reprodução A Bertholletia excelsa produz fruto exclusivamente em matas virgens, já que florestas "não virgens" quase sempre carecem de orquidáceas, que são, indiretamente, responsáveis pela polinização das suas flores. A Bertholletia excelsa têm sido colhidas em plantações (na Malásia e em Gana), porém a sua produção é baixa e, atualmente, não são viáveis economicamente. miniatura|150px|Ouriço fechado (fruto) e ouriço aberto com as castanhas As flores amarelas da Bertholletia excelsa só podem ser polinizadas por um inseto suficientemente forte para levantar o "capuz" da flor e que tenha uma língua comprida o bastante para passar pela complexa espiral da flor, como é o caso das abelhas dos gêneros Bombus, Centris, Epicharis, Eulaema e Xylocopa. As orquídeas produzem um odor que atrai pequenas abelhas-da-orquídea (espécie Euglossa), de língua muito comprida, já que as abelhas-macho desta espécie precisam deste odor para atrair as fêmeas. A grande abelha-da-orquídea fêmea poliniza a Bertholletia excelsa. Sem a orquídea, as abelhas não cruzariam, e portanto a falta de abelhas significa que o fruto não é polinizado.

Se tanto as orquídeas como as abelhas estiverem presentes, o fruto leva 14 meses para amadurecer após a polinização das flores. O fruto em si é uma grande cápsula de 10 centímetros a 15 centímetros de diâmetro que se assemelha ao endocarpo do côco no tamanho e pesa até dois quilogramas. Possui uma casca dura, semelhante à madeira, com uma espessura de 8 milímetros a 12 milímetros, e dentro estão de 8 a 24 sementes com cerca de cinco centímetros de comprimento dispostas como os gomos de uma laranja; não é, portanto, uma castanha no sentido biológico da palavra.

A cápsula contém um pequeno buraco em uma das pontas, que permite a grandes roedores como a cutia e, com menos frequência, os esquilos, roerem até abrir a cápsula. Eles comem, então, algumas das castanhas que encontram ali dentro e enterram as outras para uso posterior; algumas destas que foram enterradas acabam por germinar e produzem novas Bertholletia excelsa.

A maioria das sementes são "plantadas" pelas cutias em lugares escuros, e as jovens árvores acabam esperando por anos, em estado de hibernação, até que alguma árvore caia e a luz do sol possa alcançá-las. Micos já foram vistos abrindo os frutos da Bertholletia excelsa utilizando-se de uma pedra como uma bigorna.

Radioatividade As Bertholletia excelsa podem conter significativas quantidades de rádio, um material radioativo. Embora a quantidade seja relativamente pequena, cerca de 1–7 pCi/g (40–260 Bq/kg), e a maior parte não fique retida no corpo, ela é mil vezes mais alta do que a maior parte dos outros alimentos. De acordo com as Universidades Associadas de Oak Ridge, isto não se deve a níveis elevados de rádio no solo, mas sim ao extremamente extenso sistema de raízes da árvore.

Aspectos socioeconômicos da castanha Em 2020, a produção global de castanhas-do-brasil (em casca) foi de 69 658 toneladas, a maior parte das quais provém de colheitas selvagens em florestas tropicais, especialmente nas regiões da Amazônia do Brasil e da Bolívia, que produziram 92% do total mundial (ver tabela).

Produção mundial Produção de castanhas-do-brasil – 2020 País (toneladas) 33 118 30 843 5 697 World 69 658Fonte: FAOSTAT das Nações Unidas

No Brasil, historicamente o Pará (particularmente o município de Marabá) é o maior produtor da castanha, tendo dominado a produção brasileira até o início da década de 1970. Do final da década de 1970 até a década de 2010, o Acre tomou a dianteira da produção nacional. Em dado mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2024), o estado do Amazonas passou a ser apontado como o maior produtor. Em 2023 Amazonas liderou a produção, com 11.291 toneladas, em segundo lugar o Acre, produzindo 9.473 toneladas, e em terceiro o Pará com 9.390 toneladas. Os três estados nortistas são responsáveis por 80% da produção nacional. No Amazonas, os municípios com maior produção foram Tapauá (1.800 toneladas), Tefé (1.530 toneladas) e Boca do Acre (1.170 toneladas). Em 2021, só o município amazonense de Humaitá foi responsável por 11,7% da produção nacional, sendo líder com 4,7 mil toneladas produzidas.

Produção de castanhas-do-brasil Ano 202214.3039.1458.807202311.2919.4739.390 Efeitos da colheita 200px|miniatura|esquerda|Castanheira nas redondezas de Marabá. As Bertholletia excelsa destinadas ao comércio internacional vêm inteiramente da colheita selvagem, e não de plantações. Este modelo vem sendo estimulado como uma maneira de se gerar renda a partir de uma floresta equatorial sem destruí-la. As castanhas são colhidas por trabalhadores migrantes conhecidos como "castanheiros".

A análise da idade das árvores nas áreas onde houve extração mostram que a colheita de moderada a intensa coleta tantas sementes que não resta um número suficiente para substituir as árvores mais antigas à medida que elas morrem. Sítios com menos atividades de colheita possuem mais árvores jovens, enquanto sítios com atividade intensa de colheita praticamente não as possuem.