thumb|upright=1.5|Fogo grego em uso contra outro navio. Fogo grego, também dito fogo-greguês ou simplesmente, greguês, era uma arma incendiária usada pela marinha bizantina. Os bizantinos usavam-no em batalhas navais para maior efetividade, já que podia continuar a queimar ao flutuar na água. A arma era uma vantagem tecnológica e foi responsável por muitas vitórias militares bizantinas decisivas, nomeadamente na salvação de Constantinopla de dois cercos árabes, assegurando assim a sobrevivência do império.
Tal foi a impressão causada pelo fogo grego nos cruzados da Europa ocidental, que o nome passou a ser aplicado a qualquer tipo de arma incendiária, inclusive as usadas pelos árabes, chineses e mongóis. Essas, entretanto, usavam preparados diferentes e não a fórmula bizantina, que era um segredo de estado fortemente guardado e que foi perdido. A composição do fogo grego permanece matéria de especulação e debate, com propostas que incluíram combinações de resina de pinheiro, nafta, cal, enxofre ou salitre. O uso bizantino de misturas incendiárias distinguia-se pelo uso de bocais pressurizados, ou sifão (siphōn), para atirar o líquido sobre o inimigo.«Os navios vão entregar mantimentos e reforços às forças dos basileús, mas, mais importante que isso, trazem a arma secreta de Bizâncio - o fogo-greguês.»
Embora o termo “fogo grego” seja de uso geral em muitas línguas desde as Cruzadas, nas fontes bizantinas originais ele é chamado por vários nomes, como “fogo do mar” (grego antigo: πῦρ θαλάσσιον, pyr thalássion), “fogo romano” (πῦρ ῥωμαϊκόν, pyr rhomaïkón), "fogo de guerra” (πολεμικὸν πῦρ, polemikòn pyr), "fogo líquido” (ὑγρὸν πῦρ, hygron pyr) ou “fogo fabricado” (πῦρ σκευαστόν, pyr skeuastón).
História Armas incendiárias foram usadas em guerras por séculos antes da invenção do fogo grego, contendo misturas baseadas em enxofre, petróleo e betume. Além disso, Tucídides menciona o uso de lança-chamas tubulares no cerco de Délio em 424 a.C.Thuc. 4.100.1 Na guerra naval, foi registrado pelo cronista João Malalas o uso, pela frota do imperador bizantino , de uma mistura com base em enxofre para derrotar a revolta de Vitaliano em 515 d.C., seguindo o conselho de um filósofo ateniense chamado Proclo.
O fogo grego, propriamente, foi desenvolvido por volta de 672, e é atribuído pelo cronista Teófanes a Calínico, um arquiteto de Heliópolis na então província da Fenícia, na época devastada pelas conquistas islâmicas. A acurácia e exata cronologia deste fato são questionadas: Teófanes reporta o uso de navios carregadores de fogo e equipados com sifões pelos bizantinos alguns anos antes da suposta chegada de Calínico a Constantinopla. Se isto não se deve a confusão cronológica dos eventos do cerco, pode sugerir que Calínico simplesmente apresentou uma versão aprimorada de uma arma preexistente.
O historiador James Riddick Partington sugere ser provável que o fogo grego não tenha sido uma criação de uma única pessoa, e sim “inventada pelos químicos em Constantinopla que tinham herdado as descobertas da escola de química de Alexandria”. Realmente, o cronista do Jorge Cedreno registra que Calínico havia vindo de Heliópolis no Egito, mas a maioria dos estudiosos indica isto como um erro. Cedreno também registra a história, considerada implausível pelos estudiosos modernos, de que os descendentes de Calínico, uma família chamada Lampros (“Brilhante”), mantinha o segredo da fabricação do fogo e continuou a fazê-lo até a época de Cedreno.
O desenvolvimento do fogo grego por Calínico ocorreu num momento crítico na história do Império Bizantino: enfraquecidos por longas guerras com a Pérsia Sassânida, os bizantinos eram incapazes de resistir efetivamente às investidas das conquistas islâmicas. Ao longo de uma geração, a Síria, a Palestina e o Egito haviam caído sob domínio árabe, que por volta de 672 saíram para conquistar a capital imperial de Constantinopla. O fogo grego foi utilizado com grande efeito contra as frotas islâmicas, ajudando a repelir os muçulmanos no primeiro e segundo cercos da cidade. Registros do seu uso em batalhas navais posteriores contra os sarracenos são mais esporádicos, mas ele assegurou algumas vitórias, especialmente na fase de expansão bizantina no final do e início do X. A utilização da substância foi relevante nas guerras civis bizantinas, principalmente na revolta das frotas em 727 e na grande rebelião liderada por Tomás, o Eslavo em 821-823. Em ambos os casos, as frotas rebeldes foram derrotadas pela frota imperial de Constantinopla pelo uso do fogo grego. Os bizantinos também utilizaram a arma com efeitos devastadores contra os vários ataques dos rus’ ao Bósforo, especialmente aqueles de 941 e de 1043, bem como durante a Guerra Búlgara de 970-971, quando os navios bizantinos carregando fogo bloquearam o Danúbio.
A importância do fogo grego durante os esforços do império contra os árabes levou sua descoberta a ser atribuída à intervenção divina. O imperador , em seu livro Sobre a Administração Imperial, aconselha seu filho e herdeiro, Romano II , a nunca revelar os segredos de sua fabricação, uma vez que ela havia sido “mostrada e revelada por um anjo para o grande e sagrado primeiro imperador cristão Constantino”, e que o anjo lhe recomendou a “somente preparar este fogo para os cristãos, e somente na cidade imperial”. Como aviso, ele acrescenta que um oficial, que fora subornado para entregar um pouco dele para os inimigos do império, foi atingido por uma “chama vinda do céu”, quando estava prestes a entrar em uma igreja. Como este incidente demonstra, os bizantinos não podiam evitar a captura de sua preciosa arma secreta: os árabes aprisionaram pelo menos um navio de fogo intacto em 827, e os búlgaros capturaram vários sifões e bastante da própria substância em 812/814. Isto, entretanto, aparentemente não foi suficiente para que seus inimigos a copiassem (ver abaixo). Os árabes, por exemplo, utilizaram diversas substâncias incendiárias similares à arma bizantina, mas eles não foram capazes de copiar o método bizantino de sua utilização com o sifão, e em lugar disso utilizaram catapultas e granadas.
O fogo grego continuou a ser mencionado durante o , e Ana Comnena faz uma descrição intensa do seu uso numa batalha naval contra Pisa em 1099. Entretanto, embora o uso de navios de fogo apressadamente improvisados seja mencionado durante o cerco de Constantinopla de 1203 pela Quarta Cruzada, nenhum registro confirma o uso do verdadeiro fogo grego. Isto pode ter sido causado pelo desarmamento geral do império nos vinte anos que precederam o saque, ou porque os bizantinos tinham perdido o acesso às regiões onde os ingredientes primários eram encontrados, ou talvez mesmo porque com o tempo o segredo tinha sido perdido.
No , é reportado que um armênio, chamado Kavafian, contatou o governo do Império Otomano com um novo tipo de fogo grego que ele dizia ter desenvolvido. Kavafian recusou-se a revelar a sua composição quando inquirido pelo governo, insistindo em ser colocado no comando do seu uso durante combates navais. Pouco depois disso, ele foi envenenado pelas autoridades imperiais, sem que essas tivessem descoberto o seu segredo.Adjarian, Hrachia. "Հայոց դերը Օսմանյան կայսրության մեջ," [The role of Armenians in the Ottoman Empire]. Banber Erevani Hamalsarani 1967; trans. in Charles Issawi, The Economic History of Turkey, 1800-1914, Chicago: University of Chicago Press, 1980, p. 64.
Fabricação Características gerais Como mostram os avisos de Constantino VII Porfirogênito, os ingredientes e os processos de fabricação e lançamento do fogo grego eram segredos militares cuidadosamente guardados. O segredo era tão restrito que a composição do fogo grego foi perdida para sempre e permanece objeto de especulação. Consequentemente, o “mistério” da fórmula por muito tempo dominou a pesquisa sobre o fogo grego. Apesar deste foco quase exclusivo, entretanto, o fogo grego é mais bem entendido como um completo sistema de combate com muitos componentes, todos eles necessitando operar juntos para torná-lo efetivo. Isto compreendia não somente a fórmula da sua composição, mas também os navios especializados dromons que o carregavam para a batalha, o mecanismo usado para preparar a substância, aquecendo-a e pressurizando-a, o sifão que o lançava e o treinamento especial do sifonário (siphōnarioi) que o utilizava. O conhecimento do sistema completo era altamente compartimentalizado, com operadores e técnicos que conheciam os segredos de somente um componente, assegurando que nenhum inimigo poderia ganhar o conhecimento sobre ele em sua totalidade. Isto explica por que, quando os búlgaros tomaram Nessebar e Burgas em 814, eles capturaram 36 sifões e mesmo uma certa quantidade da substância, mas foram incapazes de fazer qualquer uso deles.
A informação disponível sobre o fogo grego é exclusivamente indireta, baseada em referências nos manuais militares bizantinos e algumas fontes históricas secundárias, como Ana Comnena e cronistas da Europa ocidental, que frequentemente são imprecisas. Na sua obra Alexíada, Ana Comnena fornece uma descrição de uma arma incendiária que foi usada pela guarnição bizantina de Dirráquio em 1108 contra os normandos. Ela costuma ser vista como pelo menos uma “receita” parcial do fogo grego:Scott, James Sibbald David, (Sir) (1868) The British army: its origin, progress, and equipment, p. 190.
Ao mesmo tempo, os relatos dos cronistas ocidentais do famoso ignis graecus são em grande medida incertas, uma vez que eles usam o nome para todo e qualquer tipo de substância incendiária.
Ao tentar reconstruir o fogo grego, a evidência concreta que emerge das referências literárias contemporâneas fornece as seguintes características:
Ele queimava sobre a água e, de acordo com algumas interpretações, era inflamado pela água. Além disso, como numerosos escritores atestam, ele podia ser extinto por somente algumas substâncias, como areia (que o privava de oxigênio), vinagre forte ou urina velha, presumivelmente por alguma reação química. Ele era uma substância líquida e não algum tipo de projétil, como se verifica tanto pelas descrições como pelo próprio nome “fogo líquido”. No mar, ele era geralmente ejetado por um sifão, embora também fossem usados potes de cerâmica ou granadas enchidos com ele. A descarga do fogo grego era acompanhada por “trovão” e “muita fumaça”.Leão VI, Táctica, XIX.59, transl. in
Teorias sobre a composição A primeira e, por muito tempo, mais popular teoria contemplando a composição do fogo grego indicava que o seu ingrediente principal era o nitrato de potássio, tornando-o uma forma primitiva de pólvora. Este argumento se baseava na descrição de “trovão e fumaça”, bem como na distância a que a chama podia ser projetada pelo sifão, o que sugeria uma descarga explosiva. Desde os tempos de Isaac Vossius, diversos estudiosos aderiram a esta posição, principalmente a chamada “escola francesa” durante o , que incluía o famoso químico Marcellin Berthelot. Esta visão foi depois rejeitada, uma vez que o nitrato de potássio não parece ter sido usado em guerras na Europa ou no Oriente Médio antes do , e está totalmente ausente dos registros dos árabes, os mais importantes químicos do mundo mediterrâneo, na mesma época. Além disso, a natureza da mistura proposta teria sido radicalmente diferente da substância projetada pelos sifões descrita pelas fontes bizantinas.