O Palácio das Necessidades, que chegou a ser uma das residências da realeza portuguesa, anteriormente foi chamado de Convento de São Filipe Néri e Convento de Nossa Senhora das Necessidades, por ter sido um antigo colégio da Congregação do Oratório e antes dele um hospício, localiza-se no Largo do Rilvas, freguesia da Estrela (Prazeres), em Lisboa, Portugal.Ficha na base de dados SIPA
É a atual sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
O Palácio das Necessidades está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1983.Ficha na base de dados da DGPC
História Lenda e Capela de Nossa Senhora das Necessidades A lenda tradicional afirma que a edificação da Capela da Nossa Senhora das Necessidades ocorre após a fuga de um casal de tecelões, em 1580, da cidade de Lisboa, refugiando-se na Ericeira de uma Peste que assolava a capital portuguesa. Nessa localidade o casal tinha a devoção de venerar uma imagem da Nossa Senhora da Saúde, existente numa pequena ermida. Quando esse casal regressa a Lisboa, em 1604, retorna com a imagem devota que protegera a sua saúde, e, fruto de uma promessa, dá início à construção de uma ermida para a imagem da Nossa Senhora da Saúde.
Com o passar do tempo, esta ermida junto ao rio Tejo passa a constituir um ponto de passagem para os marinheiros e navegadores, que nela procuram proteção e saúde. Assim, a devota imagem da Senhora da Saúde foi adquirindo fama, e o seu nome surge associado a outros milagres, popularizando assim a imagem e a ermida, junto de marinheiros da Carreira da Índia, entre outros, com a lenda da imagem milagreira a espalhar-se rapidamente pela população.
A fama da ermida e da imagem da santa, alcançou a família real, e o rei , quando assolado por uma doença grave em 1705, solicitou que levassem até si a imagem da Nossa Senhora das Necessidades. Uma vez recuperado, o rei fez retornar a imagem à ermida original, e, grato, promete real proteção da mesma.
irá continuar a devoção do pai, durante os períodos de enfermidade que marcaram a sua vida, e como prova de gratidão para com a referida imagem, o rei apropria-se da capela e propriedades anexas, tornando-as “em nome de Sua Majestade, e para o real serviço do dito Senhor […], posse da dita Quinta e da Sua Ermida de Nossa Senhora das Necessidades e de todas as suas pertenças e adornos". viria a ampliar a ermida, e a construir no mesmo local um palácio, ordenando ainda a construção de um convento, designado por hospício, destinado a eclesiásticos que se dedicassem ao ensino da teologia, das humanidades, e das ciências. Esta obra levaria à aquisição de pequenas propriedades anexas, levando ao ampliamento dos jardins do palácio. Após a conclusão das obras do convento, este viria a ser ocupado pela Congregação do Oratório de Lisboa.
Convento da Congregação do Oratório de Lisboa Esta ocupação efetiva-se por decreto régio, datado de 8 de fevereiro de 1747, e acrescido da Carta de Doação em 6 de abril do mesmo ano, através do qual doou à Congregação do Oratório de Lisboa o Hospício da Nossa Senhora das NecessidadesOs Jesuítas e os Oratorianos, História da Ciência na UC, Universidade de Coimbra, 2023, a cerca e todos os terrenos anexos, com exceção da fortificação necessária à proteção da cidade, do palácio real, sacristia e do coro da capela, que o rei reservara para usufruto pessoal e de seus descendentes. A Congregação do Oratório comprometia-se, em contrapartida, a lecionar as classes de ensino seguintes: Doutrina Cristã, Gramática, Retórica, Teologia Moral e Filosofia.
A autoria das referidas obras é tradicionalmente atribuída a vários arquitetos, é impossível precisar com exatidão todos os indivíduos envolvidos, sendo apenas conclusivo que manifestou empenho na construção célere dos edifícios que mandara construir. No entanto, , falecido em 1750, não chegaria a viver para ver a conclusão da obra que idealizara. A 6 de maio de 1751, os frades instalaram-se no hospício, tendo começado a lecionar em 27 de julho do mesmo ano, com a participação do rei , na abertura das aulas.
O Convento viria a ganhar a fama de estabelecimento de excelência para o ensino de Humanidades e Ciências, vindo a ser frequentado pela elite da capital, procurando proporcionar a formação de uma elite intelectual. Efetivamente, as experiências de Física atraíam frequentemente a presença de membros da corte, chegando o rei D. José a assistir inclusivamente a algumas experiências de física, conduzidas pelo padre mestre Teodoro de Almeida na sala dos Instrumentos. Toda a atenção régia à Ordem do Oratório, e a proteção da mesma, traduziam a vontade de contrariar a predominância que a Companhia de Jesus vinha exercendo cada vez mais em Portugal.
O convento viria a escapar ileso aos danos provocados na cidade de Lisboa pelo terramoto de 1755, mantendo até hoje, praticamente, intacta a sua traça original.
Contudo, o Marquês de Pombal, depois de começar por aceitar a actividade da Congregação do Oratório, em substituição da dos jesuítas por ele expulsos em 1759, procurou depois também extingui-los, com o pretexto de que ensinariam doutrinas perniciosas à mocidade. De tal forma, foram suspensos de pregar, confessar e exercer o ensino.Congregação do Oratório de Lisboa, código de referência PT/TT/CORL, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, 11/08/2023 Assim, este local foi encerrado, só reabrindo em 1777, quando o rei D. José I de Portugal morreu e o seu ministro se viu obrigado a exilar-se da corte.
Palácio das Necessidades – Residência de Visitantes ilustres thumb|right|Sessão das Cortes Constituintes de 1820, primeiro parlamento português no sentido moderno, cujos trabalhos decorreram na Livraria (hoje desaparecida) do Palácio das Necessidades. Apesar do Palácio das Necessidades não ter sido habitado por , que tinha empreendido diligências notáveis para a construção e expansão do Palácio, os seus irmãos, os infantes D. António e D. Manuel viriam a habitar no Palácio das Necessidades. Este viria ainda a servir, inicialmente, de residência a ilustres visitantes a Portugal, nomeadamente a príncipes estrangeiros que se encontrassem de passagem em Lisboa, algo que aconteceu, por exemplo, com o futuro rei , então Príncipe de Gales, e o seu irmão, o Duque de Sussex, por ocasião de uma visita destes a Gibraltar.
Posteriormente, durante as Guerras Napoleónicas, o Duque de Wellington, comandante do exército anglo-português, escolheu também como residência em Portugal este palácio.
A partir de 1828, o rei D. Miguel permaneceu curtas temporadas nas Necessidades. Ao ter fraturado as duas pernas num acidente, mandou construir uma ponte ou passadiço que ligava diretamente o palácio da ala poente à cerca conventual, face ao Largo das Necessidades.
Em 1833, por iniciativa de , realizaram-se as primeiras alterações significativas no palácio, alterando-se a sua antiga aparência conventual, a fim de se destinar a uma residência digna da futura soberana de Portugal, .
Palácio das Necessidades – Residência Real de , , D. Carlos e thumb|left|Vista do Palácio das Necessidades por volta da década de 1830. O Palácio das Necessidades inicia o seu percurso como residência real, em 23 de setembro de 1833, com a chegada de a Lisboa, sendo esta solenemente aguardada nas Necessidades, naquela que viria a ser uma das suas residências favoritas. Aqui viveu com o seu primeiro marido, o príncipe Augusto de Beauharnais, Duque de Leuchtenberg, apenas dois meses, devido à morte súbita do príncipe. vai decorar o Palácio das Necessidades com o recheio herdado do seu avô , encomendado por este a fornecedores franceses para o Paço de São Cristóvão para duas ocasiões particulares: o casamento do seu filho D. Pedro com D. Leopoldina e para a sua aclamação como rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, bens trazidos para Portugal por D. Pedro aquando das lutas liberais.Museus, Palácios e Mercados de Arte/editora Scribe - O Acervo das Necessidades no Reinado de - Eduardo Alves Marques
D. Maria II, já casada em segundas núpcias com o príncipe Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, decide, em 1844, empreender outras remodelações no Palácio das Necessidades. Estas remodelações levam à aquisição de diversas obras de arte, e à reconstrução, remodelação e ampliação de diversas áreas do palácio. Com a morte prematura de , D. Fernando, enquanto regente, continuou a residir no palácio com os filhos, o futuro , o futuro , D. João, D. Maria Ana, D. Antónia, D. Fernando e D. Augusto.
A família real permaneceria no palácio, mesmo após o casamento de com a princesa Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen, com o pai e irmãos do rei a transferirem-se para o antigo convento das necessidades, que estava desabitado e fora adaptado a residência.
O jovem rei , viria a habitar o palácio com a sua esposa, e a deixar a sua marca no Palácio, com notáveis trabalhos de decoração a serem empreendidos por ocasião do seu casamento. No entanto, a vida do jovem casal real no palácio estava destinada a ser de curta duração. Quis o destino que uma morte prematura levasse D. Estefânia, acometida por uma angina diftérica que em nove dias a vitimou. Chegada, triunfalmente, a Lisboa em 17 de maio de 1858, veio a falecer nas Necessidades a 17 de julho de 1859, apenas com 22 anos. viria igualmente a sofrer um fim precoce. Após uma caçada em Vila Viçosa, em que fora acompanhado pelos seus irmãos D. Fernando e D. Augusto, o grupo Real regressaria a Lisboa com os primeiros sintomas da febre tifoide que viria a vitimar o Rei e os seus Irmãos. O Rei viria a falecer a 11 de novembro de 1861, com apenas 24 anos. A juventude, subitamente interrompida do rei , aliada ao seu temperamento romântico, grave e sério, à sua profunda inteligência, ao seu escrúpulo profissional e à sua curta felicidade com D. Estefânia viriam a manter o jovem rei no imaginário coletivo português. Efetivamente, por ocasião das exéquias de , as salas do Palácio das Necessidades foram, como nunca mais se registou, invadidas por uma multidão compacta que esperava, sem arredar do Largo das Necessidades, para prestar a sua derradeira homenagem ao jovem monarca.
, ao suceder nestas circunstâncias trágicas ao irmão, abandonou o Palácio das Necessidades, ficando este fechado. O monarca instalou-se, provisoriamente, no Paço de Caxias e, já casado com Maria Pia de Saboia, passou a habitar o Palácio da Ajuda, tornando-se este, definitivamente, a sua residência oficial.
Decorridos alguns anos, em 1886, aquando do casamento do príncipe real D. Carlos com a princesa Amélia de Orleães, o Palácio das Necessidades foi, então, utilizado para hospedar os convidados reais. Os jovens Duques de Bragança fixaram-se, inicialmente, no Palácio de Belém, aí tendo nascido os seus filhos, D. Luís Filipe e D. Manuel.
Com a morte de D. Luís, em 1889, D. Carlos não querendo desalojar a mãe, a rainha D. Maria Pia, do Palácio da Ajuda, viria a escolher as Necessidades para residência oficial.
thumb|right|O bombardeamento do Palácio das Necessidades durante a Revolução de 5 de Outubro de 1910. É de salientar que, durante o reinado de D. Carlos, Lisboa foi por diversas vezes visitada por chefes de Estado estrangeiros. Em geral, costumavam ficar instalados no Palácio de Belém, como sucedeu com o imperador , com o rei , e o presidente de França, Émile Loubet. Todavia, a importância do Palácio das Necessidades virá a assumir-se, com pompa e circunstância, enquanto local de receções oficiais em honra desses chefes de Estado, nomeadamente aquando da visita régia de e de Alexandra da Dinamarca, em abril de 1903.