O Presidente Negro (originalmente tanto O Choque das Raças ou O Presidente Negro ou Romance do Choque das Raças na América no Ano de 2228) é uma obra de ficção científica distópica publicada em 1926 e escrita por Monteiro Lobato, sendo o único romance do autor.

A história segue a narrativa em primeira pessoa de Ayrton Lobo e suas conversas com Miss Jane sobre os Estados Unidos do ano de 2228, testemunhados através de um porviroscópio, sobre a disputa do Partido Masculino e seu representante, o Presidente Mr. Kerlog, em busca de reeleição, e o Partido Elvinista, tendo como candidata Miss Astor, contra Jim Roy, o candidato da Associação Negra para Presidente dos Estados Unidos, e o desfecho macabro da luta pelo poder.

Enredo A obra começa em uma conversa no London Bank entre dois amigos que, e uma discussão sobre o mundo, passa a focar na estranha figura do Professor Benson, um cientista recluso e de grande habilidade financeira. Passamos a conhecer sobre o protagonista e sua personalidade focada em si, além de seu trabalho na Sá, Pato & Cia e seu desejo de ascender socialmente com a compra de um automóvel. Ele finalmente compra um Ford, mas numa viagem a trabalho, se acidenta devido ao seu gosto por velocidade, sendo salvo por empregados do Professor Benson. Após sua recuperação, Benson o aceita como confidente, o mandando caminhar ao ar livre antes de se encontrar com ele em seu gabinete, como um gancho para o segundo capítulo, que apresenta o “estranho castelo” e os arredores.

Ao retornar, no Cap. III, o protagonista revela suas impressões sobre o estranho laboratório e, quando Dr. Benson chega, finalmente descobrimos que a história é contada por Ayrton Lobo. Então, no Cap. IV, ocorre o almoço e conhecemos Miss. Jane, que causa tamanha impressão em Ayrton, e novos detalhes sobre a “misteriosa invenção”. Após o almoço, a história continua com a apresentação das teorias do Professor Benson sobre a realidade, preparando uma base intelectual para o Ayrton Lobo, antes de apresentar sua invenção. Da parte intelectual, passam para a parte mecânica, como forma de continuar a criar uma base de entendimento.

No gabinete, Ayrton Lobo, já se acostumando com Miss Jane, aprende sobre o passado da família dela e que ela é uma brasileira de segunda geração, além de desenvolvimentos do futuro. A história continua com novas conversas entre Ayrton e Jane, tanto sobre o momento quanto desenvolvimentos futuros, além da ideia de escrever um romance sobre o futuro. Dr. Benson, aos 70 anos e com sua saúde debilitada, se afasta para destruir sua invenção, falecendo no final do capítulo. Após a morte do professor, Ayrton retorna ao seu dia a dia na firma, mas com a mente distante de lá… Revendo Miss Jane, ela o pede que retorne todo domingo, pois isso tanto a faria bem, quanto ele poderia conhecer a história futura.

Uma semana depois, Ayrton retorna para Miss Jane, onde eles conversam sobre diversas questões sobre a origem dos EUA, além dela plantar a curiosidade sobre os eventos do ano de 2228. Entre os capítulos XI e XIII a situação do futuro é apresentada, além dos personagens principais da história futura: Jim Roy, líder da Associação Negra e um líder social de grande influência; Miss Astor, representante do Partido Elvinista, junto da base teórica de sua ideologia; e o presidente Kerlog, líder do Partido Masculino, uma fusão do Partido Democrata e Republicano. A história prossegue com a apresentação de tecnologias como o rádio-transporte, mas Ayrton perde a maior parte da narrativa ao sonhar acordado com Miss Jane.

A história retorna uma semana depois quando Miss Jane passa um tempo explorando algumas questões do futuro, como a Erópolis, fazendo Ayrton Lobo sonhar acordado, e passamos para os momentos que antecedem o pleito com a tensão tanto no Partido Masculino e Elvinista, enganchando para o capítulo seguinte quando Jim Roy decide, após longa reflexão, colocar seu próprio nome na disputa. Jim Roy transmite a senha, sendo descoberta via espionagem pelo Partido Envinista, o que causa a debandada do grupo e a aliança de suas correligionárias com o Partido Masculino. Com isso, Roy é eleito com 54 milhões de votos.

Uma semana depois, Ayrton Lobo considera declarar seu amor à Miss Jane, mas perde a coragem ao encontrá-la ao túmulo de seu pai. Ao voltarem a discutir os eventos de 2228, Miss Jane relata o primeiro encontro de Roy e Kerlog após as eleições, pois Roy queria evitar que o país afundasse em conflito, como Kerlog reconheceu a genialidade e os atributos de Roy, mas mesmo assim o declarou guerra, com Ayrton se demonstrando emocionado pelos eventos. Retornamos para ver o resultado do Partido Elvinista que, apesar de momentaneamente desfeito, se reconstituiu com o passar do tempo. Exploramos um pouco do desenvolvimento ideológico e científico do Elvinismo, antes de retornarmos para Kerlog que, apesar de levantar a possibilidade de seguir a lei e empossar Roy, seu Ministro da Equidade segue a “voz do Sangue” e a Convenção da Raça Branca é chamada.

Em um feriado de meio de semana, Ayrton Lobo retorna e conhece os eventos da Convenção Branca, onde representantes da etnia branca se reuniram com o presidente Kerlog e, de forma um tanto fria e distante, votaram a “moção Leland” (cujo conteúdo foi mantido em segredo neste ponto da narrativa). A seguir, a figura do inventor John Dudley é apresentada, que promete a solução de um problema que o governo passa dias tentando resolver. No final, é revelado que Dudley inventou os “raios Ômega”, que conseguem alisar o cabelo afro — algo que recebe um apoio e procura gigantesca do público. Acompanhamos um pouco mais a aproximação amorosa de Miss Astor e presidente Kerlog, enquanto Ayrton se frustra com sua dificuldade de se expressar — uma frustração que termina em sua demissão de seu emprego.

Uma semana depois, inspirado pelo filme A Fera do Mar, com John Barrymore, Ayrton retorna para descobrir os eventos seguintes: na véspera da posse, Kerlog vai até Jim Roy, que se expôs aos raios Ômega e sentiu sua força se esvaindo, e calmamente, sentindo o ambiente trágico, revela que os raios Ômega causam a esterilização de quem os usa. Descobrindo isso, Roy cai inconsciente em seu escritório.

No dia seguinte, o governo anuncia um novo tipo de brinquedo e, com a distração do público, revela a morte de Jim Roy. Novas eleições são chamadas e Kerlog, casado com Miss Astor, é reeleito com 100 milhões de votos. Meses depois, a realidade da moção Leland e a ação esterilizadora dos raios Ômega é revelada. A taxa de natalidade da população negra é derrubada e décadas mais tarde, só existia uma população loura com pele levemente acobreada.

No capítulo final, descobrimos como o desfecho da narrativa abalou Ayrton Lobo, mas focado em sua paixão pela Miss Jane, passa a semana seguinte a escrever o primeiro capítulo de seu romance, porém, cheio de exageros estilísticos. Miss Jane nota isso e Lobo fica uma semana sem escrever, frustrado. Após ser novamente incentivado a escrever com sua personalidade, Lobo escreve do seu jeito, sem correções, o que Miss Jane aprova. No final, sentindo felicidade, Ayrton a beija, o que é retribuído.

Composição

Narrativa Monteiro Lobato desenvolve duas linhas do tempo em sua distopia: a que se passa entre Ayrton Lobo e Miss. Jane em 1926, e a que se passa no ano de 2228, com a estrutura “história dentro da história”. A primeira parte da história segue a narrativa de Ayrton Lobo, descrito por Marisa Lajolo como “desajeitado”, e por Filipe Chamy como alguém extremamente imaginativo, que sofre um acidente de carro, sendo cuidado na propriedade de Dr. Benson, um rico cientista, e sua filha, Miss. Jane, segundo o pesquisador Carlos Minchillo, uma “Xerazade”, também pesquisadora e que não pensa em “casamento, moda e demais “futilidades””. A segunda parte, por sua vez, trata da disputa presidencial no ano de 2228, que visa eleger o 88º presidente. Segundo Maicon Alves Dias, a obra propõe uma leitura alegórica do povo brasileiro e estadunidense, além de estabelecer uma dialética entre as duas épocas. Ainda segundo Dias, o paralelo entre o presente e o futuro leva cada personagem a refletir sobre a realidade de sua época.

Alter-ego? Autores como apresentam o “protagonista” da obra como sendo o “representante” das "visões extremas do Lobato” — e, portanto, um “alter-ego”. Entretanto, esta ideia é questionada em , notando que “[…] embora as falas e ideias manifestadas pelos personagens tenham sido cunhadas pelo autor, elas não necessariamente representam o que o autor pensa.” e que nenhum personagem se apresenta, no decorrer da narrativa, consistentemente contra a população negra, além do fato de existirem personagens que se opõem entre si, com ideias e visões de mundo totalmente diferentes, escritos pelo mesmo autor, impossibilitando que o mesmo autor defenda todas essas visões ao mesmo tempo. Na visão do pesquisador Emerson Tin, ao apresentar as interpretações de Marcia Camargos, Vladimir Sacchetta e Marisa Lajolo, diz que seria muito superficial e simplista focar em trechos descontextualizados do romance para acusá-lo de ser uma obra racista, Dias diz que o uso de alegorias leva com que, nas leituras apressadas, acaba-se perdendo a tentativa do autor de retratar sua época e sociedade e Felipe Chamy diz que o autor está "diluído sob várias formas nas esferas ficcionais dessa obra." Um exemplo das contradições nos sentimentos dos personagens ocorre no capítulo XVIII, onde o presidente Kerlog reconhece os méritos de Jim Roy, mas concluí: “Como homem admiro-te, Jim. Vejo em ti o irmão e sinto o gênio. Mas como branco só vejo em ti o inimigo a esmagar…”, abraçando um impulso irracional, ou como descrito por Santana-Dezmann, o “instinto da raça”, negando a posição “superior e racional” defendida pelos “representantes da etnia branca”. Em última análise, a existência desses impulsos irracionais, de acordo com a pesquisadora, mostra o quão inútil a seleção artificial e políticas eugênicas são na narrativa.

Linguagem

inicia a discussão sobre a linguagem da obra com um exemplo já visto na abertura do Capítulo I, onde dois personagens discutem sobre a desonestidade humana e todos os problemas que ela causa, resultando na exclamação: “[…] Ponho-me às vezes a imaginar como seriam as coisas cá na terra si um sábio eugenismo desse combate à desonestidade pela eliminação completa dos desonestos. Que paraíso!” O termo “eliminação”, segundo a pesquisadora, por mais que possa transmitir a ideia de extermínio, também pode envolver outras formas para acabar com a desonestidade, como o acesso à educação e um salário digno. Quanto ao termo “sábio eugenismo”, o sentido continua como “combater a desonestidade”. A pesquisadora nota que a dificuldade da crítica de notar diversos significados de uma mesma palavra, o que acaba fazendo com que descartem a primeira parte da obra, devido à conotação negativa que o termo passou a receber pelo público não especializado, e que Lobato busca a conceituar como uma mesma palavra pode levantar tanto um sentido específico quanto genérico, dependendo do conhecimento do leitor.

Posteriormente a pesquisadora explica o motivo de entender o contexto interno da narrativa e o contexto externo do momento em que a obra foi composta e que este entendimento é necessário para diferenciar uma leitura adequada de uma inadequada. Por outro lado, na visão Carlos Minchillo, a obra é ambígua e um exemplo das diferentes formas que qualquer obra literária pode ser lida e interpretada. Já na visão de Dias, a obra contém "ironia, crítica e preocupação com a humanidade e a sociedade", algo muito visto na obra infantil de Lobato e na visão de José Wellington de Souza, a obra possui um estilo fluido, diferente dos contos publicados anteriormente por Lobato.