A língua sanöma, sanumá ou sanɨma é uma da seis línguas da família linguística yanomami, falada nos estados de Amazonas e de Roraima no Brasil, e na Venezuela, principalmente na região do rio Auaris.Ferreira, Helder Perri; Machado, Ana Maria Antunes; Senra, Estevão Benfica. 2019. As línguas Yanomami no Brasil: diversidade e vitalidade. São Paulo: Instituto Socioambiental (ISA) e Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). 216 p. ISBN 978-85-8226-076-0 A língua é falada aproximadamente 4.600 pessoas do povo sanöma, no qual no Brasil, são cerca de 3.164 falantes, e na Venezuela, cerca de 1.444 falantes. É a terceira mais comum entre as línguas yanomami no Brasil a segunda língua mais falada por esse grupo na Venezuela. Além disso, é considerada a língua da família yanomami menos inteligível pelos falantes das outras variedades linguísticas.

A língua sanöma possui três principais variações: o dialeto de Awaris, o de Hokomawä e o de Aracaçá. O dialeto de Awaris é falado na região do rio Auaris em Roraima, por cerca de 3.000 pessoas, sendo a variação do sanöma mais usada. Já o dialeto de Hokomawä é usado na comunidade de Hokomawä, por cerca de 180 pessoas, na região da fronteira entre Brasil e Venezuela. E o dialeto de Aracaçá é falado por 30 pessoas na comunidade de Aracaçá, que fica a leste da região de Auaris.

Ao longo da história, os yanomami mantiveram relações com outros grupos indígenas, seja por meio de guerras ou de trocas. Dentre esses grupos, incluem-se os Karib, ao norte e a leste de seu território; e populações Aruak, ao sul e oeste. Por causa disso, estudiosos acreditam que a língua sanöma, por mais que pertença a família linguística yanomami, é possível que tenha sofrido influência das língua da família Karib e Aruak, devido a traços linguísticos compartilhados por essas línguas.

Etimologia

O nome da língua sanöma tem origem na própria autodenominação do povo sanöma, que se chamam Sanïma Töpö. Nesse contexto, "Sanïma" significa "gente", representando o ser humano ou o povo em si, enquanto "Töpö" é um sufixo que indica o plural. Portanto, o termo sanöma faz referência direta ao povo que fala essa língua.

Distribuição

Os falantes do sanömas estão distribuídos na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, na Serra Parima, uma das cadeias de montanhas que compõem a formação geológica do Planalto das Guianas. No Brasil, eles se concentram na bacia do rio Auaris, no extremo noroeste do estado de Roraima, e também em algumas áreas da Venezuela. A maioria deles vive na Terra Indígena Yanomami, a maior área indígena demarcada do Brasil, 9,66 milhões de hectares, onde convivem povos yanomami e ye'kwana. Essa área tem sofrido diversas ameaças, como mineração ilegal, garimpo, pesca, caça e agricultura, o que culminou em uma crise humanitária em 2022, com mortes em massa, fome, deslocamentos forçados e outras violações de direitos humanos.

No Brasil e na Venezuela o território yanomami abriga em torno de 40 mil yanomami e possui cerca de 192 mil quilômetros quadrados. Na Terra Indígena Yanomami (TIY), além das 30 mil pessoas dos grupos indígenas yanomami, lá vivem também cerca de 700 ye'kwana, povo da família linguística Karib, que ocupam em sua maior parte a Venezuela, mantendo poucas relações de troca com os yanomami. Além disso, a partir de 2017, um grupo sanöma iniciou um deslocamento de saída da região do rio Auris para uma região chamada Korekorema, às margens do Rio Uraricoera. Com isso, os sanöma vem construindo uma relação mais próxima com os Yanomam de Palimiú, o que poderá trazer novas dinâmicas sociais e mudanças linguísticas para esses grupos.

Dialetos Embora a grande maioria dos sanöma falem o mesmo dialeto da região do rio Auaris, língua sanöma possui outras duas principais variações, faladas nas comunidade de Hokomawä e Aracaçá, ambas muito usados na Venezuela.

Os principais dialetos sanöma são:

Dialeto de Auaris Dialeto de Hokomawä Dialeto de Aracaçá O dialeto de Auaris, o mais comum é falado por cerca de 3.000 pessoas em uma área onde vivem 35 comunidades sanöma e 5 ye'kwana; o dialeto de Hokomawä, com 180 falantes da comunidade de Hokomawä, é originário da Venezuela e seus falantes possuem fortes laços com grupos venezuelanos. E o dialeto de Aracaçá, com apenas 30 falantes e pouco estudado devido ao isolamento e impactos do garimpo.

História Origem dos sanöma Os primeiros registros históricos dos sanöma datam de 1838, quando realizou a primeira estimativa populacional da Amazônia venezuelana e identificou três grupos no Alto Orinoco: Kirihanas, Guaharibos e Guaycas. A partir desses registros, da cartografia histórica e da história oral, é possível supor que, por volta de 1850, os sanöma viviam entre os rios Metacuni e Ocamo, antes de sua diáspora.

A partir daí o processo de dispersão dos yanomami teria começado da Serra Parima, bem na divida do Brasil com a Venezuela, e em meados do século XX, atingiram a ocupação territorial semelhante a que habitam hoje. Há relatos de que essa dispersão teria começado devido a conflitos com outros grupos étnicos, e por causa da crescente economia da borracha na região, que promoveu um aumento na quantidade de bens industrializados disponíveis. Esse processo consolidou as diferenças linguísticas e culturais que é possível ver nos dias de hoje, devido aos vários contatos, de conflito e aliança, que tiveram com outros grupos indígenas da região: ao norte e leste, os da família linguística Karib (ye'kwana, Parukoto, Sapara, Pauxiana); ao sul e oeste, os da família linguística Aruaque (Bauhana, Mandawaka, Yabahana, Kuriobana, Manao e Baré); e também com falantes de outras famílias linguísticas isoladas (Naduhup, Awaké, Marakana).

Até o final do século XIX, os Yanomami interagiam apenas com grupos indígenas próximos. No Brasil, o primeiro contato com não indígenas ocorreu entre 1910 e 1940, com extrativistas locais, militares da Comissão de Limites e funcionários do SPI (Serviço de Proteção ao Indígena). Entre 1940 e 1960, postos do SPI e missões religiosas trouxeram contatos permanentes, mas também surtos epidêmicos graves, como sarampo, gripe e coqueluche. A partir de 1970, o contato com a sociedade não indígena aumentou devido a projetos do governo militar na Amazônia, como a construção da estrada Perimetral Norte e a invasão garimpeira, que prejudicaram gravemente os yanomami.

No final da década de 1980 e 1990, a invasão garimpeira na TIY afetou os sanöma, trazendo não só garimpeiros como também doenças, principalmente a malária. Em 2000, a ONG Urihi Saúde passou a atender a região, respeitando o modo de vida dos sanöma e formando Agentes Indígenas de Saúde. A presença desses serviços em Auaris atraiu muitos sanöma, contribuindo para sua sedentarização na região. Antes, os sanöma viviam em constante mobilidade, mudando-se conforme a caça e o cultivo. Hoje, ainda há comunidades que se deslocam, mas em menor número.miniaturadaimagem|250x250px|Terra Indígena yanomami Hoje, os sanöma habitam a porção norte Terra Indígena Yanomami, entre os afluentes do rio Branco e rio Negro, no noroeste do estado da Roraima e extremo norte do estado do Amazonas. Na Venezuela, os sanöma habitam a parte da bacia do rio Orinoco e rio Cassiquiare. A TIY foi homologada em 25 de maio de 1992 pelo decreto do presidente Fernando Collor, contando com 9,66 milhões de hectares, e é lar dos diversos yanomami e outro grupos indígena, os iecuanos.

História da língua sanöma Sobre as línguas yanomami, estudiosos já levantaram hipóteses do surgimento concreto desta família, mas ninguém nunca concluiu de onde ela teria surgido. A hipótese mais aceita é de que ela seja uma família linguística isolada, descendente de um grupo indígena que teria permanecido por muito tempo isolado. Mas que apesar disso, nos últimos séculos criou novas características a partir do contato com os grupos indígenas vizinhos, como os de família linguística Karib e Aruak. Segundo o o etnólogo , a língua sanöma em específico teria sido muito influenciada pelo povo vizinho ye'kwana.Jacques Lizot, Diccionario Yanomami-Espanol, Central University of Venezuela, Faculty of Social and Scientific Economics, Caracas, 1975.

Grande parte dos falantes do sanöma são monolíngues, com uma pequena parcela falante também do português e de outras variações de línguas indígenas locais, como o Yanomae, dialeto do Yanoman. Esse número de bilíngues vem crescendo lentamente, com os jovens que se envolvem em projetos interculturais como os cursos de formação oferecidos pela CCPY (Comissão Pró-Yanomami) ou professores de escolas da comunidade, que acabam tendo mais contato com Boa Vista e aprendendo o português.

Fonologia

Vogais As vogais no sanöma são compostas por vogais orais breves, vogais nasais e uma vogal oral longa. As vogais orais breves possuem sete fonemas (/i/, /ɨ/, /u/, /e/, /ə/, /o/, /a/), enquanto as vogais nasais são compostas por seis fonemas (/ã/, /ĩ/, /ũ/, /ẽ/, /õ/, /ɨ̃/), representadas por um til (~) acima do grafema (com exceção do ə, cuja ocorrência nasal não foi atestada). Já entre as vogais orais longas, foi identificada apenas uma (/aː/). Trabalhos entre outras línguas yanomami afirmam duas vogais iguais em sequencia não são pronunciadas como uma unidade só, e sim com uma pausa entre elas, o que isso gera hiatos, não vogais orais longas.

Assim temos o seguinte quadro com os fonemas vocálicos da língua sanöma: +Fonemas vocálicos no sanömaAnteriorMédiaPosteriorFechada Semifechada Aberta

Abaixo, segue uma tabela de comparação da pronúncia de alguns pares mínimos (duas palavras que se diferenciam por apenas um fonema) para uma melhor percepção de como a mudança na pronúncia delas pode afetar seus sentidos. +Pares mínimos de fonemas vocálicos orais e nasais e vocálicos breves e longosFonemavogal oralPortuguêsvogal nasalPortuguês/i/, /ĩ/[ˈhi.ʃa]aqui [ˈhĩ.ʃa]rapaz/ɨ/, /ɨ̃/[pɨ]plural de terceira pessoa[pɨ̃]pai dele/dela/a/, /ã/[saj]casa[sãj]carneFonemavogal brevePortuguêsvogal longaPortuguês/a/, /aː/[ma]não[maː]água[taɨ]saber[taːɨ]ver Consoantes A língua sanöma é composta por onze fonemas consonantais (/p/, /t/, /k/, /m/, /n/, /s/, /h/, /tʰ/, /w/, /j/, /l/), como demonstra a tabela abaixo: +Fonemas consonantais no sanömaBilabialAlveolarVelarGlotalOclusiva Oclusiva aspiradaNasalFricativaAproximanteAproximante lateral No sanöma, o vozeamento de fones consonantais não é um traço distintivo, uma vez que as consoantes oclusivas (/p/, /t/, /k/) e a fricativa /s/ podem ser pronunciadas tanto como surdas ([p], [t], [k], [s], [ʃ]), quanto como sonoras ([b], [d], [g], [z], [ʒ]).

Além disso, o sanöma não possui a aproximante /j/ em posição de ataque de sílaba, somente em coda silábica. Nesse caso, a semivogal /j/ que costuma realizar a posição de ataque de sílaba em outras línguas da família yanomami, ocorre no sanöma como /s/.

Abaixo seguem alguns pares mínimos que comparam os fonemas consonantais no sanöma: +Pares mínimos de fonemas consonantais no sanömaFonemasanömaPortuguêssanömaPortuguês/p/, /t/[pu]mel [tu]classificador/ rio/tʰ/, /k/['tʰa.ka]buraco['ka.ka]rasgar/p/, /tʰ/['po.ko]braço['tʰo.ko]tosse/s/, /h/['sa.ma]anta['ha.ma]visitante/w/, /l/['wa.lo]chegar['la.lo]reproduzir/m/, /n/['mo.hi]estar com preguiça['no.hi]amigo/tʰ/, /h/['tʰo.ko]tosse['ho.ko]bacaba/p/, /m/['po.ko]braço['mo.ko]moça/p/, /w/['pa.so]macaco aranha['wa.so]espécie de morcego/m/, /w/['ma.no]magro/ esquelético['wa.no]homem/t/, /s/[tə]classificador nominal genérico[sə]bater/t/, /n/['wa.ti]frio['wa.ni]ruim/s/, /n/['so.ka]fruta['no.ka]seguir/s/, /l/['ho.se]irmão mais novo['ho.le]engatinhar/n/, /l/['na.ka]chamar['la.ka]taquara

Padrões silábicos Certamente, o tipo de sílaba mais comum é CV (consoante, vogal), mas também há a ocorrência de V (vogal), CVC (consoante, vogal, consoante), VC (vogal, consoante) e CVV (consoante, vogal, vogal). Essa última pode acontecer por ditongação ou por alongamento vogal.