miniatura|250px|direita| O Anjo da Revelação (de William Blake) Revelação divina é a denominação, de modo genérico, para todo conhecimento alegadamente transmitido ao homem diretamente por um deus ou deuses (muitas vezes o meio por onde este conhecimento foi passado também é chamado assim).
A revelação é o ato de revelar ou desvendar ou tornar algo claro, ou óbvio e compreensível por meio de uma comunicação ativa ou passiva com a Divindade. A Revelação pode originar-se diretamente de uma divindade ou por um intercessor ou agente, como um anjo ou santidade; alguém que tenha experimentado tal contato é denominado profeta.
Descrição Várias religiões possuem textos religiosos que as mesmas acreditam ter sido revelados por deuses ou de modo sobrenatural. Por exemplo, os judeus ortodoxos, cristãos e muçulmanos acreditam que a Torá foi recebida de Javé no monte Sinai bíblico. A maior parte dos cristãos acredita que tanto o Antigo Testamento quanto o Novo Testamento foram inspirados por Deus. Os muçulmanos acreditam que o Alcorão foi revelado por Deus a Maomé palavra por palavra através do anjo Gabriel (Jibril). No hinduísmo, alguns Vedas são considerados Apauruṣeyā, "composições não humanas", porque teriam sido revelados diretamente, e, portanto, são chamados de Shruti, "o que é ouvido". As 15 000 páginas escritas a mão pela mística Maria Valtorta foram tidas como ditadas diretamente por Jesus, enquanto ela atribuiu o Livro de Azarias a seu anjo da guarda. Aleister Crowley afirmou que o Liber AL vel Legis lhe foi revelado através de um ser superior que chamava a si próprio de Aiwass.
Marcas físicas deixadas pela revelação são chamadas estigmas. Em casos raros, como o de Juan Diego Cuauhtlatoatzin, as revelações deixam marcas físicas. O conceito católico de "locução interior" fala de uma voz interior ouvida pelo receptor da revelação.
Nas religiões abraâmicas, o termo se refere ao processo através do qual Deus revelaria, ao mundo dos homens, sua existência, sua vontade e sua Divina Providência.
Com o iluminismo na Europa, que começou em meados do século XVII, e o desenvolvimento do racionalismo, materialismo e ateísmo, o conceito de revelação sobrenatural passou a ser visto com ceticismo. No livro A era da razão (1794–1809), Thomas Paine desenvolveu a teologia do deísmo, rejeitando a possibilidade de milagres e argumentando que a revelação pode ser considerada válida somente em relação ao receptor original, e que tudo além disso seria mera fofoca. Tipos Revelação individual Tomás de Aquino acreditava em dois tipos de revelação individual de Deus: revelação geral e revelação especial. Na revelação geral, Deus se revela através de sua criação. Através da criação, algumas verdades divinas podem ser apreendidas através do estudo empírico da natureza, física, cosmologia etc. Na revelação especial, Deus revelaria sua natureza a um indivíduo de modo sobrenatural, por exemplo através de escrituras ou milagres.
Embora alguém possa deduzir a existência de Deus e de seus atributos através da revelação geral, alguns dados especiais somente poderiam ser conhecidos através da revelação especial. Revelação pública Alguns grupos religiosos acreditam que Deus se revelou a um grande grupo de indivíduos. No Deuteronômio, Javé teria revelado os Dez Mandamentos aos israelitas no monte Sinai bíblico. No cristianismo, o livro Atos dos Apóstolos descreve o dia de Pentecostes, onde um grande grupo de seguidores de Jesus teria experimentado uma revelação em massa. O povo dacota acredita que Ptesáŋwiŋ falou diretamente com o povo quando estabeleceu as tradições religiosas dacotas. Algumas versões de uma lenda asteca falam de Huitzilopochtli falando diretamente com o povo asteca quando este chegou a Anåhuac. Historicamente, existiram muitos imperadores, líderes religiosos e outras figuras que foram deificados e tratados como se suas palavras fossem revelações divinas.
Métodos Verbal Algumas pessoas acreditam que Deus pode se comunicar com o homem através de proposições: é a revelação verbal. Não verbal Algumas escolas de pensamento acreditam que Deus pode se revelar ao homem de forma não verbal. Pessoas podem ser divinamente inspiradas, porém de uma forma não verbal.
Em várias religiões Fé bahá'í A fé bahá'í possui numerosos textos alegadamente obtidos por revelação divina. Ocasionalmente, Bahá'u'lláh escrevia pessoalmente suas revelações divinas, mas, geralmente, ele as ditava para um amanuense. Tais escritos, compondo aproximadamente 15 000 itens, são mantidos nos arquivos internacionais bahá'ís, em Haifa, em Israel. Cristianismo thumb|right|180px|Deus revela-se a Abraão, o maior patriarca do Antigo Testamento e o "pai dos crentes".
Segundo a doutrina católica, Deus ter-se-ia revelado ao Homem, através de palavras e acontecimentos, para que o Homem possa conhecer o seu desígnio de benevolência. Esse desígnio "consiste em fazer participar, pela graça do Espírito Santo, todos os homens na vida divina, como seus filhos adotivos no seu único filho", que é Jesus Cristo. Essa infalível revelação divina, manifestada ao longo dos séculos que correspondem ao Antigo Testamento, seria plenamente realizada e completada em Jesus Cristo. A partir da ressurreição de Cristo, não será revelado mais nada aos homens até à Parusia. Mas, "apesar de a Revelação já estar completa, ainda não está plenamente explicitada. E está reservado à fé cristã apreender gradualmente todo o seu alcance, no decorrer dos séculos".
A partir daí, com a assistência sobrenatural do Espírito Santo, a Revelação imutável (ou o "depósito de fé") é transmitida ininterrupta e integralmente pela Igreja através de uma dupla Tradição (que em latim significa "entrega ou ato de confiar") indissociável, que pode ser oral ou escrita (2 Tessalonicenses 2,15; 2 Timóteo 1,13-14; 2,2):
a Tradição oral, ou simplesmente a Tradição, que conserva os ensinamentos de Cristo aos Apóstolos. Por sua vez, eles transmitem integralmente estes ensinamentos aos seus sucessores (os bispos unidos com o Papa), sendo que alguns deles são considerados Padres da Igreja pelo seu importante contributo na sistematização da Tradição, nomeadamente no que concerne ao desenvolvimento da doutrina, liturgia e instituições católicas; a Tradição escrita, ou a Bíblia, é o produto do registo escrito da Tradição oral pelos quatro evangelistas e outros escritores sagrados, sempre inspirados pelo Espírito Santo. Para os católicos, a Bíblia é constituída por 73 livros, organizados no Antigo Testamento e no Novo Testamento.
Ambas são intercomunicáveis, visto que "Jesus fez na presença dos discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro", a saber, o Evangelho de São João. Além da revelação imutável completada em Cristo (também chamada de "Revelação pública"), existem ainda as aparições privadas (exemplo: as aparições marianas), que não pertencem à Revelação divina pública nem podem contradizê-la. Por isso, os católicos não são obrigados a acreditarem nelas, mesmo que algumas delas fossem reconhecidas como autênticas pela Igreja (exemplo: aparições de Fátima). O seu papel seria somente ajudar os fiéis a viver melhor a Revelação divina, numa determinada época da história.
Magistério da Igreja Católica e desenvolvimento da doutrina
thumb|left|180px|O Cardeal Newman (século XIX) refletiu muito sobre o desenvolvimento da doutrina.
A Tradição, seja ela oral ou escrita, é interpretada e aprofundada progressivamente pelo Magistério da Igreja Católica, que deve ser obedecido e seguido pelos católicos. Isto porque o Magistério é a função de guardar, interpretar, transmitir e ensinar a Tradição, que é própria da autoridade da Igreja, mas mais concretamente do Papa e dos bispos unidos ao Papa. Foi com base na sua interpretação que a Igreja escolheu os livros pertencentes ao cânon bíblico. Ela acredita que as suas verdades de fé não estão só contidas na Bíblia, querendo isso dizer que as Tradições oral e escrita "devem ser recebidas e veneradas com igual espírito de piedade e reverência".
A Igreja Católica acredita que, "apesar de a Revelação já estar completa, ainda não está plenamente explicitada. E está reservado à fé cristã apreender gradualmente todo o seu alcance, no decorrer dos séculos". Por isso, a Igreja admite o desenvolvimento progressivo da sua doutrina, bem como os costumes e a expressão da fé dos seus fiéis, ao longo dos séculos. Esse desenvolvimento doutrinal, que se acredita ser orientado pela graça do Espírito Santo, é resultante da interpretação gradual da Revelação divina (ou "crescimento na inteligência da fé"), que não se pode ser confundida com a matéria da própria Revelação, que é inalterável. Por outras palavras, o Magistério da Igreja, ao meditar e estudar a Revelação imutável, aperceber-se-ia gradualmente de certas realidades que antes não tinha compreendido explícita e totalmente.
Também por outras palavras, o facto de a única revelação de Deus destinada a todos os povos ter ficado concluída com Cristo e o testemunho que d'Ele nos dão os livros do Novo Testamento vincula a Igreja com o acontecimento único que é a história sagrada e a palavra da Bíblia, que garante e interpreta tal acontecimento, mas não significa que agora a Igreja pode apenas olhar para o passado, ficando assim condenada a uma estéril repetição. Eis o que diz o Catecismo da Igreja Católica: "No entanto, apesar de a Revelação ter acabado, não quer dizer que esteja completamente explicitada. E está reservado à fé cristã apreender gradualmente todo o seu alcance no decorrer dos séculos".Ibidem, n. 66.
Esta relação entre o vínculo com a unicidade do acontecimento de Revelação completada em Cristo e o progresso na sua compreensão está optimamente ilustrada nos discursos de despedida de Jesus, quando Ele declara aos discípulos: "Ainda tenho muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Espírito da Verdade, Ele guiar-vos-á para a verdade total, porque não falará de Si mesmo (...) Ele glorificar-Me-á, porque há-de receber do que é meu, para vo-lo anunciar". Por um lado, o Espírito Santo serve de guia, desvendando assim um conhecimento cuja densidade não se podia alcançar antes porque faltava o pressuposto, ou seja, o da amplidão e profundidade da fé cristã, e que é tal que não estará concluída jamais. Por outro lado, esse acto de guiar é «receber» do tesouro do próprio Jesus Cristo, cuja profundidade inexaurível se manifestaria nesta condução por obra do Espírito. A propósito disto, o Catecismo cita uma frase do Papa Gregório Magno: "As palavras divinas crescem com quem as lê".CIC, n. 94; S. Gregório Magno, Homilia sobre Ezequiel 1, 7, 8
O Concílio Vaticano II indica três caminhos essenciais, através dos quais o Espírito Santo efectua a sua guia da Igreja e, consequentemente, o "crescimento da Palavra" (ou "crescimento na inteligência da fé"): realiza-se por meio da meditação e estudo dos fiéis, por meio da íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais e por meio da pregação daqueles "que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade".
O processo do desenvolvimento da doutrina, que tem que ser sempre contínuo e fiel à Tradição, implica por último a definição gradual de dogmas, que, uma vez proclamados solenemente, são imutáveis e eternos. Mas, isso "não quer dizer que tais verdades só tardiamente tenham sido reveladas, mas que se tornaram mais claras e úteis para a Igreja na sua progressão na fé".
Revelação pública e revelações privadas
miniatura|220px|direita| Santa Teresa de Ávila (Vitral em Central City (Kentucky, EUA)