Jorge Fernando Branco de Sampaio GColTE • GColIH • GColL (Lisboa, São Sebastião da Pedreira, 18 de setembro de 1939 – Oeiras, Carnaxide e Queijas, 10 de setembro de 2021) foi um político português que exerceu o cargo de presidente da República Portuguesa, entre 9 de março de 1996 e 9 de março de 2006.
Infância e juventude Filho do destacado médico, especialista em Saúde Pública, Arnaldo Sampaio, e de Fernanda Bensaúde Branco (esta filha de Fernando Branco, antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Marinha da Ditadura Nacional (1928–1933), e de sua esposa, Sara Bensliman Bensaúde, da família de oirgem judaica Bensaúde).
Nasceu na maternidade fundada pelo seu tio-avô, Abraão Bensaúde, na Rua da Beneficência, Bairro do Rego, em Lisboa.
Era igualmente sobrinho do escultor António Duarte e irmão do psiquiatra Daniel Sampaio.. Foi primo do especialista em Física e Ambiente Filipe Duarte Santos
Viveu com a família em Sintra até aos quatro anos.
Em 1944, passa a viver em casa da avó, Sara Bensaúde, e entra para o jardim-escola Queen Elizabeth's Kindergarten & Junior School, na zona de São Bento, em Lisboa, onde chegou a ter como precetora a atriz Mariana Rey Monteiro.
Por imperativo da carreira do pai, que receberia uma bolsa para estudar saúde pública na Universidade Johns Hopkins, muda-se com a família para Baltimore, nos Estados Unidos, em 1947.
Frequentou, durante um ano, a escola pública americana e o Instituto Peabody, onde fez estudos musicais. Paralamente, inscreveu-se na YMCA, onde praticou desporto.
Em 1949, depois de chumbar no exame de admissão ao Colégio Militar, entra para o Liceu Pedro Nunes, em Lisboa.
Em 1952, passa férias em Londres, onde o pai fazia investigação científica, assistindo a um debate na Câmara dos Comuns, experiência que o marcou muito.
Em 1953, transfere-se para o Liceu Passos Manuel, também em Lisboa, onde teve como professores José Hermano Saraiva e Joel Serrão, e onde conclui os estudos secundários.
Em 1956 é admitido na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde viria a licencar-se em 1961.
O seu nome encontra-se na lista de colaboradores da publicação académica Quadrante (1958–1962), publicada pela AAFDL.
Carreira profissional Após concluir a licenciatura em Direito, optou pela carreira advogado, e inscreve-se na Ordem dos Advogados.
Inicia a sua carreira profissional como advogado estagiário, no escritório de José Olímpio, terminando o estágio em 1963.
Com o passar dos anos torna-se um advogado especializado em matérias de propriedade industrial..
Contudo, em paralelo, acaba a envolver-se, pro bono, na defesa de presos políticos - entre outros casos, foi convidado por Mário Soares para defender um dos arguidos do caso da Revolta de Beja
Em 1965, vive nos Estados Unidos durante cerca de quatro meses, no âmbito de uma bolsa do Foreign Leader Program, assistindo aos discursos de Edward e Robert Kennedy, que exercem sobre si grande influência, no Senado, em Washington, D.C.
Com Júlio Castro Caldas, juntou-se, em 1977, à sociedade de advogados formada na década de 1970 por José Vera Jardim, Jorge Santos e José Macedo e Cunha, dando origem à Jardim, Sampaio, Caldas e Associados, a qual adota, atualmente, a denominação de Jardim, Sampaio, Magalhães e Silva & Associados.
Também desempenhou funções diretivas na Ordem dos Advogados.
Carreira política Antes do 25 de Abril de 1974 Iniciou a sua carreira política na altura em que era estudante na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
Envolvido na contestação ao regime salazarista, apoiou a candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República, embora não pudesse ainda votar, e foi presidente da Associação Académica da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, em 1959–1960 e em 1960–1961, e secretário-geral da Reunião Inter-Associações Académicas (RIA), em 1961–1962.
Foi, nessa qualidade, um dos protagonistas da crise académica do princípio dos anos 1960 — início de um longo e generalizado movimento de contestação estudantil, surgido da proibição pelo governo das comemorações do Dia do Estudante (24 de março de 1962), e que teve o seu auge na Universidade de Lisboa, em 1962, e na Universidade de Coimbra, em 1969.
Nesse processo, esteve preso três dias na sequência de uma greve de fome na cantina da Universidade de Lisboa.
Seria o início de um percurso de regular participação em movimentos de resistência à ditadura, propugnando ao mesmo tempo uma alternativa democrática de matriz socialista, aberta aos novos horizontes do pensamento político europeu.
No contexto das lutas académicas, cria, em 1962, com João Cravinho e outros, o MAR — Movimento de Ação Revolucionária, de esquerda radical, onde também chega a participar Vasco Pulido Valente. Em julho desse ano, a PIDE fez buscas na sua casa, em Sintra, tendo sido interrogado em setembro de 1962.
A seguir, vai aproximar-se dos católicos progressistas — colabora em O Tempo e o Modo, de António Alçada Baptista e João Bénard da Costa; o mesmo sucede com Vasco Pulido Valente.[hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/.../OTempoeoModo/OTempoeoModo_guiao.pdf Hemeroteca Digital]
Antes, ainda publicara artigos na Seara Nova, conotada com a esquerda republicana oposicionista.
Em agosto de 1968, no mesmo mês em que António de Oliveira Salazar sofre uma queda de uma cadeira, conhece Álvaro Cunhal numa viagem a Paris, embora recuse aderir ao Partido Comunista Português (PCP) por se opor à invasão da Checoslováquia.
Posteriormente, integra a lista da oposição nas eleições legislativas de 1969, à Assembleia Nacional, pela Comissão Democrática Eleitoral (CDE), que em Lisboa se opunha à CEUD (esta liderada por Mário Soares e com incorporação da Comissão Eleitoral Monárquica).
Pós-25 de Abril Após o golpe de 25 de Abril de 1974, Jorge Sampaio teve o seu primeiro papel de natureza política ao ser encarregado de negociar a libertação dos presos políticos em Caxias.
Na mesma altura lançaria o slogan 25 de Abril sempre.
Em maio de 1974, foi fundador do Movimento de Esquerda Socialista (MES).
Consta que antes fora sondado para a fundação do Partido Socialista (PS), mas recusara.
Apesar do seu papel na fundação do MES, abandonou o projeto logo no primeiro congresso do partido, em dezembro de 1974, alegando discordância de fundo com a orientação ideológica marxista-leninista aí definida.
Em 28 de setembro de 1974, está nas barricadas à volta de Lisboa, destinadas a impedir a chegada da população à manifestação de apoio ao general António de Spínola, mais conhecida como a manifestação da maioria silenciosa.
Em março de 1975, sendo ministro dos Negócios Estrangeiros Melo Antunes, é nomeado secretário de Estado da Cooperação Externa do IV Governo Provisório, o terceiro e penúltimo de Vasco Gonçalves, que durou até julho de 1975.
Participou, nessa qualidade, nas negociações para a independência de Moçambique. Optou por não integrar os governos provisórios seguintes devido à sua proximidade com Ernesto Melo Antunes, sendo uma espécie de agente de ligação entre as instituições democráticas e a ala moderada do Movimento das Forças Armadas (MFA) e um ativo apoiante das posições do Grupo dos Nove.
A seguir ao 25 de novembro de 1975, é um dos fundadores da Intervenção Socialista, um grupo constituído por políticos e intelectuais que se dedica à reflexão política, defendendo uma terceira via de aliança entre o PS e o PCP.
À semelhança de outros antigos militantes do MES (casos de Eduardo Ferro Rodrigues e Augusto Mateus, por exemplo), viria a aderir ao Partido Socialista, em 1978, ano em que a Intervenção Socialista é absorvida pelo PS.
Ainda em 1978, liderou a delegação portuguesa às conversações para a cooperação com Moçambique. Assim, é já na bancada socialista que se estreia como deputado à Assembleia da República, na sequência das eleições legislativas de 1979.
Por designação da Assembleia, entre 1979 e 1984, foi membro da Comissão Europeia para os Direitos Humanos, onde desempenhou um papel ativo.
Entre 1979 e 1980, foi membro do Secretariado Nacional do PS.
Entre 1986 e 1987, foi responsável pelas Relações Internacionais do PS e, entre 1987 e 1988, foi presidente do Grupo Parlamentar do partido.
Em março de 1988, foi eleito membro do Conselho de Estado, órgão consultivo do Presidente Mário Soares, pela Assembleia da República, durante a legislatura 1987–1991.
Secretário-geral do Partido Socialista e Presidente da Câmara Municipal de Lisboa A 16 de janeiro de 1989, após derrotar Jaime Gama, sucedeu a Vítor Constâncio, que se tinha demitido, como secretário-geral do PS.
Exerce também as funções de copresidente do Comité África da Internacional Socialista. Em 1989, depois de falhar em nomear um candidato à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, assume ele próprio a posição de cabeça de lista à CML e obtém aquele que será, provavelmente, o feito político mais marcante na sua carreira, ao liderar uma histórica coligação entre o PS e o PCP, à Câmara Municipal de Lisboa, nas eleições autárquicas desse ano. Essa união faz com que consiga derrotar o candidato da coligação PSD/CDS-PP/PPM, Marcelo Rebelo de Sousa, com 49,1% dos votos e 9 vereadores (em 17), contra 42,1% do adversário. Toma posse a 22 de janeiro de 1990, mantendo o cargo de secretário-geral do PS, e opta por distribuir pelouros aos vereadores da coligação de centro-direita, embora apenas os vereadores do CDS e do PPM aceitem.
O sucesso da coligação ditaria que nas autárquicas seguintes, em 1993, continuasse o projeto de coligação, agora ampliado à União Democrática Popular (UDP) e ao Partido Socialista Revolucionário (PSR); o que veio a suceder, permitindo a reeleição de Sampaio, com 56,66% dos votos e 11 vereadores (em 17), contra os 26,4% do candidato do PSD, Macário Correia. Este foi o melhor resultado de sempre obtido por um candidato à Câmara lisboeta. Por inerência das funções de presidente da Câmara Municipal de Lisboa, é eleito presidente da Federação Mundial das Cidades Unidas, do Movimento Eurocidades e da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa; vice-presidente da União das Cidades Capitais Ibero-Americanas; dirigente do Comité das Regiões da União Europeia; e vice-presidente da Junta Metropolitana de Lisboa. Durante o seu mandato, Lisboa foi Capital Europeia da Cultura, em 1994, e deu-se início à reconversão urbanística da parte oriental da cidade, com vista à realização da Expo 98. Foi executado o Programa Especial de Realojamento, uma iniciativa do governo central, liderado por Aníbal Cavaco Silva, tendo em vista a eliminação das áreas urbanas de génese ilegal, e foi aprovado, em 1994, o primeiro Plano Diretor Municipal da cidade.
Entretanto, nas eleições legislativas de 1991, suspende o mandato na Câmara Municipal de Lisboa em agosto de 1991 e lidera a candidatura do PS, mas é derrotado, com 29,1% dos votos, pelo PSD, liderado por Aníbal Cavaco Silva, que obtém 50,6% dos votos. Nessa sequência, é também derrotado no X Congresso do PS, em fevereiro de 1992, por António Guterres, que se candidata a secretário-geral do PS e vence. Abandona assim as funções de secretário-geral do PS, mantendo a presidência da Câmara Municipal de Lisboa.
Presidência da República thumb|200px|Retrato oficial do Presidente Jorge Sampaio (2005), por Paula Rego. Museu da Presidência da República.
1º Mandato, 1996-2001 Em julho de 1995, anunciou a sua candidatura à Presidência da República, à revelia do PS, que só o apoiaria posteriormente, e demite-se da presidência da Câmara Municipal de Lisboa em novembro de 1995. Ganhou a eleição de 14 de janeiro de 1996 logo na primeira volta, com 52,66% dos votos, após as desistências a seu favor de Jerónimo de Sousa (PCP) e Alberto Matos (UDP), contra Aníbal Cavaco Silva, o anterior primeiro-ministro, que obteve 45,03% dos votos.