A língua maori (em maori: te reo Māori ou apenas te reo) é um idioma pertencente ao ramo polinésio oriental da família austronésia. Utilizada sobretudo pelo povo maori, nativo da Nova Zelândia (em maori: Aotearoa "a terra da grande nuvem branca"), representa uma das línguas oficiais do país, juntamente com o inglês e a língua de sinais neozelandesa.
O idioma maori esteve presente no território da atual Nova Zelândia por séculos, possuindo vários dialetos regionais devido às diferentes ascendências das populações falantes e ao relativo isolamento entre elas. Foi a língua mais falada no país até metade do século XIX e, apesar da repressão da cultura maori durante e após o período colonial britânico, manteve sua presença nas comunidades nativas durante boa parte desse período. Após a Segunda Guerra Mundial, a migração em larga escala das pessoas maori para as cidades, onde o apagamento cultural persistia, fez o número de falantes entrar em rápido declínio e aproximou o idioma da extinção. Ao longo das últimas décadas, porém, iniciativas das comunidades maori pelo reconhecimento e pela recuperação do idioma têm tido sucesso, incluindo a sua oficialização em 1987.
Apesar do aumento significativo no número de falantes nas últimas décadas, o Atlas Mundial das Línguas em Perigo da UNESCO (2011) classificou o idioma maori como "vulnerável". Ademais, o percentual de pessoas maori que utilizam o idioma continua há anos em apenas 18%, demonstrando que o impacto da violência colonial contra os povos maori ainda persiste.
Por ser uma língua isolante, a maioria dos morfemas em maori sofre poucas flexões ou nenhuma. Essas variações são indicadas pelas partículas, uma extensa classe de termos modificadores que permitem, dentre outras funções, a indicação de flexões de tempo, modo, número e caso. Além disso, o idioma permite a construção de sentenças com agente enfático, nas quais há destaque para o realizador de uma ação passada ou futura. Essa construção, característica das línguas polinésias ocidentais, divide especialistas quanto à sua voz verbal e ao seu caso gramatical. A língua maori também é marcada pela ausência de encontros consonantais e pela presença de vogais em todas as sílabas, com destaque para as dezenas de ditongos encontrados no idioma.
Etimologia O endônimo māori significa "normal', "comum" ou "nativo". O termo possui cognatos em outros idiomas da família polinésia, como o taitiano (mā'ohi) e o havaiano (maoli).
Na tradição oral dos povos maori, o termo distingue os humanos mortais (tāngata māori 'pessoas comuns) dos deuses e espíritos. Após a chegada dos colonizadores europeus a partir do final do século XVIII, a palavra maori passou a ser adotada para designar especificamente as comunidades nativas da atual Nova Zelândia, bem como a sua cultura e o seu idioma. Mesmo assim, o endônimo do idioma, te reo māori 'a língua comum' (frequentemente abreviado para te reo 'a língua'), ainda carrega o significado original do termo.
Distribuição Atrás apenas do inglês, a língua maori é o segundo idioma mais falado na Nova Zelândia, usado principalmente pelas iwi (nações, povos nativos). Dos cerca de 214 mil falantes, aproximadamente 182 mil são maori, representando pouco menos de 19% de toda a população maori na Nova Zelândia. Nesses grupos étnicos, em 2018, jovens adultos com cerca de 30 anos ou menos (rangatahi) representavam mais da metade do total de falantes do idioma, sendo a maioria bilíngues com diferentes graus de fluência em inglês e na língua maori, enquanto a maior parte dos 38 mil falantes que têm o maori como único idioma se concentram em uma geração mais antiga, com indivíduos de 55 anos ou mais (kaumātua, 'anciões respeitados'). miniaturadaimagem|Mapa das regiões da Nova Zelândia. Dentre elas, Northland (1) e Gisborne (5) concentram as maiores porcentagens de falantes de maori em todo o país. Segundo o censo de 2023, as regiões com maior porcentagem de falantes da língua maori são Gisborne (16,9%) e Northland (10,1%), ambas na Ilha Norte, as quais também são as regiões neozelandesas com maior porcentagem de populações maori.
Dialetos Vários dialetos da língua maori, com alta inteligibilidade entre si, existem por todo o país. Possuem pequenas variações na pronúncia, na gramática e no léxico devido a diferenças na origem das comunidades falantes e na assimilação de aspectos de outros idiomas. Há décadas, linguistas distinguem os dialetos sobretudo em ocidentais ou orientais, mapeando características como as diferenças entre o uso dos ditongos ei e ai. Outra separação existente é entre o maori da Ilha Norte (subdivido em dialetos ocidentais e orientais), cujo uso e registro predominam, e o maori da Ilha Sul, classificado por alguns especialistas como como uma variação oriental que possivelmente sofreu maior influência dos idiomas marquêsicos. Nesse dialeto menos utilizado, há vários vocábulos em que o fonema , representado por ng, se modificou em . +Comparação entre dialetos da língua maoriWaikato (oeste)Ngāti Porou (leste)Tradução em portuguêsteinataina"irmão/irmã mais novo(a) do mesmo sexo"keikai"em"wheeirowhaairo"visto(a), entendido(a)"Maioria dos dialetos (Ilha Norte)Maioria dos dialetos (Ilha Sul)Tradução em portuguêsangaaka"concha"pungapuka"âncora"
Línguas relacionadas O maori faz parte do ramo polinésio ocidental da extensa família austronésia, a qual contém mais de mil de idiomas espalhados por uma porção vasta dos oceanos Índico e Pacífico. Por sua localização geográfica, é o idioma mais austral dessa família. Dentre os demais idiomas do ramo polinésio ocidental, os mais semelhantes ao maori são os demais do sub-grupo taítico: o maori das Ilhas Cook ou rarotongano e o dialeto do taitiano falado no Arquipélago da Sociedade, territórios de origem dos primeiros polinésios a habitarem a Nova Zelândia. A língua também é próxima do havaiano falado no Havaí, do tuamotuano, do marquesano e do mangarevano falados na Polinésia Francesa e do rapa nui, falado na Ilha de Páscoa.
História miniaturadaimagem|359x359px|Entalhe de koru, símbolo representativo da vida e do retorno às origens na cultura maori Ao longo dos séculos XIII e XIV, navegadores polinésios desembarcaram e se estabeleceram nas ilhas da atual Nova Zelândia, dando origem aos povos, à cultura e à língua maori. Por muitos séculos, apesar do idioma não possuir uma forma escrita, os maori realizavam registros em entalhes, nós e tecidos, com símbolos cujo significado era amplamente conhecido entre os povos nativos. A escrita com o alfabeto latino, trazida pelos colonos, missionários e navegadores europeus (chamados de pākehā pelos nativos) que chegaram ao território a partir do século XVIII, só começou a ser adotada de 1814 em diante, mudança que foi absorvida pelos falantes nativos em poucos anos.
Até a primeira década da colonização britânica (1840–1907), a língua maori era a mais presente no país, sendo utilizada amplamente não só pelos nativos, que ainda predominavam, mas também pelos pākehā. Porém, por volta de 1850, o inglês se tornou a língua mais utilizada na Nova Zelândia e, com o crescimento da população europeia e as inúmeras mortes dos nativos devido a guerras contra os colonizadores e a doenças, os povos maori logo se tornaram uma minoria populacional.
Foram iniciadas, nesse mesmo período, medidas oficiais pela assimilação da cultura maori. O Education Ordinance Act de 1847 estabeleceu o inglês como idioma oficial das escolas do país, sendo sucedido por leis e políticas cada vez mais restritivas que permitiram que, no início do século XX, estudantes maori que utilizassem o seu idioma recebessem castigos físicos como punição. Tais medidas, somadas ao isolamento cultural e à marginalização vivenciados ao longo da intensa migração dos maori para as cidades a partir dos anos 1940, fizeram com que o percentual de crianças falantes do idioma caísse de 90% em 1913 para apenas 26% em 1953. Com aproximadamente apenas 30 mil falantes em meados desse mesmo século, o maori chegou a ser considerado um idioma à beira da extinção. miniaturadaimagem|327x327px|Ativistas protestando contra a expulsão das comunidades maori de Bastion Point, Auckland (1975)
Nos anos 1960 e 1970, inspirados pela resistência ao apartheid na África do Sul e pelo movimento dos direitos civis nos EUA, vários ativistas maori iniciaram movimentos pela reivindicação dos direitos das suas nações, como a ocupação contra a desapropriação de terras maori em Bastion Point, em Auckland, e a Marcha pelas Terras Māori, que percorreu mil quilômetros até o Parlamento da capital Wellington em protesto às perdas culturais e territoriais enfrentadas pelos maori. O engajamento político, social e cultural durante o "renascimento maori" permitiu conquistas significativas ao longo das décadas seguintes, como a formação da Te Taura Whiri i te Reo (Comissão da Língua Maori) e a oficialização do idioma em 1987, a criação de instituições de ensino em maori e a recuperação de terras das comunidades nativas. O resgate e a renovação do idioma continuam desde então, avançando com a ampliação da presença do maori nos meios de comunicação, na política e no cotidiano na Nova Zelândia. miniaturadaimagem|253x253px|esquerda|Whina Cooper (1895-1994), kaui 'anciã' e ativista maori, liderando a marcha até Wellington (1975) Mesmo assim, a recuperação da língua e da cultura maori como um todo enfrentam desafios. Um deles é o reconhecimento do nome nativo do país (Aotearoa, 'a terra da grande nuvem branca') que, apesar de ter se tornado mais e mais popular desde o renascimento maori, ainda enfrenta obstáculos em sua oficialização, como a resistência de Ministros do Parlamento e a falta de referendos oficiais para consultar a opinião dos neozelandeses, ainda divididos sobre o assunto. Em 2021, o Partido Maori (Te Pāti Māori) lançou uma petição pela oficialização dos nomes maori das cidades, das regiões e do país até 2026, porém não obteve sucesso até então. Ademais, algumas comunidades da Ilha Sul (Te Waipounamu, 'o lugar de jade') discordam do uso do nome Aotearoa, originalmente associado apenas à Ilha Norte, e defendem a junção dos dois nomes maori das ilhas — Aotearoa me Te Waipounamu — para nomear o país. Fonologia
Consoantes
O idioma maori conta com 10 fonemas consonantais, listados na tabela acima. Uma característica peculiar da fonética maori é a ausência de consoantes sibiladas, como e , tipo de fricativa mais comum ao redor do mundo.
Existem poucos casos de variação alofônica nas consoantes do idioma. Entre alguns falantes, os fonemas e são substituídos livremente por suas formas alófonas e , respectivamente. Já pode variar de fricativa velar a palatal e pode também ser labializada em certos vocábulos, como hoa "amigo(a)". Ademais, o vozeamento de fonemas consonantais surdos e o desvozeamento de consoantes sonoras também foram documentados em falas mais rápidas.
A distinção entre as consoantes nasais , e , todas sonoras e marcadas pela obstrução total da cavidade bucal, ocorre sobretudo devido ao ponto de articulação de cada uma: labiodental, alveolar e velar, respectivamente. Já a distinção entre os fonemas orais fricativos ocorre primoridialmente da presença ou ausência de vozeamento, com o ponto de articulação como critério secundário.
Vogais A língua maori possui 10 vogais, sendo 5 curtas e 5 longas, listadas abaixo. O aglutinamento desses fonemas em ditongos é um fenômeno marcante no idioma, permitindo a formação de palavras e até mesmo frases inteiras sem consoantes. Ademais, Hohepa (1969) declara que a variação alofônica praticamente inexiste no idioma, porém fontes mais recentes registram, sobretudo entre falantes mais jovens, a assimilação de vogais do inglês neozelandês como formas alófonas das vogais do maori. Assim, entre esses falantes, são costumeiros os alófonos para o fonema e [] para //. +Quadro de vogais da língua maoriAnteriorCentralPosteriorFechada, , Central, , Aberta,
Tonicidade