Nação no contexto do candomblé é o termo usado para distinguir os diferentes ramos ou agrupamentos da religião que se diferenciam pelo dialeto litúrgico, pelo toque dos atabaques e por variações rituais e litúrgicas. A noção de nação remete, também, à procedência étnico-geográfica dos escravos africanos que a originaram e às divindades (orixás, voduns, inkices etc.) cultuadas por esses grupos.
Definição e função A categoria «nação» organiza diferenças internas do candomblé segundo matriz étnico-linguística, repertório musical e práticas litúrgicas. Além de marcar a origem dos cultos e dos cultores, a distinção por nações funcionou historicamente como mecanismo de manutenção identitária entre povos africanos desagregados pelo tráfico atlântico — preservando idiomas, cantos, toques, danças, comidas rituais e hierarquias.
Principais nações por origem étnico-geográfica As nações são agrupadas conforme grandes conjuntos culturais africanos que contribuíram para a formação das religiões afro-brasileiras:
Sudão histórico / grupo iorubá (nagôs) As chamadas civilizações sudanesas foram representadas majoritariamente pelos iorubás (nagôs) nas formações religiosas brasileiras. Entre as nações e variantes relacionadas incluem-se: Queto; Efom; Ijexá; Nagô Ebá; variantes regionais como o Batuque no Rio Grande do Sul e o Xambá em Pernambuco.
Reino do Daomé — nações jeje (fons e jejes) O grupo daomeano originou as chamadas nações **jeje**: Fons / Fon; Jejes; Minas; Fantes; Axantes; e outros grupos menores, como , Agni, zemas e timinis.
Grupos sahelianos e islamizados Outros conjuntos religiosos derivam de civilizações islamizadas do Sahel: Fulas (peuhls); Mandingas; Hauçás; e, em menor proporção, nupés, bornus e Gurunsis.
Grupos bantos — Angola e Congo As civilizações bantas do eixo angola-congolês deram origem a diversas nações: Ambundos de Angola (incluindo cassanges, bangalas, dembos); Congos ou Cabindas do estuário do Congo; Benguela e outras tribos escravizadas.
Bantos da Contra-Costa / Moçambique As tradições bantas da Costa Oriental (Contra-Costa) formaram as nações: Candomblé Bantu; Angola; Congo; Cabinda; relacionadas a povos moçambiques, como os macuas e angicos.
Línguas sagradas As práticas rituais do candomblé conservaram numerosas línguas africanas transmitidas pela oralidade. São repertórios cantados e falados presentes nas cantigas, invocações e fórmulas rituais.
No início do tráfico negreiro, todos os africanos eram genericamente chamados de negros da Guiné. À época, a região da Guiné designava um vasto território que se estendia do Senegal ao Gabão.
Resistência, memória e reprodução cultural A escravidão fragmentou estruturas sociais africanas — linhagens, clãs e reinos — e fez dos cultos religiosos núcleos de memória e resistência. Guardiões da cultura oral, os africanos preservaram movimentos coreográficos, toques, cantigas, rezas e culinária ritual, que no Brasil passaram a ser chamados de cantigas (ou “pontos cantados” na Umbanda).
O silêncio ritual, os segredos — conhecidos como calundus — e a formação de espaços autônomos, como quilombos e mucambos, foram estratégias de resistência, refúgio e preservação cultural.
As casas religiosas, irmandades e confrarias funcionaram como redes de sociabilidade e proteção, abrindo caminho para a posterior consolidação dos candomblés como templos reconhecidos de culto afro-brasileiro.
Bibliografia BASTIDE, Roger. The African religions of Brazil: Toward a sociology of the interpenetration of civilizations. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1978. [Ed. original: Les religions africaines au Brésil, PUF, 1960; As religiões africanas no Brasil, 1971.] SILVA, Vagner Gonçalves da. "As nações do candomblé". In: Candomblé e Umbanda – caminhos da devoção brasileira. São Paulo: Selo Negro Edições, 2005. pp. 65–68. CASTRO, Yéda Pessoa de. Antropologia e linguística nos estudos afro-brasileiros. UFBA.
Ligações externas III Encontro de Nações de Candomblé - CEAO Eventos debatem religiosidade afro-brasileira