Uma alma de mestre é, nas tradições dos pescadores e marinheiros de Portugal, a alma de um mestre ou capitão de um navio que se perdeu em naufrágio.« ALMA DE MESTRE: Procellaria pelagica, L. Ave que produz pios que os marítimos creem ser os lamentos das almas dos mestres ou capitães dos navios perdidos, os quais andarão naquele fadário enquanto o seu corpo não der à costa e não lhe for dada sepultura»
A crença deve-se aos pios sentidos de certas aves, por antonomásia o Hydrobates pelagicus, que os marinheiros crêem serem os lamentos das almas dos mestres e capitães e que "andam naquele fadário de pios, enquanto seu corpo não chega a terra, e não obtêm sepultura cristã." "Alma de mestre. «-Encontram - se no alto mar umas avesinhas que dão sentidissimos e largos pios , ás quaes os marinheiros puzeram o nome de almas de mestre ,crendo supersticiosamente que são as almas dos mestres ou capitães de navios que se perderam , e que andam na quelle fadario de pios , emquanto seu corpo não chega a terra , e não obtem sepultura christã-»"
Abonações literárias As alusões a esta ave têm alguma expressividade na literatura portuguesa, enquanto símbolo da tradição marítima e como memorial simbólico da fragilidade humana às mercê dos caprichos do mar. A título de exemplo:
- Eça de Queirós, in «Prosas Bárbaras» (1903)
Influências mitológicas
Júlia Tomás, no seu «Ensaio sobre o Imaginário Marítimo dos Portugueses», propõe uma ligação entre este mito português e o mito grego, exarado nas Metamorfoses de Ovídio, de Ceix e Alcíone, um casal de apaixonados, que se viu apartado pelos desmandos do mar. Ceix, marinheiro, a pospêlo dos rogos da esposa, Alcíone, parte numa viagem marítima, que termina em tragédia, vitimando-o num naufrágio, durante uma violenta tempestade. «Ceys e Alcíone (contado por Ovídio), um casal extremamente apaixonado. Ceys decidiu um dia partir à descoberta dos mares, não obstante o amor profundo que tinha por Alcíone que chorou e implorou para que o marido não partisse. Em vão. Na mesma noite em que Ceys embarcou, uma tremenda tempestade causou o naufrágio do barco e ele morreu afogado. Alcíone, que esperava o marido na praia, viu o seu cadáver flutuar nas águas e correu na sua direção. E em vez de correr, começou a voar sobre as ondas: tinha sido transformada em pássaro. Os deuses, comovidos pela dor da mulher, transformaram o cadáver de Ceys num pássaro marinho. O amor unira-os outra vez.»
Alcíone, cumprindo o arquétipo de saudosa esposa de marinheiro, espera-o, em vão, todos os dias junto à praia, até que certo dia dá com o seu cadáver a boiar ao capricho das ondas. Galgando sobre as águas, para alcançar o corpo do marido, Alcíone dá por si convertida em ave. Os deuses, comovidos com o infortúnio dos amantes, transformaram-na em ave marinha, bem como a Ceys, a quem restituiram a vida.
Leite de Vasconcelos, José. Tradições populares de Portugal,1882
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