País do Sudeste Asiático, localizado entre o Vietname e a Tailândia, o Laos teve grande diversidade de habitantes, alguns consanguíneos dos quemeres, outros, os laocianos, grupo étnico predominante, dos tais. Os primeiros habitantes foram os kha, que já no moravam no país sob a soberania do Reino de Funan. Posteriormente, foram dominados pelo reino de Chenla e o primitivo Império Quemer, assim como o sucessor deste último, que estava baseado em Angkor. Os laosianos, originários do sul da China, deslocaram-se mais para o sul devido à pressão mongol, tendo, no , criado o poderoso reino de Nanchao, no sudoeste da China. A partir de Nanchao, os tais penetraram pouco a pouco na Indochina e suplantaram as primitivas tribos kas. Durante os séculos XII e XIII, fundaram o principado de Muong Swa (posteriormente, Louangphrabang).
Pré-história
thumb|Restos fósseis humanos antigos da gruta de Tam Pa Ling
A migração de humanos anatomicamente modernos caçadores-recolectores para o Sudeste Asiático há mais de 50 000 anos está confirmada pelo registo fóssil da região. Estes imigrantes poderão ter-se, em certa medida, misturado e reproduzido com membros da população arcaica de Homo erectus, como sugerem as descobertas fósseis de 2009 na gruta de Tam Pa Ling. Datado entre 46 000 e 63 000 anos, é o fóssil mais antigo encontrado na região que apresenta características morfológicas humanas modernas. A investigação recente sustenta igualmente uma compreensão mais precisa dos padrões de migração dos primeiros humanos, que migraram em sucessivas vagas deslocando-se de oeste para leste ao longo das linhas costeiras, mas que também utilizaram vales fluviais mais para o interior e mais a norte do que anteriormente se pensava.
É possível identificar uma tradição no Hoabinhiano, designação dada a uma indústria e continuidade cultural de utensílios de pedra e artefactos de seixo lascado que surge por volta de 10 000 AP em grutas e abrigos rochosos, descrita pela primeira vez em Hòa Bình, no Vietname, e mais tarde no Laos.
Migrações neolíticas Algumas sociedades contribuíram para o património genético ancestral das etnias laosianas das terras altas, conhecidas colectivamente como "Lao Theung", sendo os maiores grupos étnicos os Khamu, no norte do Laos, e os Brao e Katang, no sul.
As vagas de imigração neolítica subsequentes são consideradas dinâmicas, muito complexas e intensamente debatidas. Os investigadores recorrem a termos e argumentos linguísticos para a identificação e classificação dos grupos.
Agricultura e produção de bronze As técnicas de cultivo de arroz húmido e de milho-miúdo foram introduzidas a partir do vale do rio Yangtzé, no sul da China, desde cerca de 2000 a.C. A caça e a recolecção continuaram a fazer parte da provisão alimentar, particularmente nas áreas florestadas e montanhosas do interior. A produção mais antiga conhecida de cobre e bronze no Sudeste Asiático está confirmada no sítio de Ban Chiang, no nordeste da Tailândia, e entre a cultura Phung Nguyen, no norte do Vietname, desde cerca de 2000 a.C.
thumb|300px|right|Planície das Jarras, Xiangkhouang
Planície das Jarras Do século VIII a.C. até finais do século II d.C., emergiu na Planície de Xieng Khouang uma sociedade dedicada ao comércio interior, em torno do sítio megalítico conhecido como Planície das Jarras. A planície, nomeada como Património Mundial da UNESCO em 1992, está a ser desminada de engenhos explosivos por rebentar desde 1998. As jarras — sarcófagos de pedra datados do início da Idade do Ferro (500 a.C. a 800 d.C.) — continham vestígios de restos humanos, objectos funerários e cerâmica. Alguns sítios contêm mais de 250 jarras individuais. As jarras mais altas ultrapassam os de altura. As jarras e a existência de minério de ferro na região sugerem que os criadores do sítio se dedicavam a um comércio terrestre lucrativo.
Primeiros reinos indianizados
thumb|300px|right|Zona histórica de influência cultural da Indosfera da Grande Índia, responsável pela transmissão de elementos indianos como os títulos honoríficos, a atribuição de nomes de pessoas, a atribuição de nomes de lugares, lemas de organizações e instituições educativas, e a adopção do hinduísmo, do budismo, da arquitectura indiana, das artes marciais indianas, da música e dança indianas, do vestuário tradicional indiano e da culinária indiana — processo facilitado pela expansão histórica da diáspora indiana.
Reino de Funan O primeiro reino indígena a emergir na Indochina foi referido nas crónicas chinesas como Reino de Funan e abrangia uma área que mais tarde correspondeu ao Camboja e às costas do sul do Vietname e do sul da Tailândia, a partir do século I d.C. Funan era um reino indianizado, que havia incorporado aspectos centrais das instituições, religião, arte de governar, administração, cultura, epigrafia, escrita e arquitectura indianas, e que se dedicava a um comércio lucrativo no Oceano Índico.
Reino de Champa thumbnail|Terraço inferior do complexo montanhoso de Wat Phu, Champasak|alt= Funan expandiu-se e incorporou a região de Champasak no século VI d.C., altura em que foi substituído pela sua polidade sucessora, Chenla. Chenla ocupou áreas que mais tarde constituiriam o Laos, sendo por isso considerado o mais antigo reino em solo laosiano.National Library of Australia. http://www.nla.gov.au/asian/form/coedes2.html|Asia's French Connection: George Coedes and the Coedes Collection]]
Reino de Chenla No século VIII d.C., Chenla havia-se dividido entre a "Chenla Terrestre", situada no Laos, e a "", fundada por Mahendravarman perto de Sambor Prei Kuk, no Camboja. A Chenla Terrestre era conhecida pelos chineses como "Po Lou" ou "Wen Dan" e enviou uma missão comercial à corte da dinastia Tang em 717 d.C. A Chenla Marítima sofreria ataques repetidos de Champa, dos reinos marítimos Mataram na Indonésia, com base em Java, e finalmente de piratas. Foi a partir dessa instabilidade que os Khmer emergiram.
Cidades-estado de Dvaravati Na área que mais tarde correspondeu ao norte e centro do Laos e ao nordeste da Tailândia, o povo Mon estabeleceu os seus próprios reinos durante o século VIII d.C., fora do alcance dos reinos de Chenla, então em contracção. No século VI, no vale do rio Chao Phraya, os povos Mon haviam-se unido para criar os reinos de Dvaravati. A norte, Haripunjaya (Lamphun) surgiu como potência rival de Dvaravati. No século VIII, os Mon haviam avançado para norte, criando cidades-estado, conhecidas como "muang", em Fa Daet (nordeste da Tailândia), Sri Gotapura (Sikhottabong), perto da actual Tha Khek, no Laos, Muang Sua (Luang Prabang) e Chantaburi (Vientiane). No século VIII d.C., Sri Gotapura (Sikhottabong) controlava o comércio em toda a região do médio Mekong. As cidades-estado introduziram o budismo teravada através de missionários vindos do Sri Lanka em toda a região.
Migrações Tai
350px|thumb|right|Rota de migração Kra-Dai (Tai-Kadai) segundo James R. Chamberlain (2016).Chamberlain, James R. (2016). "[and the Proto-History of South China and Vietnam]", p. 67. In Journal of the Siam Society, Vol. 104, 2016. thumb|350px|right|Mapa mostrando a árvore genealógica linguística sobreposta a um mapa de distribuição geográfica da família Tai-Kadai. Este mapa mostra apenas o padrão geral da migração das tribos de língua Tai, não as rotas específicas, que teriam serpenteado ao longo dos rios e por passagens mais baixas.Baker, Chris and Phongpaichit, Pasuk (2017). "https://books.google.com/books?id=GHiuDgAAQBAJ&pg=PA27|A History of Ayutthaya]]", p. 27. Cambridge University Press. thumb|right|O território continental do Sudeste Asiático no final do século XIII
Foram propostas várias teorias sobre a origem dos povos Tai — dos quais os Lao são um subgrupo —, incluindo uma associação dos povos Tai com o Reino de Nanzhao, teoria que se provou ser inválida.
James R. Chamberlain (2016) propõe que a família linguística Tai-Kadai (Kra-Dai) se formou já no século XII a.C., na bacia média do Yangtzé, coincidindo aproximadamente com o estabelecimento do estado de Chu e o início da dinastia Zhou.Chamberlain, James R. (2016). "https://www.academia.edu/26296118/Kra-Dai_and_the_Proto-History_of_South_China_and_Vietnam|Kra-Dai and the Proto-History of South China and Vietnam]]", pp. 27–77. In Journal of the Siam Society, Vol. 104, 2016. Após as migrações para sul dos povos Kra e Hlai (Rei/Li), por volta do século VIII a.C., o povo Be-Tai começou a separar-se em direcção à costa leste de Zhejiang, no século VI a.C., formando o Estado de Yue. Após a destruição do Estado de Yue pelo exército de Chu por volta de 333 a.C., o povo Yue (Be-Tai) começou a migrar para sul ao longo da costa leste da China, em direcção ao que mais tarde seriam Guangxi, Guizhou e o norte do Vietname, formando o Luo Yue (Tai centro-sudoeste) e o Xi Ou (Tai do Norte). Os povos Tai, provenientes de Guangxi e do norte do Vietname, começaram a deslocar-se para sul — e para oeste no primeiro milénio d.C., espalhando-se progressivamente por todo o território continental do Sudeste Asiático. Com base em camadas de empréstimos linguísticos chineses no proto-Tai sudoeste e noutras evidências históricas, Pittayawat Pittayaporn (2014) propõe que a migração para sudoeste das tribos de língua Tai, de Guangxi e do norte do Vietname para o território continental do Sudeste Asiático, deve ter ocorrido algures entre os séculos VIII e X. As tribos de língua Tai migraram para sudoeste ao longo dos rios e através de passagens mais baixas para o Sudeste Asiático, porventura impelidas pela expansão e repressão chinesas. Os textos históricos chineses registam que, em 722, 400 000 'Lao'O termo "Lao" utilizado neste contexto refere-se aos povos de língua Tai-Kadai residentes no que mais tarde seriam Guangdong, Guangxi e o norte do Vietname, em termos gerais. É aplicado indevidamente apenas aos antepassados Laosianos. se sublevaram sob a liderança de Mai Thúc Loan, que se autoproclamou rei de Nanyue em Guangdong. Após a revolta de 722, cerca de 60 000 pessoas foram decapitadas. Em 726, após a repressão de uma rebelião liderada por um chefe 'Lao' na actual Guangxi, mais de 30 000 rebeldes foram capturados e decapitados. Em 756, outra revolta reuniu 200 000 seguidores e durou quatro anos. Na década de 860, muitos habitantes locais do que é hoje o norte do Vietname aliaram-se aos invasores de Nanzhao, e, nas consequências desse episódio, cerca de 30 000 foram decapitados. Na década de 1040, uma matriarca-xamã de nome A Nong, o seu marido, um chefe local, e o filho de ambos, Nong Zhigao, desencadearam uma revolta, tomaram Nanning, cercaram Guangzhou durante 57 dias e derrotaram os comandantes de cinco exércitos chineses enviados contra eles, antes de serem finalmente vencidos, tendo alguns dos seus líderes sido mortos. Como resultado destes três séculos, os Tai começaram a migrar para sudoeste. Um mapeamento do genoma mitocondrial de populações tailandesas e laosianas, realizado em 2016, sustenta a ideia de que ambas as etnias têm origem na família linguística Tai-Kadai (TK).