A sonata para piano n.º 32 em dó menor op. 111 de Ludwig van Beethoven, composta entre 1820 e 1822, paralelamente à sonata para piano n.º 31, op. 110, e à Missa Solemnis, é a última do compositor e mostra uma síntese entre a forma sonata, a fuga e a variação. Juntamente com as 33 Variações sobre uma valsa de Diabelli e os dois conjuntos de bagatelas Opus 119 e 126, é também uma das suas últimas obras para este instrumento. O seu segundo movimento, Arietta, é muitas vezes denominado "O adeus à sonata"Mann T, Doktor Faustus, 1947.. A execução da obra dura aproximadamente 26 minutos.
Por via da dificuldade técnica e das suas características visionárias, particularmente rítmicas, esta sonata foi quase totalmente ignorada pelos contemporâneos do compositor e demorou muito para se impor no reportório beethovenianoJean Witold, Ludwig van Beethoven, p. 140, Éditions Seghers, escreve "[A sonata op. 111] passando quase despercebida aos contemporâneos, não foi senão mais tarde que [dela] se compreenderam as riquezas"}}. Não foi senão a partir da segunda metade do século XIX que encontrou o seu lugar nas salas de concerto, integrando o reportório dos grandes pianistas Discographie répertoriant 155 enregistrements de la Sonate opus 111 e passando a ser uma das obras mais conhecidas e comentadas de Beethoven.
História da obra Contexto musical thumb|left|Beethoven em 1823, ano da publicação do opus 111. Retrato pintado por F.G. Waldmüller, 1823. O ano de 1820 abriu uma década propícia à música na Europa. Nesse ano em que Beethoven escreveu as suas três últimas sonatas para piano (op. 109, op. 110 e op. 111) enquanto trabalhava na composição da Missa Solemnis, Carl Maria von Weber completa a ópera Der Freischütz. Frédéric Chopin, com 10 anos de idade, compõe as suas primeiras peças para piano, enquanto o jovem Franz Liszt recebe em Viena ensinamentos de Salieri e de Czerny. Em breve Diabelli propõe uma valsa que ficará célebre quando Beethoven lhe acrescentará variações. Em abril de 1823, quando Beethoven envia a sonata opus 111 ao seu editor, Franz Schubert compusera já a Sinfonia inacabada e a Wanderer-Fantasie, e começara o ciclo A Bela Moleira. No período de um ano, Arriaga publica os seus três quartetos de cordas, Beethoven completa as Variações Diabelli e a Nona Sinfonia.
O opus 111 é a trigésima-segunda sonata de Beethoven editada com número de opus, mas a trigésima-quinta se se contar com as três sonatas ditas « ao Eleitor » (WoO 47 n.º 1, 2 e 3) compostas em 1783 em Bona. Sendo a última sonata do compositor, é também, em conjunto com as Onze Bagatelas opus 119 (1822), as 33 Variações sobre uma valsa de Diabelli opus 120 (1823) e as Seis Bagatelas opus 126 (1824), uma das suas últimas obras para piano.
Génese da sonata opus 111 thumb|right|Primeira página autografada da Sonata para piano n.º 32 de Beethoven. Na margem superior está inscrito a lápis, ainda legível, a data de 13 de janeiro de 1822Fonte . As notas de fim de página estão assinadas pelo editor de música August Artaria. Documento conservado na Beethoven-Haus em Bona. Beethoven esboçou a sonata n.º 32 em 1820, simultaneamente com a sonata n.º 31 Tranchefort F-R, Guide de la musique de piano et de clavecin, Fayard 1990, p. 134. Tal como as obras contemporâneas Missa Solemnis e Nona Sinfonia, a composição da sonata opus 111 necessitou de um trabalho longo e complexo, cuja inspiração será bem anterior à década de 1820. Embora a obra não tenha sido estruturada senão a partir de 1820, o primeiro tema do ‘’allegro ed appassionato’’ foi encontrado num caderno de esboços de 1801 - 1802, contemporâneo da Segunda Sinfonia Zwei Skizzenbücher von B. aus den Jahren 1801 bis 1803, Breitkopf, p. 19 e 14 – citado por R. Rolland em Beethoven- Les grandes époques créatrices : Le chant de la résurrection - Editions du Sablier, Paris, 1937, p. 517. O estudo destes cadernos mostra que se trataria de uma sonata em três andamentos, sensivelmente diferente da que hoje se conhece: a suite do tema inicial do primeiro andamento tornou-se a do Quarteto op. 130, e o que deveria servir de tema para o ‘’adagio’’ – uma melodia lenta em lá bemol maior – foi abandonado. Só o tema previsto para o terceiro andamento, acima referido, foi mantido para se tornar o do primeiro andamento da sonata n.º 32Rolland R, Beethoven- Les grandes époques créatrices : Le chant de la résurrection - Editions du Sablier, Paris, 1937, p. 518-520. Também a Arietta resulta de um considerável trabalho de pesquisa temática, e os esboços reencontrados parecem sugerir que é a partir do momento onde o segundo andamento toma verdadeiramente forma que Beethoven abandona a ideia de escrever um terceiro, surgindo-lhe a sonata construída de forma ideal Rolland R, Beethoven- Les grandes époques créatrices : Le chant de la résurrection - Editions du Sablier, Paris, 1937, p. 513Beethoven nota nos esboços da arietta « Zuletzt das thema », tema para terminar – In: J.B. Massin, Beethoven, Fayard 1967, p. 692.
Beethoven terminou a obra em 13 de janeiro de 1822, segundo o autógrafo mas ainda lhe deu alguns retoques até ao início da primavera do mesmo anoM. Solomon, Beethoven, Fayard 2003, p. 366. O compositor dedica-a, em conjunto com a opus 110, à sua amiga Antonia Brentano, cunhada de Bettina von Arnim. Mas terá eventualmente mudado de ideia, e, no momento em que a sonata surge, a dedicatória leva o nome do seu aluno e mecenas, o sacerdote e arquiduque Rudolfo da Áustria (filho de Leopoldo II), para quem já tinha composto a Missa Solemnis. Esta última não ficou terminada a tempo da cerimónia de acolhimento de Rudolfo como arcebispo de Olmütz, e talvez Beethoven lhe tenha oferecido esta sonata como forma de se fazer perdoar, embora nenhuma fonte contemporânea o mencione claramenteProd'homme J. G, Les Sonates pour piano de Beethoven (1782-1823) - Delagrave, Paris, 1937, p. 273. Por fim, Antonia Brentano ficou com a dedicatória das Variações Diabelli (1823).
Acolhimento da obra A dificuldade, tanto a nível pianístico como musical, da sonata opus 111 valeu-lhe um acolhimento algo perplexo por parte do mundo musical da época. Antes mesmo da sua edição pela casa parisiense de Maurice Schlesinger, em abril de 1823, o trabalho editorial revelou-se particularmente intenso para os copistas, gravadores e corretores, confrontados com uma partitura de complexidade até então inéditaProd'homme J. G, Les Sonates pour piano de Beethoven (1782-1823) - Delagrave, Paris, 1937, p. 277. A atitude de Anton Schindler, que incessantemente perguntava a Beethoven por que motivo ele não tinha escrito um terceiro movimento, terá irado o compositor, que respondeu que não tinha tido tempoBoucourechliev A, Beethoven, Seuil, 1994, p. 93Citação : « il suffit d'écouter le second andamento pour comprendre que cette réponse ne pouvait être qu'une façon méprisante d'écarter une aussi grotesque demande » – Ibid.– revela a incompreensão que Beethoven teve que enfrentar.
A crítica do Leipziger Musik-Zeitung de 1824, classificou a obra como "indigna do génio de Beethoven" . E apesar de algumas críticas mais elogiosas, como a do Zeitung für Theater und Musik de 1823, para quem a obra “débordait d'idées et de modulations étonnantes”Brisson E, Guide de la musique de Beethoven, Fayard, 2005, p. 724, a sonata opus 111 demorou muito tempo para se impor no repertório habitual. Foi apenas na segunda metade do século XIX que conseguiu um lugar importante, nomeadamente graças às interpretações de Théodore Ritter e Hans von Bülow na década de 1850 Prod'homme J. G, Les Sonates pour piano de Beethoven (1782-1823) - Delagrave, Paris, 1937, p. 284-285.
O Adeus ao piano Com a exceção das obras mencionadas anteriormente, a sonata Opus 111 é a última obra para piano de Beethoven. O compositor morreria em março de 1827, mais de quatro anos depois de finalizar a sonata. Durante esse período Beethoven continuou a trabalhar em obras importantes, como por exemplo na Nona Sinfonia, nos últimos quartetos de cordas, e ainda em projetos que nunca passaram de esboços, como a sua Décima Sinfonia ou uma ópera baseada na novela Fausto, um quinteto, ou uma abertura dedicada a Bach, um oratório sobre o tema de Saul, uma missa a cappella ou ainda um requiem. De todas estas composições, nenhuma foi destinada ao piano, que tinha sido o seu instrumento musical favorito, sendo em geral arranjos instrumentais e corais que pareceram a Beethoven ser mais poderosos na expressão das suas ideias musicais.
A sonata n.º 32 na literatura Entre as sonatas de Beethoven, a 32.ª para piano é uma das raras a ter tido uma consagração literária A , que Tolstoi imortalizou em La Sonate à Kreutzer (1891), é apenas o exemplo mais célebre. Sob a influência da análise musical e filosófica de Theodor Adorno, Thomas Mann dedicou-lhe uma ilustre passagem do seu romance Doutor Fausto, no qual descreve a obra como uma súmula da investigação pianística do mestre de Bona e – fórmula que se tornaria famosa – como o seu «adeus à sonata», a coda do segundo andamento ressoando como gesto de partida (e fazendo um reenvio para a coda do primeiro andamento da sonata «Les Adieux», andamento que Adorno considerava como um dos mais conseguidos do compositor) http://www.hjs-jazz.de/doktorfaustus.html.
A sonata n.º 32 na música Serguei Prokofiev construiu a sua segunda sinfonia sobre o modelo da opus 111: dois andamentos, dos quais o primeiro dura cerca de metade do segundo; um primeiro andamento muito agitado, seguido de um segundo consistindo numa série de variações de caráter lírico e misteriosoF.R. Tranchefort (dir.), Guide de la musique symphonique (Fayard 1986), entrada “Prokofiev” por André Lischké, p.590. Quanto à própria opus 111, a sexta sinfonia, foi dedicada à memória de Beethoven por causa do número simbólico.
Análise do primeiro andamento : Maestoso – Allegro con brio ed appassionato
O primeiro andamento segue o plano da forma sonata. É composto por uma introdução Maestoso (majestoso, lento e solene), e um Allegro con brio ed appassionato (andamento vivo e alegre, com brio e garboso, de caráter apaixonado). O “Allegro” tem muitas indicações agógicas e nuances extremas. A tonalidade principal é dó menor, mas as modulações são contínuas, com certas mudanças diretamente escritas sobre a partititura (lá bemol maior, compasso 43, e sol menor, compasso 71).
Introdução
Como se prosseguisse um diálogo já começado, o primeiro andamento Maestoso abre com um forte (13px) sobre um intervalo descendente de sétima diminuta (mi♭/fá #) tocado à oitava e seguido de dois acordes de sétima diminuta (fá #/mi♭/lá/dá) tocados sempre forte e sforzando (15px), em reforço do som. De um efeito teatral e dramático impressionante, este primeiro compasso parece querer impor com força a tonalidade de sol menor. Mas no início do segundo compasso, a cadência perfeita tocada piano (13px) e encadeada num acorde de sexta (si♮, ré, sol) ressoando (Ped.) com um longo arpejo em crescendo (cresc.), prossegue com doçura e parece timidamente anunciar a tonalidade de dó menor.
center|500px| center Primeiros compasso do Maestoso
Esta fórmula, repetida duas vezes com harmonizações variadas, assenta sobre uma série de acordes moduladores, com rítmica de pontos duplos, tocada ‘’pianissimo’’ (22px). Durante quatro compassos, em tom grave, um pedal sobre um sol repetido em colcheias traz sobre um longo trinado sobre um acorde perfeito sol, si, ré, em crescendo, fazendo uma transição e conduzindo sem descontinuidade ao Allegro con brio ed appassionato e confirmando definitivamente a tonalidade de dó menor.
Exposição center|500px| Primeiro tema A (em azul) tocado à oitava e sem acompanhamento (compassos 21 a 23)