Dragnet é um programa do rádio e depois da televisão dos Estados Unidos cujo tema é o cotidiano perigoso de dedicados investigadores da Polícia de Los Angeles, o sargento Joe Friday e seus parceiros. O nome do programa que se refere a uma rede de pesca do tipo "arrastão" é uma gíria policial em inglês verdadeira e que significa sistema coordenado de procedimentos para investigação de criminosos ou suspeitos.
Introdução Dragnet foi talvez o mais influente drama policial na história do rádio e televisão estadunidense. As séries conseguiram dar a seus milhões de ouvintes e telespectadores a noção do tédio e do trabalho repetitivo bem como do perigo e heroísmo, sempre presentes no cotidiano real da atividade policial nas grandes cidades. Dragnet foi elogiado por melhorar a imagem dos policiais perante a opinião pública.Em um episódio de março de 1953, a Associação dos Policiais de Detroit deu-lhe uma comenda, em reconhecimento aos esforços do programa em melhorar a imagem dos policiais junto ao público, além de descrever Dragnet como o "melhor e mais realista" programa policial do rádio e televisão.
O ator e produtor Jack Webb dizia que Dragnet tinha a intenção de ser realista e de apresentação despretensiosa. Conseguiu ambos os objetivos pois o programa permanece como uma influência chave para dramas do gênero apresentados em qualquer mídia.
O impacto cultural da série pode ainda ser sentido após cinco décadas do seu encerramento. Elementos característicos de Dragnet são conhecidos mesmo por aqueles que nunca o assistiram: A sinistra introdução acompanhada de compasso de quatro notas executadas por instrumentos de sopro de metais e tambores da música-tema (chamada "Danger Ahead") é instantaneamente associada a série (embora Miklós Rózsa tenha anteriormente usado o mesmo estilo musical em Os Assassinos (The Killers)). Outra marca registrada de Dragnet era a narração de abertura (em tradução livre): "Senhoras e senhores: a história que ouvirão a seguir é verdadeira. Apenas os nomes foram mudados para a proteção dos inocentes". A estrutura original sofreu algumas variações em versões posteriores do programa. O "apenas" e "senhoras e senhores" desaparecem em algumas ocasiões e para a televisão o "ouvirão" foi trocado para "verão". Variantes dessa narração são ouvidas em muitos programas policiais subsequentes, além das respectivas sátiras (por exemplo, uma piada é dizer "Apenas os fatos foram mudados para proteger os inocentes").
A versão original de Dragnet foi estrelada com Jack Webb como o Sargento Friday durante o período de 3 de junho de 1949 a 26 de fevereiro de 1957. Na televisão, de 16 de dezembro de 1951 a 23 de agosto de 1959 e de 12 de janeiro de 1967 a 16 de abril de 1970. As redes de rádio e televisão da NBC transmitiram as três séries. Todas as três versões foram adaptadas para filmes: uma produção de 1954 com Webb; um filme de TV em 1966; e uma comédia em 1987. Após o falecimento de Jack Webb, duas tentativas de relançamento de Dragnet foram feitas: um programa semanal em 1989 e outro para a ABC em 2003. Uma tira diária de quadrinhos publicada em jornais foi distribuída pelo Los Angeles Mirror Syndicate entre 23 de junho de 1952 a 21 de maio de 1955. O autor era o roteirista do programa Jack Robinson (não creditado) e os desenhos eram de Joe Sheiber (23 de junho a 20 de setembro de 1952), Bill Ziegler (22 de setembro de 1952 a 9 de janeiro de 1954) e Mel Keefer (11 de janeiro de 1954 a 21 de maio de 1955). O pesquisador de quadrinhos Ron Goulart, em seu livro The Funnies, atribui a frequente troca de artistas da tira ao desejo de Webb de encontrar alguém que desenhasse sua aparência como ele queria e não como era.Obscurity of the Day: Dragnet
História Criação Dragnet foi criado e produzido por Jack Webb, que atuava como o Sargento Joe Friday. Webb tinha trabalhado antes em alguns programas de rádio mas Dragnet o transformou numa das maiores celebridades para o público americano de sua era.
Dragnet teve origem num pequeno papel de Webb como perito forense policial no filme de 1948 He Walked by Night, inspirado por uma violenta onda de crimes praticada em 1946 por Erwin Walker, um perturbado veterano da Segunda Guerra Mundial e policial aposentado da Policia de Glendale.Crazy Like A Fox, The Los Angeles Times, 2 June 1947Man Continues to Fight Police Despite Wounds, The Los Angeles Times, 21 de dezembro de 1946 O filme recebeu o estilo de semidocumentário e Marty Wynn (na vida real sargento da Divisão de Roubos da Polícia de Los Angeles) participara como consultor técnico. Inspirado nas histórias de Wynn sobre investigações criminais verdadeiras e procedimentos policiais, Webb convenceu o policial de que o cotidiano da atividade poderia ser tema de um programa de rádio que fosse realista e deixasse de lado os melodramas detetivescos característicos que eram o padrão naquele momento.
Webb frequentemente visitava o comando policial, acompanhava as patrulhas noturnas de Wynn e seu parceiro, o policial Vance Brasher, além de frequentar os cursos na Academia de Polícia, onde aprendia os jargões da profissão além de outros detalhes que pudessem ser usados no rádio. Quando ele propôs Dragnet para os executivos da NBC, não causou muita impressão no início; o rádio estava recheado de programas sobre detetives particulares e dramas criminais, inclusive o que o próprio Webb trabalhara chamado Pat Novak for Hire. O programa teve vida curta mas Webb recebera elogios pelo seu papel de investigador e a NBC acabou por concordar com uma série limitada e aprovou Dragnet.
Com o escritor James E. Moser, Webb preparou a locução preliminar e queria a colaboração da polícia de Los Angeles pois desejava usar os casos de arquivo e destacar todos os passos seguidos durante as investigações. A resposta oficial no início não foi muito entusiasmante mas em 1949 o chefe de polícia Clemence B. Horrall ofereceu a Webb o apoio que ele queria. A polícia procurou controlar o conteúdo do programa e insistia que não poderia haver muitas críticas. Isso levou a que o programa causasse algumas desconfianças, tendo sido notada a falta de referências importantes da atividade tais como a política de segregação racial que nunca fora mencionada.
Rádio Dragnet estreou de forma pouco auspiciosa. Durante as primeiras semanas a qualidade foi irregular, com Webb e equipe desenvolvendo o melhor formato e tentando ficarem mais confortáveis com seus personagens (Friday era retratado inicialmente como mais enérgico e impetuoso, depois ficaria mais relaxado). Gradualmente apareceria a fala rápida sem expressividade de Friday. John Dunning descrevia o personagem (em tradução livre) como "um tira que era tira, persistente sem ser duro, conservador mas cuidadoso". (Dunning, 210). O primeiro parceiro de Friday foi o sargento Ben Romero, interpretado por Barton Yarborough, um veterano ator de rádio. Raymond Burr estava no elenco e interpretava o Chefe dos Investigadores Ed Backstrand. Dragnet logo se tornou um programa de grande audiência.
Webb insistia que o realismo prevalecesse em todos os aspectos do programa. Os diálogos eram poucos, estilo seco e franco influenciado pela narrativa usada na ficção literária sobre crimes (apelidada em inglês de hardboiled). Os textos traziam rápidas mudanças mas isso não era muito notado. Todos os aspectos da investigação policial eram narrados, passo a passo: Das patrulhas e relatórios, passando pela investigação da cena do crime, o trabalho em laboratório e da perícia até os interrogatórios das testemunhas e suspeitos. A vida pessoal dos detetives era mencionada mas raramente eram o centro da narrativa. (Friday era um solteirão que morava com a mãe; Romero era um mexicano-americano do Texas, irrequieto marido e pai). "Retratar ainda é atuar" disse Webb (em tradução livre) para a revista Time. "Nós tentamos fazer isso tão real como um cara bebendo uma xícara de café”. (Dunning, 209). Os chefes policiais de Los Angeles C.B. Horrall, William A. Worton e William H. Parker foram creditados como consultores e muitos policiais se tornaram fãs do programa.
Muitos dos últimos episódios receberam títulos originais começados como "The Big _____", acompanhado do nome de um objeto ou algo inconsequente mas que se tornaria importante para o trabalho mostrado. Por exemplo, em "The Big Streetcar" ("O grande bonde"), o barulho de fundo de um desses transportes passando na rua serviu para estabelecer o local em que fora feita uma chamada telefônica por um suspeito. Durante os anos da série no rádio, muitos episódios ofereceram ainda interessantes vislumbres da região central de Los Angeles, antes da mesma passar por um processo de renovação, havendo a menção a antigos moradores da classe trabalhadora, bares baratos, cafés e hotéis populares dentre outras características.
Realismo
Webb era obcecado pela acurácia da história e por detalhes e Dragnet usava autênticos efeitos sonoros como o sinal de chamada do rádio da polícia (KMA367), além dos nomes de policiais reais que trabalhavam nos diferentes departamentos tais como Ray Pinker e Lee Jones do laboratório de criminalística ou o Chefe dos Detetives (e mais tarde chefe de polícia, entre 1967-69) Thad Brown.
O programa tinha dois apresentadores. O episódio começava com o locutor George Fenneman dizendo o conhecido e já citado texto de abertura e Hal Gibney descrevia a premissa básica do relato. "Big Saint" (26 de abril de 1951) por exemplo, começava com (em tradução livre) "Você é um Sargento-Detetive. Você investiga roubos de carros. Uma bem organizada quadrilha desses ladrões começou a operar na cidade. Esse é um dos mais intrincados casos que chegou ao seu conhecimento. Seu trabalho: parar isso".
Após o primeiro intervalo comercial, Gibney apresenta oficialmente o programa (em tradução livre): "Dragnet, um drama documentado sobre crimes verdadeiros. Pelos próximos 30 minutos, em cooperação com o Departamento de Polícia de Los Angeles, você seguirá passo a passo o avançar da lei num caso verídico, retirado dos arquivos oficiais da polícia. Do começo ao fim - do crime a punição—Dragnet é a história de sua força policial em ação".
A história então começava, com barulhos de passos e uma porta se fechando, seguidos de uma fala de Joe Friday geralmente dizendo "Quinta-feira, 12 de fevereiro. Faz frio em Los Angeles. Nos estamos trabalhando na Divisão de Roubos. Meu parceiro é Ben Romero. O oficial superior é Ed Backstrand, chefe dos detetives. Meu nome é Friday".
Friday narrava os episódios, marcando a hora, data e lugar em todas as cenas em que ele e os parceiros investigavam o crime. Os fatos contados podiam se passar em poucas horas ou mesmo se alongar por meses. Em pelo menos uma ocasião o episódio se passou em tempo real: em "City Hall Bombing" (21 de julho de 1949), Friday e Romero tiveram menos de 30 minutos para deterem um homem que ameaçava explodir o prédio da prefeitura com uma bomba.
Ao fim do episódio, usualmente após uma breve chamada de Jack Webb do patrocinador, o locutor Hal Gibney relatava o destino do suspeito, usualmente julgado no "Departamento 187 da Corte Superior do Estado da Califórnia, em e para a Cidade e o Condado de Los Angeles", condenado pelo crime e enviado (na maioria dos episódios) para a "Penitenciária Estadual em San Quentin, Califórnia" ou examinado por [n] psiquiatras indicados pela Corte", julgado mentalmente incapaz e "internado num hospital estadual para doentes mentais por período indeterminado". Assassinos eram "executados na forma prevista na lei" ou "nas letais câmaras de gás da Penitenciária Estadual em San Quentin, Califórnia". Ocasionalmente, pelo menos nos programas de rádio, a polícia perseguia o suspeito errado e algumas vezes os culpados enganavam a Justiça ou escapavam. Em 1950, Time citou Webb: "Nós sequer queríamos provar que o crime não compensa... mas algumas vezes o fizemos" (Dunning, 210).