Mitologia Lusitana é o conjunto de crenças e divindades dos lusitanos, povo de ascendência proto-indo-europeia do oeste da Península Ibérica, no território que compreende a maior parte de Portugal, da Galiza, da Extremadura e uma pequena parte de Salamanca.

miniaturadaimagem|Endovélico – deus lusitano do além Universo mitológico Devido à ausência de registos literários nativos pré-romanos, a reconstituição do universo mitológico é efetuada por via indireta, recorrendo à epigrafia votiva do período de romanização, à arqueologia dos santuários e aos relatos de cronistas clássicos como Estrabão, Plínio, o Velho e Pomponio Mela.

As divindades lusitanas influenciaram fortemente todas as práticas religiosas do oeste da Ibéria, nomeadamente na Galécia e sua nativa Lusitânia. Recentemente, um substrato vascónio começa a ser reconhecido. Um outro povo que partilhava de práticas e divindades lusitanas eram os vizinhos vetões, apesar de não ser claro o nível de partilha cultural.

Os deuses lusitanos estiveram em síntese, quer com os celtas, quer misturando-se sincreticamente com divindades romanas após a conquista da Lusitânia. Algumas divindades lusitanas foram assimiladas pelos próprios romanos,Katia Maia-Bessa and Jean-Pierre Martin (1999) permanecendo as crenças nativas. Aquando a cristianização dos reinos suevo e visigodo ibéricos, o paganismo como um todo foi rejeitado.

A cosmologia tripartida era um traço característico das culturas indo-europeias. O universo dividia-se em três planos: O Céu (Mundo Superior): Sede da ordem cósmica e dos fenómenos atmosféricos, como o raio, trovão e tempestades. A Terra (Mundo Intermediário): O plano da realidade empírica habitado pelos mortais, caracterizado por um profundo animismo bio-regional, no qual as serras e rios possuíam consciência e estatuto divino. O Submundo (Mundo Inferior): O reino dos mortos e dos antepassados. Diferente da visão moderna de "inferno", era visto como um local de regeneração da vida, onde as almas esperavam o seu ciclo de renovação.

O estudo científico da mitologia lusitana iniciou-se de forma sistemática no século XIX, impulsionado pelos trabalhos de pioneiros da arqueologia portuguesa como Leite de Vasconcelos (autor da obra basilar Religiões da Lusitânia).

Divindades Deuses maiores Endovélico - Deus da cura, almas, submundo, sonhos e profecias Bandua - Deus/a da comunidade, união e proteção Atégina - Deusa do renascimento, natureza e primavera Reve - Deus do céu, trovão, montanhas, ordem e justiça Nabia - Deusa das águas e fertilidade Trebaruna - Deusa da casa e batalhas

Deuses menores

Arentio e Arentia - Par divino celestial Quangeio  - Deus dos cães e animais Cosso - Deus da guerra Ares Lusitano - Deus dos cavalos e guerra Carióceco - Deus da guerra, caça e animais Munidis - Deusa da paisagem Carneus - Deus do gado Trebopala - Deusa do santuário Erbina - Deusa dos campos Lucubo - Deus da prosperidade e comércio Runesocésio - Deus misterioso dos dardos Coronus - Deus coroado do submundo

Comuns com os galaicos

Abna  - Deusa local das águas e bosques Aernus - Deus dos ventos Bormanico - Deus das águas termais Larouco - Deus da Serra do Larouco Coruas - Deus celeste e das montanhas Frovida - Deusa dos rios e fluxos Ameipicer - Deus local de águas salutares Edóvio - Deus aquático das termas Moelio - Deus do lodo e pântanos Turiaco - Deus do poder Brigus - Deus da criação Laho - Deus protetor do território Netaci - Deus da vingança Bmervaseco - Deus marcial vaseco Debaroni - Deus protetor de Avelelas Dercécio - deus das montanhas e cumes Berobreo - Deus das almas Crouga - Deus dos crânios Verore - Deus do oráculo

Comuns com os vetões

Ilurbeda - Deusa das minas, subsolo e caminhos Toga - Deusa protetora da tribo Arabo - Deus aquático local

Comuns com os celtas

Epona - Deusa celta dos cavalos Vestio - Deus ligado à produção de alimentos Sucellus - Deus da agricultura e bebidas alcoólicas Nantosvelta - Deus ligado à natureza Drusuna - Deusa dos carvalhos, sabedoria e floresta

Outros

Abiafelesurreco - Deus ctónico local Durius - Deus do rio Douro Dubérdico - Deus aquático local Laneana - Deusa local Eniragillo - Deus protetor local Igaedo - Deus génio da tribo Lepo - Deus protetor local Moricilo - Deus protetor local Ocaere - Deus da Serra do Gêres Torolo - Deus protetor local Turólicos - Deus protetor local Aetio - Deus dos caminhos e paisagens Albucelainco - Deus da resolução local Aracus - Deus aquático local

Cabar - Deus das águas curativas Cabuniaegenis - Deus sanador Candeberônio - Deus das montanhas Miraro - Deus protetor local Mirobieu - Deus protetor local Salqiu - Deus ctónico guerriro Lurunos - Deus da morte

Genealogia

Mitos

Criação do Mundo - No início, o Deus-pai Reve e a Deusa-mãe Nabia estavam entrelaçados. Não havia espaço entre eles. O filho Bandua separou-os. Formaram-se o céu, onde Reve se tornou a luz, e a terra, onde Nabia se tornou a água. Reve enviou o seu sêmen cósmico como chuva, que fecundou a terra, e surgiram os primeiros humanos e animais. Visita de Baco a Endovélico - Baco viajou à Lusitânia para visitar o seu amigo Endovélico e, exausto da caminhada, abrigou-se numa cabana de pastores. Embora desconhecessem o vinho, acolheram o deus com água fresca e uma perna de cabrito. Comovido com a generosidade, decidiu recompensar aquela família ao abençoar o solo e ensinar os lusitanos a cultivar as videiras, a pisar a uva e a fermentar o vinho. Nascia assim a tradição vinícola do Dão e Mêda. Descida de Atégina ao Submundo - A morte de Endovélico, por um javali selvagem, mergulhou a Lusitânia na desolação, levando a sua consorte, Atégina, a descer ao Submundo para o resgatar. Lá, descobriu que o deus se tinha transformado no rei dos mortos. Enquanto Atégina permaneceu nas profundezas, a superfície da Terra secou. O seu regresso periódico ao mundo dos vivos faz a Natureza florescer, dando origem ao ciclo das estações.

Ver também Luso (mitologia) Folclore de Portugal Mitologia portuguesa

Ligações externas

Robalo, Mário.Deuses de pedra

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