Preto é uma cor que resulta da ausência ou da absorção completa da luz visível. É uma cor acromática, sem croma, assim como o branco e o cinza. É frequentemente usado de forma simbólica ou figurada para representar a escuridão.Eva Heller, Psychologie de la couleur – effets et symboliques, pp. 105–26. O preto e o branco têm sido frequentemente usados para descrever opostos, como o bem e o mal, a Idade das Trevas em contraposição ao Iluminismo, e a noite em contraposição ao dia. Desde a Idade Média, o preto é a cor simbólica da solenidade e da autoridade e, por essa razão, ainda é comumente usado por juízes e magistrados.
O preto foi uma das primeiras cores usadas por artistas em pinturas rupestres do Neolítico. Foi usado no Antigo Egito e na Grécia como a cor do submundo. No Império Romano, tornou-se a cor do luto e, ao longo dos séculos, foi frequentemente associado à morte, ao mal, às bruxas e à magia. No século XIV, era usado pela realeza, pelo clero, por juízes e por funcionários governamentais em grande parte da Europa. Tornou-se a cor usada por poetas românticos ingleses, empresários e estadistas no século XIX e uma cor da alta-costura no século XX. Segundo pesquisas realizadas na Europa e na América do Norte, é a cor mais comumente associada ao luto, ao fim, aos segredos, à magia, à força, à violência, ao medo, ao mal e à elegância.Eva Heller (2000) Psychologie de la couleur – effets et symboliques, pp. 105–27.
O preto é a cor de tinta mais usada na impressão de livros, jornais e documentos, pois proporciona o maior contraste com o papel branco e, portanto, é a cor mais fácil de ler. Da mesma forma, texto preto sobre uma tela branca é o formato mais comum em telas de computador.Eva Heller, Psychologie de la couleur – effets et symboliques, p. 126. Em setembro de 2019, o material mais escuro era produzido por engenheiros do MIT a partir de nanotubos de carbono alinhados verticalmente.
Arte Pré-história
O preto foi uma das primeiras cores usadas na arte. A caverna de Lascaux, na França, contém desenhos de touros e outros animais feitos por artistas do Paleolítico entre 18 000 e 17 000 anos atrás. Eles começaram usando carvão vegetal e, posteriormente, obtiveram pigmentos mais escuros queimando ossos ou triturando óxido de manganês até transformá-lo em pó.Michel Pastoureau, Noir – Histoire d'une couleur, p. 34.
Antiguidade
Para os antigos egípcios, o preto tinha associações positivas, pois era a cor da fertilidade e do rico solo negro inundado pelo Nilo. Era a cor de Anúbis, o deus do submundo, que assumia a forma de um chacal preto e protegia os mortos contra o mal. Para os antigos gregos, o preto representava o submundo, separado do mundo dos vivos pelo rio Aqueronte, cujas águas corriam negras. Aqueles que haviam cometido os piores pecados eram enviados ao Tártaro, o nível mais profundo e escuro. No centro ficava o palácio de Hades, o rei do submundo, sentado em um trono de ébano preto. O preto foi uma das cores mais importantes utilizadas pelos artistas da Grécia Antiga. No século VI a.C., eles começaram a produzir cerâmicas de figuras negras e, posteriormente, cerâmicas de figuras vermelhas, usando uma técnica bastante original. Na cerâmica de figuras negras, o artista pintava as figuras com uma barbotina de argila brilhante sobre um vaso de argila vermelha. Quando o vaso era cozido, as figuras pintadas com a barbotina ficavam pretas sobre um fundo vermelho. Mais tarde, o processo foi invertido, com a pintura dos espaços entre as figuras. Isso produzia magníficas figuras vermelhas sobre um fundo preto brilhante.Stefano Zuffi, Color in Art, p. 270.
Na hierarquia social da Roma Antiga, o púrpura era reservado ao imperador; o vermelho era a cor usada pelos soldados — capas vermelhas pelos oficiais e túnicas vermelhas pelos soldados —; o branco era usado pelos sacerdotes; e o preto, por artesãos. O preto que usavam não era profundo nem intenso; os corantes vegetais empregados para produzi-lo não eram firmes ou duradouros, de modo que os tecidos pretos frequentemente desbotavam para cinza ou marrom.
Em latim, a palavra para preto, ater, e o verbo escurecer, atere, eram associados à crueldade, à brutalidade e ao mal. Para os romanos, o preto simbolizava a morte e o luto. No século II a.C., os magistrados romanos usavam uma toga escura, chamada toga pulla, em cerimônias fúnebres. Mais tarde, durante o Império, a família da pessoa falecida também usava cores escuras durante um longo período; depois de um banquete que marcava o fim do luto, trocava o preto por uma toga branca. Na poesia romana, a morte era chamada de hora nigra, a "hora negra".
Os povos germânicos e escandinavos cultuavam sua própria deusa da noite, Nótt, que atravessava o céu em uma carruagem puxada por um cavalo preto. Também temiam Hel, deusa do reino dos mortos, cuja pele era preta de um lado e vermelha do outro. Além disso, consideravam o corvo sagrado. Acreditavam que Odin, rei do panteão nórdico, possuía dois corvos pretos, Hugin e Munin, que atuavam como seus agentes, viajando pelo mundo, observando e ouvindo por ele.Michel Pastoureau, Noir – Histoire d'une couleur, pp. 34–45.
Período pós-clássico No início da Idade Média, o preto era comumente associado à escuridão e ao mal. Nas pinturas medievais, o diabo era geralmente representado com forma humana, mas com asas e pele ou cabelos pretos.Stefano Zuffi, Color in Art, p. 272.
Séculos XII e XIII Na moda, o preto não possuía o prestígio do vermelho, a cor da nobreza. Era usado pelos monges da Ordem de São Bento como sinal de humildade e penitência. No século XII, surgiu uma célebre disputa teológica entre os monges da Ordem de Cister, que usavam branco, e os beneditinos, que usavam preto. Um abade beneditino, Pedro, o Venerável, acusou os cistercienses de orgulho excessivo por usarem branco em vez de preto. São Bernardo de Claraval, fundador da Ordem de Cister, respondeu que o preto era a cor do diabo, do inferno, "da morte e do pecado", enquanto o branco representava "a pureza, a inocência e todas as virtudes".Michel Pastoureau, Noir – Histoire d'une couleur, p. 80.
O preto simbolizava tanto o poder quanto o sigilo no mundo medieval. O emblema do Sacro Império Romano-Germânico era uma águia preta. O cavaleiro negro na poesia da Idade Média era uma figura enigmática que ocultava sua identidade e geralmente estava envolta em mistério.Michel Pastoureau, Noir – Histoire d'une couleur, pp. 86–90.
A tinta preta, inventada na China, era tradicionalmente usada na Idade Média para escrever, pela simples razão de que o preto era a cor mais escura e, portanto, proporcionava o maior contraste com o papel branco ou o pergaminho, tornando-se a mais fácil de ler. Tornou-se ainda mais importante no século XV, com a invenção da imprensa. Um novo tipo de tinta, a tinta de impressão, foi criado a partir de fuligem, terebintina e óleo de noz. A nova tinta tornou possível difundir ideias para um público de massa por meio de livros impressos e popularizar a arte por meio de gravuras em preto e branco. Devido ao contraste e à nitidez, a tinta preta sobre papel branco continuou sendo o padrão para a impressão de livros, jornais e documentos; pela mesma razão, texto preto sobre fundo branco é o formato mais comum em telas de computador.
Séculos XIV e XV No início da Idade Média, príncipes, nobres e pessoas ricas geralmente usavam cores vivas, especialmente capas escarlates provenientes da Itália. O preto raramente fazia parte do vestuário de uma família nobre. A única exceção era a pele da zibelina. Essa pele preta e brilhante, proveniente de um animal da família das martas, era a pele mais fina e cara da Europa. Era importada da Rússia e da Polônia e usada para ornamentar as vestes e os trajes da realeza.
No século XIV, a posição do preto começou a mudar. Primeiro, corantes pretos de alta qualidade começaram a chegar ao mercado, permitindo a produção de roupas de um preto profundo e intenso. Magistrados e funcionários governamentais passaram a usar vestes pretas como sinal da importância e seriedade de seus cargos. Um terceiro motivo foi a promulgação de leis suntuárias em algumas regiões da Europa, que proibiam o uso de roupas caras e de determinadas cores por qualquer pessoa que não pertencesse à nobreza. As famosas capas escarlates brilhantes de Veneza e os tecidos azul-pavão de Florença eram restritos à nobreza. Os ricos banqueiros e mercadores do norte da Itália responderam adotando vestes e trajes pretos, confeccionados com os tecidos mais caros.Michel Pastoureau, Noir – Histoire d'une couleur, pp. 93–130.
A mudança para um preto mais austero, porém elegante, foi rapidamente adotada por reis e nobres. Começou no norte da Itália, onde o duque de Milão, o conde de Saboia e os governantes de Mântua, Ferrara, Rimini e Urbino passaram a vestir-se de preto. Depois, difundiu-se para a França, liderada por Luís I, duque de Orleães, irmão mais novo do rei Carlos VI de França. Chegou à Inglaterra no fim do reinado de Ricardo II de Inglaterra (1377–1399), quando toda a corte passou a usar preto. Em 1419–1420, o preto tornou-se a cor do poderoso duque da Borgonha, Filipe, o Bom. Chegou à Espanha, onde se tornou a cor dos Habsburgos espanhóis, de Carlos V e de seu filho, Filipe II de Espanha (1527–1598). Os governantes europeus viam o preto como a cor do poder, da dignidade, da humildade e da temperança. No fim do século XVI, era a cor usada por quase todos os monarcas europeus e suas cortes.Michel Pastoureau, Noir – Histoire d'une couleur, pp. 121–25.
Idade Moderna Séculos XVI e XVII
Embora o preto fosse a cor usada pelos governantes católicos da Europa, também era a cor emblemática da Reforma Protestante na Europa e dos puritanos na Inglaterra e na América. João Calvino, Filipe Melâncton e outros teólogos protestantes condenavam os interiores ricamente coloridos e decorados das igrejas católicas romanas. Consideravam o vermelho, usado pelo papa e pelos cardeais, a cor do luxo, do pecado e da insensatez humana.Michel Pastoureau, Noir – Histoire d'une couleur, pp. 146–47. Em algumas cidades do norte da Europa, multidões atacaram igrejas e catedrais, quebraram vitrais e danificaram estátuas e decorações. Na doutrina protestante, as roupas deveriam ser sóbrias, simples e discretas. As cores vivas foram proibidas e substituídas por preto, marrom e cinza; recomendava-se que mulheres e crianças usassem branco.Michel Pastoureau, Noir – Histoire d'une couleur, pp. 152–53.
Nos Países Baixos protestantes, Rembrandt utilizou essa nova e sóbria paleta de pretos e marrons para criar retratos nos quais os rostos emergiam das sombras, expressando as emoções humanas mais profundas. Pintores católicos da Contrarreforma, como Rubens, seguiram a direção oposta e preencheram suas pinturas com cores vivas e intensas. As novas igrejas barrocas da Contrarreforma geralmente eram de um branco brilhante por dentro e repletas de estátuas, afrescos, mármore, ouro e pinturas coloridas, com o objetivo de atrair o público. Contudo, católicos europeus de todas as classes, assim como os protestantes, acabaram adotando um vestuário sóbrio, composto principalmente por preto, marrom e cinza.Michel Pastoureau, Noir – Histoire d'une couleur, pp. 150–51
Na segunda metade do século XVII, a Europa e a América vivenciaram uma epidemia de medo da bruxaria. Acreditava-se amplamente que o diabo aparecia à meia-noite em uma cerimônia chamada missa negra ou sabá negro, geralmente sob a forma de um animal preto — muitas vezes um bode, cão, lobo, urso, cervo ou galo —, acompanhado por espíritos familiares, gatos pretos, serpentes e outras criaturas pretas. Essa foi a origem da superstição difundida sobre gatos pretos e outros animais pretos. Na Flandres medieval, em uma cerimônia chamada Kattenstoet, gatos pretos eram lançados do campanário do Salão dos Tecidos de Ypres para afastar a bruxaria.Stefano Zuffi, Color in Art, p. 279.