Antônio dos Santos Cunha ( – 19 de novembro de 1830) foi um compositor brasileiro de música sacra e funcionário público. Nascido em Meia Ponte, na Capitania de Goiás, cresceu em São João del-Rei, atravessou o Atlântico para viver e trabalhar em Portugal e passou seus últimos anos no Rio de Janeiro.

Cunha compôs missas, responsórios da Semana Santa e música para a Novena de Nossa Senhora da Boa Morte. Suas composições viajaram mais longe e perduraram por mais tempo do que o relato de sua vida que chegou até o presente. Foram copiadas e executadas em São João del-Rei enquanto ele vivia em outros lugares e, durante décadas após sua morte, passaram de uma geração de cantores, instrumentistas e copistas a outra. Manuscritos de seu próprio punho e partes de execução posteriores são conservados pela Orquestra Ribeiro Bastos, pela Orquestra Lira Sanjoanense e pelo Cabido Metropolitano do Rio de Janeiro.

Suas obras de maior porte alternam o peso coletivo do coro e a intimidade de árias solistas, duetos e trios. Solos de clarinete, passagens cromáticas para trompa e escrita aguda para violinos dão voz própria às partes instrumentais, enquanto alguns movimentos vocais empregam a linguagem expressiva e técnica da ópera italiana. O nome de Cunha desapareceu da memória mais ampla, mas sua música permaneceu em livros manuscritos, arquivos eclesiásticos e apresentações locais. Edições, gravações e novas execuções desde o fim do século XX têm se concentrado na Missa Grande e na Missa e Credo a Cinco Vozes.;

Vida

Origens e família

Cunha nasceu por volta de 1780 em Meia Ponte, na Capitania de Goiás. Seu registro de casamento informa Meia Ponte como local de nascimento, assim como os assentos de batismo de seus filhos. Alguns registros feitos depois que a família se mudou para o Rio de Janeiro abreviaram sua origem para Minas ou Minas Gerais.

Sua mãe, Angélica de Oliveira Rosa, nasceu em Santa Luzia, na comarca de Sabará. Ela foi para Goiás, onde nasceram Cunha e sua irmã, Ana Francisca de São José, e já estava estabelecida em São João del-Rei em 1787. Angélica permaneceu solteira. Possuía imóveis e pessoas escravizadas e integrava as irmandades de São Miguel e Almas, Nossa Senhora do Rosário e Santíssimo Sacramento, além da Ordem Terceira de São Francisco. Seu testamento, redigido em 1836, nomeou Antônio e Ana Francisca como filhos naturais e instituiu os netos como herdeiros.

O registro de casamento e os assentos de batismo de oito filhos de Cunha indicam como seu pai um Antônio dos Santos Cunha mais velho. Nesses documentos, o homônimo teria nascido no Rio de Janeiro e ocupado o posto de alferes em 1801 e o de sargento-mor em 1809. Angélica não identificou o pai de nenhum de seus dois filhos no testamento. Pardini e Rocha mantêm em aberto a possibilidade de que essa linhagem paterna tenha sido apresentada posteriormente, quando Cunha procurava o prestígio associado a uma descendência legítima. A identidade exata e o papel do Antônio dos Santos Cunha mais velho permanecem incertos.

São João del-Rei e associações religiosas

Um dos primeiros vestígios de Cunha em São João del-Rei aparece em um batismo de 1793, quando ele portou uma procuração em nome de sua mãe. Em 6 de janeiro de 1796, ingressou na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos. O livro da associação o classificou como branco. Para ser admitido, ofereceu uma túnica cerimonial destinada a uma imagem de Nossa Senhora dos Remédios.

miniaturadaimagem|Fachada e torres da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, onde Pedro, filho de Cunha, foi batizado em 1821

Em 1800, Cunha já pagava anuidades à Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo. Ingressou na Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos em 17 de fevereiro de 1801 e, no mesmo ano, vendeu um livro à Irmandade de São Miguel e Almas. Essas associações mantinham capelas, organizavam procissões e festas e contratavam músicos para os ofícios religiosos. Cunha pertencia aos mesmos círculos pelos quais sua música circularia mais tarde em São João del-Rei.

Cunha também recebia a confiança necessária para cumprir encargos formais. Em 1801, levou uma procuração de um padrinho de batismo. Repetiu a função no ano seguinte, no batismo de uma criança nascida de uma mulher escravizada. Tais tarefas exigiam alguém capaz de ler, escrever e lidar com documentos jurídicos. Não se sabe onde Cunha aprendeu música nem se estudou com algum professor.

Portugal e retorno ao Brasil

Em 1807, Cunha já vivia em Portugal. Em 22 de novembro, casou-se com Helena Sofia Lassance na igreja paroquial de São Pedro, em Alenquer. Declarou Meia Ponte como sua terra natal. Helena nascera em Lisboa em 1791 e era filha de Carlos Lassance e Cecília Augusta da Silva Arnaut.

Os filhos do casal foram batizados em Torre de Moncorvo, Chaves e Lisboa entre 1809 e 1818. A família percorreu o norte de Portugal durante a Guerra Peninsular e os anos conturbados que se seguiram. Por volta de 1815, uma anotação da Ordem Terceira do Carmo descreveu Cunha como “ausente para Lisboa”. A informação é conhecida por uma transcrição posterior, pois o registro original não foi localizado. Não se sabe por que ele deixou o Brasil, e nenhum emprego musical foi encontrado para os anos que passou em Portugal.

Em março de 1819, Cunha trabalhava na administração dos suprimentos militares de Trás-os-Montes, como primeiro-oficial revisor de contas do Departamento do Comissariado da província. Recebeu licença de um ano para viajar de Lisboa ao Rio de Janeiro com Helena e cinco filhos pequenos. O passaporte declarava que retornava para tratar de negócios particulares.

A família havia retornado a São João del-Rei em 1820, quando Cunha pagou sua anuidade à Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos. Seu filho Pedro foi batizado na Igreja de Nossa Senhora do Pilar em 6 de abril de 1821. No ano seguinte, Cunha contribuiu com 4.800 réis para um chafariz público planejado para o Largo de São Francisco. Em 21 de maio, durante o batismo de Juvêncio, Cunha concedeu liberdade ao menino recém-nascido. Juvêncio era filho de Mariana, mulher escravizada que vivia na casa de Cunha.

A partir de 31 de dezembro de 1821, Cunha trabalhou como escriturário na Fábrica de Pólvora do Arsenal do Exército, no Rio de Janeiro. Ainda mantinha assuntos familiares e confrariais em São João del-Rei em 1821 e 1822, antes de sua casa se estabelecer na capital.

Rio de Janeiro e últimos anos

A partir de 31 de dezembro de 1821, Cunha trabalhou como escriturário na Fábrica de Pólvora do Arsenal do Exército, nas proximidades da Lagoa Rodrigo de Freitas, onde cuidou de contas e documentos entre 1821 e 1829. Em 1823, também integrou a 4.ª Companhia do 2.º Batalhão de Infantaria da Guarda Cívica da cidade. Exerceu ainda o cargo de oficial de contabilidade da Câmara Municipal de 1827 até a morte. Pedro I o admitiu na Ordem de Cristo em 1.º de outubro de 1827.

A música ocupava o tempo que conseguia poupar do trabalho e da família. Entre janeiro de 1822 e maio de 1823, Cunha compôs a Missa e Credo a Cinco Vozes e a dedicou a Pedro I. A obra foi considerada para uma cerimônia da Assembleia Geral do Império em 1.º de maio de 1823, na qual José Maurício Nunes Garcia dirigiu a música.

O Diario do Governo noticiou que a missa de Cunha havia sido executada naquele dia. Em 16 de maio, ele escreveu ao jornal para corrigir a informação. Havia oferecido a obra ao imperador, mas outra missa foi escolhida. Explicou que sua partitura era extensa demais e exigia mais preparação do que o tempo disponível para a cerimônia permitia.

Cunha também participou dos planos para uma estátua equestre de bronze de Pedro I. Em junho de 1825, uniu-se aos apoiadores convocados pelo Senado da Câmara do Rio de Janeiro. Em 21 de abril de 1826, entregou 383$880 ao Tesouro Geral, quantia arrecadada em São João del-Rei para o monumento proposto.

Cunha morreu em sua casa na Rua dos Ferradores, no Rio de Janeiro, em 19 de novembro de 1830. A via foi posteriormente renomeada Rua Gonçalves Dias. A causa da morte não foi informada. Recebeu os sacramentos, foi vestido com o hábito da Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula e levado à igreja da ordem para o sepultamento. Helena permaneceu no Rio de Janeiro e viveu na Rua da Alfândega até morrer em 1845.

Música

Cunha escreveu música sacra para a missa, a Semana Santa e celebrações marianas. Entre suas obras conhecidas estão os responsórios da Semana Santa, a Novena de Nossa Senhora da Boa Morte, a Missa Grande a quatro vozes, a Missa e Credo a Cinco Vozes e um Pange lingua que também pode ser de sua autoria.

Sua música continuou a ser utilizada em São João del-Rei por meio de partituras manuscritas e partes de execução transmitidas de um músico a outro. Algumas estão na caligrafia do próprio Cunha. Outras foram copiadas anos ou décadas depois de sua morte. A maior parte é conservada pela Orquestra Ribeiro Bastos e pela Orquestra Lira Sanjoanense, enquanto outro manuscrito pertence ao Cabido Metropolitano do Rio de Janeiro.

Manuscritos e transmissão

miniaturadaimagem|Detalhe da capa de uma missa manuscrita atribuída a Cunha

Os responsórios da Semana Santa oferecem os exemplos mais claros da caligrafia de Cunha. A Orquestra Ribeiro Bastos conserva partituras autógrafas dos três ofícios, juntamente com partes copiadas por Francisco José das Chagas, Martiniano Ribeiro Bastos e outros músicos. Partes de baixo do mesmo ciclo são mantidas pela Orquestra Lira Sanjoanense.

A Novena de Nossa Senhora da Boa Morte é preservada em partes copiadas por Francisco de Paula Miranda e Hermenegildo José de Souza Trindade. Um conjunto, datado de 1839, contém o hino Assumptionem Virginis Mariae e a antífona Maria Mater gratiae. Outro conjunto pode conter escrita de Cunha, embora isso não possa ser confirmado.

Nenhum manuscrito da Missa Grande na caligrafia de Cunha foi localizado. O material conservado pela Orquestra Ribeiro Bastos foi copiado por Francisco José das Chagas, Martiniano Ribeiro Bastos e músicos não identificados.

A Missa e Credo a Cinco Vozes chegou ao Rio de Janeiro e a São João del-Rei em formas diferentes. A partitura conservada pelo Cabido Metropolitano traz a assinatura de Cunha e a dedicatória a Pedro I, mas a música propriamente dita foi copiada por outra pessoa. Trata-se de uma partitura de apresentação assinada, não de um manuscrito inteiramente escrito por Cunha. As partes utilizadas em São João del-Rei foram copiadas por Presciliano José da Silva, Francisco de Paula Miranda, José Maria Xavier, Desidério Antônio de Jesus Silva, Francisco José das Chagas e Martiniano Ribeiro Bastos. Uma cópia do Credo traz as datas de 1841 e 1885.

O Pange lingua é conhecido por uma única cópia feita por Francisco José das Chagas em 1837. O manuscrito atribui a obra a Cunha, mas não foi encontrada outra cópia nem qualquer fonte em sua caligrafia, de modo que a autoria permanece incerta.