miniaturadaimagem|O Autoconceito insere-se como uma disciplina da psicologia, assim como da sociologia, neurologia comportamental e neuropsiquiatria O Autoconceito é o conjunto de percepções e ideias que uma pessoa tem de si própria, abrangendo seus pensamentos, características e sentimentos sobre a própria pessoa. O autoconceito é uma ideia abrangente que temos sobre quem somos - física, emocional, social, espiritual e em termos de quaisquer outros aspectos que constituem quem somos. Formamos e regulamos o nosso autoconceito à medida que crescemos, é um constructo psicológico bastante dinâmico e influenciável, com base no conhecimento que temos sobre nós próprios. É multidimensional e pode ser dividido em aspectos individuais.
Por exemplo, podemos ter uma ideia muito diferente de quem somos em termos do nosso corpo físico e de quem somos em termos do nosso espírito ou desempenho académico.
O influente investigador do Autoconceito Roy Baumeister define o autoconceito da seguinte forma: "A crença do indivíduo sobre si próprio, incluindo os atributos da pessoa e quem e o que o Eu é." Uma definição semelhante vem do livro de Rosenberg sobre o tema; ele diz que o autoconceito é: "...a totalidade dos pensamentos e sentimentos de um indivíduo em relação a si próprio como objecto".
O autoconceito está relacionado com vários outros constructos do "Eu", como a autoestima, a autoimagem, a autoeficácia e a autoconsciência.
O facto de haver uma série de dificuldades associadas à tentativa de definir um conceito já foi reconhecido pelo grupo de trabalho em torno de Richard Shavelson, quando observaram que "a investigação sobre o autoconceito tem-se debruçado sobre problemas substantivos antes de os problemas de definição, medição e interpretação terem sido resolvidos".
A definição do constructo psicológico do autoconceito é complicada por várias circunstâncias: em primeiro lugar, não existe uma definição clara e universalmente aceite do constructo. Não existe consenso sobre o significado de conceitos que são idênticos em termos de redacção, nem existe homogeneidade nos termos utilizados. Shavelson |numero-autores=et all. apresentaram 17 dimensões conceptuais diferentes nas quais as definições de autoconceito podem ser classificadas, e Hansford e Hattie identificaram 15 termos diferentes de autoconceito na sua meta-análise de 128 estudos sobre a relação entre o autoconceito e a realização.
Assim, para além do termo autoconceito, existem outros termos na literatura que são normalmente utilizados como sinónimos. O termo autoestima é geralmente, mas nem sempre, distinguido semanticamente, mas há também uma variedade de outros termos para ele, tais como autoaceitação, ou autoconfiança. Dependendo do autor, estes termos são, por sua vez, definidos de forma diferente - o que não ajuda a simplificar a comparabilidade de diferentes resultados de investigação. E isto, inicialmente, apenas diz respeito ao autoconceito geral; se olharmos mais de perto para as áreas individuais do autoconceito, também nos deparamos com várias designações, que são também o resultado de diferentes traduções do inglês. Assim, o autoconceito académico é designado por autoconceito académico, autoconceito escolar ou autoconceito de capacidade. miniaturadaimagem|A Educacao tem um papel essencial no Autoconceito Académico, assim como no Autoconceito como um todo. Uma das razões para a variedade de termos e das teorias e modelos que lhes estão subjacentes é, entre outras coisas, o facto de o autoconceito interessar a muitas subdisciplinas diferentes com diferentes teorias ou paradigmas de investigação (por exemplo, psicologia do desenvolvimento, psicologia educacional, psicologia diferencial, psicologia social, ciências da educação).
Para além disso, o autoconceito, tal como muitos outros constructos psicológicos, também é utilizado na linguagem comum, pelo que existem ideias ingénuas do que se quer dizer com ele. Além disso, muitos investigadores não se dão ao trabalho de começar por definir claramente e fundamentar teoricamente a área temática e os constructos dos seus estudos.
Evolução da noção de autoconceito esquerda|miniaturadaimagem|O estudo de "Si" mesmo e do "Eu" começou com Sócrates e Platao. Os seres humanos sempre manifestaram vasto interesse na interpretação de si próprios. O conceito de Si é, e sempre foi, uma linha de atenção primordial para filósofos (Sócrates, Platão, Aristóteles e Kant), religiosos (Santo Agostinho e São Tomás de Aquino), pensadores, políticos e, mais recentemente na história do pensamento, para os psicólogos (John Locke, David Hume e John Stuart Mill). Alguns consideram que o interesse pelo Eu é a necessidade humana básica. Por exemplo, Fromm (citado por Hattie, 1992) interpretava o Eu como a “inner nature or essential nature of men”, e Harrè (citado por Hattie, 1992) considerava a autoestima como o motivo humano mais profundo.
Com algumas diferenças, estes filósofos e cristãos igualaram o self ao “si mesmo” e ao “espírito”.
Para Sócrates, o “espírito era o verdadeiro Eu”, a unidade espiritual da pessoa, detentor da sabedoria “pura”, adulterada pelo “eu físico”, conhecimento que passou ao seu discípulo Platão, que o viria a dicotomizar como o Eu de princípio racional – o qual seria o intelecto ou a razão – e o Eu de princípio irracional. Daí o objetivo humano de “conhecer-se a si mesmo”, pelo qual Sócrates se tornou tão conhecido e que revelava, em Platão, uma relação entre o Eu e a cognição.
Subsequentemente, Aristóteles rejeitou as ideias de Platão, afirmando o primado da memória, em detrimento do “espírito”, uma vez que a memória se relacionava com a “essência” do ser.
Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, filósofos cristãos, por seu lado, tentavam perceber a relação existente entre o Eu de Deus e o Eu do homem, como relação do espírito com o corpo, ideia apoiada por Buda, ao dar primazia ao “domínio da mente sobre a matéria”.
O conceito de self surge mais tarde, com as correntes do pensamento filosófico e psicológico do século xvii, com Descartes, ao reforçar o dualismo “alma e corpo” como dois seres independentes, dos quais o corpo seria considerado um invólucro para o pensamento, este considerado como o verdadeiro Eu. “Penso, logo existo”.
Com Descartes e a conceptualização do self, este passa a ser sujeito a inúmeras reflexões por parte de pensadores como Locke, Hume, Kant e Mill:
Para Locke (1632-1704), a consciência é a essência do Eu, indissociável do pensamento, sendo a pessoa reconhecida como um ser pensante e inteligente, detentor de razão e reflexão; Para Hume (1711-1776), o self não tem lugar na filosofia, não sendo considerado uma pessoa, mas sim feixes de percepções e experiências em constante movimento – “sou um feixe de experiências” e os selves são séries de experiências eternas; Kant (1724-1804), contrariando Descartes, dizia: “ousa pensar”, ao considerar o Eu como uma unidade de autoconsciência, não um conceito dividido, mas como dois pontos de vista sobre uma mesma ideia, em que o único self, no qual conhecemos alguma coisa, é o empírico e não o puro; Mill (1808-1893) introduziu o papel da memória, afirmando que esta e o Eu são dois lados de uma mesma moeda, ou seja, duas formas diferentes de perceber um mesmo facto ou ideia.
A ideia do self só viria a ser desenvolvida no final do século xix, princípio do século XX, através da obra de William James, que trabalha os princípios da psicologia moderna, bem como o desenvolvimento da teoria do autoconceito.Valente, M. I. P. (2002) Autoconceito em estudantes de enfermagem, sua relação com a vinculação e algumas variáveis socioacadémicas. Pensar enfermagem, 6(1), 55-64. “Observou que a forma como uma pessoa se sente a respeito de si própria depende inteiramente daquilo que aceita ser e fazer” (citado de Bruges).Bruges, M. L. B. M. P. (2006). Mastectomia e autoconceito. Lusociência.
James salienta-se pela distinção que faz entre o mim e o Eu ou I-self e o Me-self, afirmando que “en même temps que je pense, j’ai plus ou moins conscience de ‘moi’, de mon ‘existence personelle’, ou seja, é o Eu que tem consciência do mim, no sentido de uma personalidade total dicotómica em que é simultaneamente sujeito conhecedor e objeto conhecido (James, 1932, citado por Bruges, 2006). O Eu é, assim, o sujeito puro do ego e o mim a personalidade empírica.
Para James, o self – Eu – é definido como a soma de tudo o que a pessoa pode chamar de seu. Não apenas corpo e mente, mas as roupas, a casa, a esposa, os filhos, os antepassados, os amigos, a reputação, o trabalho, as terras, entre outras coisas. Desta forma, o autor considera que se deve observar este conceito através dos seus constituintes, dos sentimentos que estes despertam – self-feelings – e das ações que originam – autopreservação.
No que concerne às noções de self e ego, é primeiramente necessário distingui-las entre si. Ao Ego cabem funções percetivas e ao self funções ativas. Desta forma, o autoconceito engloba o Eu como agente ativo e o mim como algo conhecido.
Nesta linha de pensamento, James considera o mim segundo três perspetivas: os elementos integrantes do mim, os sentimentos e as emoções que desencadeiam, ou seja, a consciência do valor do mim, e as reações que provocam, ou seja, a procura e a defesa do mim. Paralelamente, divide em três os elementos integrantes do mim: o mim material, o mim social e o mim espiritual;
O self é a totalidade física, social, espiritual e o Ego puro do indivíduo. O autor separa o self empírico — mim — do ego — Eu. Assim, o self empírico engloba o corpo, as roupas e a família com a qual o indivíduo está ligado por laços de sangue — mim material —, as suas relações sociais e as representações mentais que os seus pares têm da pessoa – mim social – e o resultado da sua consciência e das suas faculdades psíquicas – mim espiritual.
O ego — Eu —, por seu lado, é encarado como o sentido de identidade pessoal e como o princípio interno da unidade pessoal. É, assim, o elemento de continuidade e forma da identidade do indivíduo. É o traço da sua personalidade – puro Ego.
Indo um pouco mais longe no seu pensamento, JamesBruges, M. L. B. M. PMaria Lisete Borges de Meneses parreira de. (2006). Mastectomia e autoconceito. Loures: Luso ciência.; analisou os sentimentos e as emoções subjacentes à ideia de mim, isto é, a consciência do valor do mim, tendo-a dividido em duas formas principais: a satisfação e o descontentamento de si.
Estas formas de consciência afetiva do nosso valor podem ser designadas por outros conceitos, tais como, por um lado, orgulho, presunção, vaidade, amor-próprio, arrogância e vanglória; por outro, modéstia, humildade, contrição, sentimento de desonra e desespero.
“A soma dos prazeres proporciona o sentimento de satisfação de si e a soma dos pesares com um sentimento oposto, isto é, de ‘desonra’. Quando estamos satisfeitos connosco, amamo-nos. Os sentimentos não são determinados, são normalmente provocados pelos sucessos e insucessos, pela boa ou má posição no mundo”.
Quando o indivíduo está satisfeito consigo próprio, esperará o sucesso e a recompensa, não sendo a mera expectativa de recompensa encarada como autossatisfação. Da mesma forma, a pessoa que apresenta autodesespero antecipa o mal, mas a mera apreensão pelo mal não significa autodesespero. Deve ter-se aqui em atenção a possibilidade de se assumir que as estruturas mentais (autocomplacência ou autodisplicência) afetarão o comportamento (expectativa de sucesso ou insucesso), mas não se pode inferir que determinado comportamento seja a manifestação de elevado ou baixo autoconceito. Contudo, pode dizer-se que a manifestação do amor-próprio que o indivíduo terá é o seu sucesso ou fracasso.