O role-playing game também conhecido como RPG (em português: "jogo narrativo", "jogo de interpretação de papéis" ou "jogo de representação"), chegou ao Brasil na década de 1980 de forma não oficial, por meio da chamada “Geração Xerox”, com livros importados e traduzidos informalmente pelos próprios jogadores. A partir dos anos 1990, começaram a surgir publicações licenciadas e títulos brasileiros, marcando o início de uma era de popularização entre os anos 1990 e 2000. O hobby se desenvolveu com o apoio de revistas especializadas, encontros de jogadores, editoras independentes e a criação de material original em português. Jogos como Dungeons & Dragons, Vampiro: A Máscara e o brasileiro 3D&T ajudaram a consolidar uma base de fãs ativa e criativa. Com o tempo, o RPG no Brasil passou a incluir formatos impressos, digitais, eventos de live-action e produções online. Embora ainda nichado, o cenário é pujante, especialmente com o fortalecimento do financiamento coletivo como modelo de publicação e fomento à produção independente.
Atualmente, o RPG é reconhecido e incentivado pelo Ministério da Educação (MEC) como um método pedagógico eficaz, capaz de desenvolver cooperação, raciocínio lógico, criatividade e habilidades socioemocionais em estudantes.. Sua aplicação em sala de aula é tema de teses acadêmicas, simpósios e projetos educacionais, consolidando-o como uma ferramenta valiosa para o aprendizado.
Contudo, essa aceitação contrasta com um passado marcado por preconceito e desinformação. Assim como nos EUA, onde Dungeons & Dragons foi alvo do pânico satânico nos anos 1980, o Brasil também viveu uma onda de histeria contra os RPGs. O ápice desse movimento foi o Caso de Ouro Preto (2001), quando um crime real foi erroneamente associado ao jogo Vampiro: A Máscara. O episódio desencadeou uma série de reações extremas, incluindo queimas públicas de livros, reportagens sensacionalistas e até propostas de lei que buscavam censurar ou proibir os RPGs. O legado desse período foi a inclusão dos RPGs no Sistema de Classificação Indicativa Brasileiro, uma medida única, já que, diferentemente de filmes ou games, os RPGs são jogos narrativos, não obras audiovisuais.
História Década de 1980 No início dos anos 80, os RPGs ainda não tinham sido lançados oficialmente no Brasil, os jogadores que cresciam em número tinham que esperar que um amigo ou parente fosse para fora do país para poder conseguir títulos ainda distantes das prateleiras. Nesse turbilhão de dificuldades para conseguir um livro de RPG nasceu uma geração que alguns chamam de Geração Xerox, devido à forma como obtinha e/ou compartilhava os títulos importados. Em 1986, a Rede Globo estreia a animação Caverna do Dragão (Dungeons and Dragons no original, adaptação do RPG de mesmo nome."Caverna do Dragão - A aventura favorita dos RPGistas completa 20 anos de exibição no Brasil". Dragon Slayer (9). Editora Escala. No entanto, o jogo de RPG nunca chegou a ser publicado oficialmente por editoras brasileiras naquela época.
Nos final dos anos 80 era possível achar ou encomendar livros de RPG através de grandes livrarias em São Paulo e no Rio de Janeiro, porém havia alguns obstáculos a serem transpostos. Os livros, por serem importados, não eram baratos. Além disso era necessário saber um pouco de inglês para poder jogar. Os RPGs desta época mais jogados eram o Dungeons & Dragons, Middle-Earth Role Playing (ou Merp) e Rolemaster. Em 1987, surge a Devir Livraria, uma gibiteria importadora de quadrinhos e RPG.
Em 1989, uma versão portuguesa de Dungeon and Dragons, publicada pela Sociedade Tipográfica S.A. Jogos de ficção científica, como Traveller e Spacemaster também estavam no mercado.
Isto perdurou até o lançamento da série de livros-jogos Aventuras Fantásticas (Fighting Fantasy) pela Marques Saraiva em 1989.Marcelo Cassaro. (1994). "Aventuras Fantásticas" (em português). Dragão Brasil (4). São Paulo, Brasil: Trama. Esses livros permitiam ao leitor interagir diretamente com a história, fazendo escolhas e utilizando regras simples inspiradas em mecânicas de RPG, característica própria dos livros-jogos britânicos.
Década de 1990 Em 1991 é lançado o Tagmar, o 1º RPG brasileiro, editado pela GSA. Com uma ambientação inspirada nos livros de J.R.R Tolkien, foi acusado injustamente de ser baseado no D&D, mas na verdade tinha um sistema bem diferente, com ambientação inspirada em O Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien. O jogo chegou a fazer sucesso, mas a editora fechou em 1997.Gustavo Brauner. (Novembro de 2011). "Tagmar - 20 anos do primeiro RPG brasileiro" (em português). Dragon Slayer (35). São Paulo, Brasil: Editora Escala. ISSN 1808-1584. Ainda em 1991, é lançado o GURPS pela Devir Livraria. Em 1992, a dupla Tarquínio Teles e Maurício Amaral publica um prótótipo de um jogo de espionagem nas páginas de Superjogos, um spin-off da revista SuperInteressante da Editora Abril, dois anos depois, o jogo seria lançado com o nome Demos Corporation. A GSA lança O Desafio dos Bandeirantes de Carlos Klimick, Luiz Eduardo Ricon e Flávio Andrade, a Grow lança Classic Dungeon e DragonQuest, jogos de tabuleiro com elementos de RPG da TSR, Inc (mesma empresa de Dungeons & Dragons),Roberto de Moraes. (1994). "Dungeons & Dragons" (em português). Dragão Brasil (1). São Paulo, Brasil: Trama Editorial. em 1993, lança a primeira versão de Dungeons & Dragons no país.Visão , Edições 20-23. [S.l.: s.n.], 1993. A empresa também publicou um jogo de tabuleiro baseado em Caverna do Dragão, À Procura do Dungeonmaster (Quest for the Dungeonmaster) publicando originalmente pela TSR Inc em 1984, curiosamente, foi usado o nome original do Mestre dos Magos (Dungeon Master). Também em 1993, a Devir organiza o primeiro Encontro Internacional de RPG.I Encontro Internacional de RPG Devir Livraria
Em 1994, a Estrela lança HeroQuest, outro jogo de tabuleiro com elementos de RPG,Roberto de Moraes. (1994). "Especial HeroQuest" (em português). Dragão Brasil (3). São Paulo, Brasil: Trama Editorial. e no Rio de Janeiro surge a editora Nova Vecchi de Arthur Vecchi (filho de Lotário Vecchi da extinta editora Vecchi) com o RPG nacional de humor Monstros, além da revista Black Lotus dirigida a cardgame e RPG, esta última editada por Alexandre Cabral, responsável pela reformulação de quadrinhos do jornal O Globo. Enquanto isto, em São Paulo, a Editora Trama lança a revista Dragon, depois renomeada para Dragão Brasil, editada por Marcelo Cassaro e no mesmo ano a IDD lançou a revista Dragão Dourado, um misto de revista em quadrinhos e RPG. Jogos de Interpretação e Educação A revista Dragão Brasil fazia adaptações para a diversos sistemas sem ter uma licença. A aproveitando que os RPGs chegaram oficialmente no país, a Marques Saraiva publica as adaptações para RPG da série Aventuras Fantástica. A Devir publica Mulheres Machonas Armadas até os Dentes.
Em 1995, a Editora Abril Jovem conseguiu uma licença para publicar o AD&D no Brasil, mas como o RPG era um jogo considerado demasiado "cult", a editora decidiu lançar primeiro a versão simplificada das regras do AD&D 2ª Edição, o First Quest. A editora também publicaria o jogo de cartas colecionáveis Spellfire, a revista Dragon. e os livros-jogos "Você é o herói" (Endless Quest no original).Grahal. (1995). "Especial - Advanced Dungeons and Dragons" (em português). Dragão Brasil (8). São Paulo, Brasil: Trama Editorial. O editor responsável foi Rogério Saladino, embora estivesse na Trama, Cassaro conhecia Saladino e colaborou com a Dragon, após o cancelamento das publicações na Abril, Saladino migra para a Dragão Brasil. Surge o Encontro de RPG de Viçosa, realizado na Universidade Federal de Viçosa. A GSA publica Millenia, RPG de ficção científica e space opera criado por Paulo Vicente Alves e Ygor Morais Silva.
Ainda em 1995, é lançado pela Talismã a primeira edição de Arkanun, um RPG criado por Marcelo Del Debbio, colaborador da revista Dragão Brasil, e logo em seguida a editora publicaria Trevas, do mesmo autor, um RPG lançado na forma de revista. Em outubro de 1995, é lançada nas páginas da revista Dragão Brasil Especial nº 1, a primeira versão de Defensores de Tóquio de Marcelo Cassaro, um sistema simples que satirizava produções japonesas: animes, tokusatsus e vídeo games,Conforme anunciado na página nº 5 da Dragão Brasil nº 07 (publicada em outubro de 1995) e do editorial da Dragão Brasil Especial nº 07, que afirma que a publicação foi em 1995. Defensores de Tóquio foi planejado para ser um suplemento para Toon - No Mundo Dos Desenhos da Steve Jackson Games, que foi lançado pela Devir no ano seguinte, contudo, as negociações não foram bem-sucedidas.J.D Nunes (Novembro de 2000). "Defensores de Tóquio". Dragão Brasil nº 67. Editora Trama
Uma outra grande editora entra no mercado, a Ediouro, que lança Shadowrun, um misto de fantasia e cyberpunk e Middle-Earth Role Playing publicado como nome de "Senhor dos Anéis - Jogos de Aventura", quatro volumes da série de livro-jogos "Aventuras na Terra-Média", versão de Middle-Earth Quest(2001). "Arca do Tesouro". Dragão Brasil (80). Editora Trama e a revista especializada The Universe of RPG, assim como a Abril, a Ediouro não dá continuidade na linha, em 1996, Shadowrun é republicado pela Devir, que também publica os suplementos e romances,Shadowrun Devir além de outros RPGs cyberpunk como Cyberpunk 2020 e GURPS Cyberpunk.
Em 1997, é lançada as linhas de livros-jogos educativos "Jogos de RPG - Português em Outras Palavras" e "Coleção RPG", escritos por Rosana Rios e aria Silvia Gonçalvesp e publicados pela Editora Scipione. Eles surgiram principalmente como uma resposta a acusações de que o RPG teria um efeito negativo nos seus jogadores, podendo até levar a crimes (as ligações entre o RPG e esses crimes foram posteriormente desmentidas.) A editora Akritó lança um outro RPG brasileiro, Era do Caos de Carlos Klimick e Flávio Andrade. A Editora Escala publica a revista Saga, que dura apenas três edições.
Publicado na Dragão Brasil Especial nº 7, de outubro de 1998, surge a terceira versão de Defensores de Tóquio, conhecida como 3D&T, que passou a ser o nome oficial do sistema, que deixa de ser restrito a paródias de produções orientais e passa a ser um sistema genérico, essa foi uma mudança foi estratégica: sem depender de licenças estrangeiras ou disputas editoriais, o 3D&T se tornou uma alternativa 100% brasileira. Nesse mesmo, ano, consegue a licença do Street Fighter: The Storytelling Game da White Wolf, publicado com o nome de Street Fighter: O Jogo de RPG,Marcelo Cassaro (Março de 2008). Revista Dragon Slayer nº 19 - Street Fighter RPG, Editora Escala autorização pra usar os jogos Street Fighter Zero 3, Final Fight, Mortal Kombat, Darkstalkers e Megaman, como cenários para o sistema 3D&T. A publicação de Street Fighter da White Wolf, causou um impasse com a Devir , então detentora dos direitos da editora americana no Brasi, já que a Trama lançou o título sem intermediação. Como as ilustrações pertenciam à White Wolf, foram substituídas por artes oficiais da Capcom e por desenhos de Érica Awano e Lydia Megumi Oide. Ao final, a Trama teve de pagar os royalties diretamente à White Wolf, e não à Capcom. A Devir lança Castelo Falkenstein.