Caritate Christi compulsi, em português, Movidos pela Caridade de Cristo, é a 22ª encíclica do Papa Pio XI, datada de 3 de maio de 1933. Nela, após examinar a crise econômica e social pela qual passa a humanidade naquele momento, e os erros morais que dela advêm, o papa pede orações ao Sagrado Coração de Jesus pela resolução dessas questões.
Contexto da encíclica A Grande Depressão que afetou a economia global após o colapso da Bolsa de Valores dos Estados Unidos em outubro de 1929 se estendeu por toda a década de 1930, trazendo consequências para a política da maioria dos países europeus. Essas circunstâncias, como aponta a encíclica, serviram como terreno fértil para a exacerbação dos conflitos sociais, para a propaganda comunista e para o surgimento dos totalitarismos nacionalistas.Barry Eichengreen, Hall of Mirrors: The Great Depression, the Great Recession, and the Uses—and Misuses—of History. Oxford University Press, 2015.John A. Garraty, The Great Depression: An Inquiry into the Causes, Course, and Consequences of the Worldwide Depression of the Nineteen-Thirties, as Seen by Contemporaries and in the Light of History. Harcourt Brace Jovanovich, 1986.
Pio XI já havia mencionado essa crise econômica na encíclica Nova Impendet (2 de outubro de 1931) e, meses antes, recordara os ensinamentos da Rerum Novarum, de Leão XIII, onde foi indicado o caminho para a restauração da ordem social. Além disso, Pio XI ressaltou os perigos do fascismo italiano na encíclica Non Abbiamo Bisogno (29 de junho de 1931).Papa Pio XI, Non Abbiamo Bisogno, 29 de junho de 1931. Anos depois, ele condenaria a política antirreligiosa do nazismo (Mit Brennender Sorge, 14 de março de 1937) e do comunismo (Divini Redemptoris, 19 de março de 1937).Papa Pio XI, Mit Brennender Sorge, 14 de março de 1937.Papa Pio XI, Divini Redemptoris, 19 de março de 1937.
A encíclica Caritate Christi Compulsi identifica os erros morais que, segundo a perspectiva cristã, fundamentam essas teorias políticas.
Conteúdo O papa inicia a encíclica recordando o apelo que fizera alguns meses antes a todos os homens de boa vontade para enfrentar a crise econômica e humanitária:
A resposta foi generosa, mas a gravidade da situação leva o Papa a reiterar esse pedido e a expor as causas e os verdadeiros remédios para essa situação. Ao observar o lamentável estado das coisas e a extensão do desemprego, que leva tantas famílias à miséria, o Papa declara que "a ambição é a raiz de todos os males", origem da desordem e do desequilíbrio injusto das riquezas, que ele já denunciara na Quadragesimo anno. A essa situação se une o egoísmo entre as nações, que perverte o patriotismo saudável em um nacionalismo exacerbado.
Prosseguem assim com uma propaganda que visa arrancar de todos os corações qualquer sentimento religioso, pois sabem que, uma vez que Deus é removido do coração dos homens, poderão fazer o que quiserem. O Papa observa que, embora sempre tenham existido ateus, agora eles abundam e não se escondem, mas publicamente e de forma organizada tentam propagar seus erros, utilizando todos os meios possíveis, como a imprensa, o cinema e o rádio. Além disso, tentam acusar Deus e a religião como os causadores dos males que, na verdade, têm origem precisamente no esquecimento de Deus.
Diante dessa situação, a encíclica chama à esperança baseada na infinita bondade de Deus, que dará resposta à vida de tantos cristãos que se esforçam por viver fielmente sua fé. O Papa incentiva os leigos a participarem da Ação Católica e, por meio dela, a propagar os princípios cristãos e sua aplicação prática na vida pública. Ele destaca a necessidade de superar os interesses particulares e unir-se em defesa da fé. Nesse sentido, ele relembra sua encíclica Quadragesimo anno, onde, seguindo as linhas traçadas por Leão XIII na Rerum novarum, indicava a necessidade de meios para alcançar uma distribuição mais equitativa dos bens da Terra.
Mas não basta adotar esses meios; é necessário recorrer à oração, lembrando que o Senhor nos prometeu: "Em verdade, em verdade vos digo que tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, ele vos concederá". E o Papa acrescenta:
Examinada a crise econômica e social que a humanidade atravessa, e as causas dessa situação, o Papa pede a todos os fiéis uma oração unânime para serem removidos os males morais que estão na origem dessa situação, associando essa oração à penitência, tal como o Senhor ensinou: "Jesus começou a pregar e a dizer: fazei penitência", conforme a história da Igreja também nos ensina.
Essa oração e penitência também trarão paz aos corações. O Papa pede que, aproveitando a próxima festa do Sagrado Coração de Jesus, os fiéis participem da Eucaristia, pedindo ao Coração Misericordioso de Jesus, pela intercessão de Maria Santíssima, todas as graças para si, para suas famílias, para a pátria e para a Igreja. Que rezem também pelo Papa e por todos os pastores.
O Papa conclui manifestando sua confiança de que o Coração de Jesus ouvirá essas súplicas e atenderá à sua Igreja; uma confiança confirmada pela Santa Cruz, cuja descoberta é celebrada no dia em que a encíclica foi datada.
Ver também
Papa Pio XI Encíclica Sagrado Coração de Jesus Portal:Catolicismo.
Referências
Categoria:Grande Depressão Categoria:Documentos do papa Pio XI Categoria:Encíclicas Categoria:Obras de 1933