ou "Casa do Crescimento", em tradução literal, é uma nova religião de origem japonesa (Shinshūkyō) fundada em 1930 e que se faz presente em muitos países do mundo. A instituição religiosa se caracteriza pela crença na reencarnação, não-sectarismo, lei da atração, pelo estímulo ao aperfeiçoamento e pelo cuidado ambiental. Acreditam no Jissô que pode ser traduzido como "Imagem Verdadeira". A partir de dados apresentados em 31 de dezembro de 2021, a instituição religiosa alega que possui supostamente cerca de 1.040.503 membros em todo o mundo, sendo cerca de 348.119 aqueles que vivem no Japão e 692.384 fora deste país.
História A nova religião japonesa foi fundada em 1 de março de 1930 (5º ano da Era Showa) por Masaharu Taniguchi (谷口 雅春) (Kobe, 22 de Novembro de 1893 – Nagasaki, 17 de Junho de 1985), um proeminente escritor japonês simpático ao Novo Pensamento Americano. Desde o ano de 1929, Taniguchi alegou receber revelações feitas pela deidade xintoísta Suminoe-no-Ôkami, também conhecido por Shiotsuchi-no-Kami, Sumiyoshi, Seicho-no-Ie Ôkami ou simplesmente Deus. A religião se apresentava como a essência de todas as religiões e prometia a cura dos males psicológicos e físicos através do pensamento otimista e da crença no Jissô (Imagem Verdadeira, em português), a verdadeira realidade do Universo e dos sujeitos. Seu principal veículo de divulgação era um periódico com o mesmo nome da instituição.
Antes de fundar a nova religião, Masaharu Taniguchi foi membro e escritor da Oomoto (Grande Fonte ou Grande Origem em português), uma nova religião japonesa surgida no século XIX e, por um breve período de tempo, da Ittoen, conforme argumenta Birgit Staemler. Diferente de outros fundadores de novos movimentos religiosos no Japão, Taniguchi tinha formação intelectual privilegiada e contato com a cultura ocidental, chegando, inclusive, a iniciar um curso superior na Universidade de Waseda. O curso não foi concluído pela falta de suporte familiar de sua tia adotiva.
Taniguchi também se interessava pela psicologia e por outras formas de conhecimento heterodoxos e pseudo-científicos que discutiam o lugar da mente na vida dos indivíduos, como é possível verificar em inúmeras publicações que se dedicam ao lugar da mente na vida e no destino dos sujeitos. Além disso, Taniguchi foi profundamente influenciado pelo Novo Pensamento Americano a partir da obra Law of Mind in Action, de Fenwick Holmes. Segundo Jonh S. Haller Jr, a Seicho-no-Ie é provavelmente a maior denominação vinculada no Novo Pensamento Americano em todo o mundo.
Em 1932, o fundador deu início a sua principal obra doutrinária, a coleção de 40 volumes intitulada Seimei no Jissō (生命の實相, A Verdade da Vida, em português). No ano de 1941, a instituição foi reconhecida como uma religião pelo governo Imperial. É importante lembrar que naquele contexto inexistia liberdade religiosa no Japão em virtude da natureza teocrática do Xintoísmo de Estado que regulava o campo religioso.
Segundo H.N. McFarland, Takashi Meayama e Leila Bastos Albuquerque, a Seicho-no-Ie estava alinhada à ideologia nacionalista conhecida por Kokutai (Comunidade nacional, em tradução livre), que vigorou no Japão até a derrota em 1945, o que garantiu à instituição um destino melhor do que aquele enfrentado por outros grupos que contrariaram o poder. O fundador esposou a ideia da origem divina do Japão e do Crisântemo, o que naquela época legitimava o imperialismo nipônico. Segundo pronunciamento da Seicho-no-Ie, depois da derrota em 1945 Taniguchi experimentou novas revelações divinas que apontaram seus equívocos na interpretação do Kojiki (Crônica das Coisas Antigas, em português), obra mitológica japonesa que orientava o xintoísmo estatal.
Taniguchi enfrentou alguns problemas para reestruturar seu grupo religioso no país sob a nova constituição, o que certamente aconteceu em virtude de seu engajamento ideológico durante a guerra no Pacífico, responsável por macular a imagem do movimento religioso. A regularidade das atividades religiosas foi retomada em 1949. A despeito do fim do Xintoísmo de Estado, Taniguchi cultivou traços da ideologia nacionalista, o que estimulou o ingresso de seus seguidores na esfera política através do Yuseihogoho kaihai kisei domei (Liga para a abolição da lei de proteção à eugenia), criado em 1967. Em 1969, esse grupo passou a se chamar Seicho-no-ie seiji-rengo-kokkai-gi'in-renmei (A união política da Seicho-no-Ie e membros da Dieta), cuja sigla era Seiseiren. Além de combater o aborto, defendiam o ideal da família tradicional japonesa a partir do arquétipo imperial. Masaharu Taniguchi criticava a nova constituição japonesa (1947) e por isso evocava a necessidade do reavivamento do culto ao Imperador e a importância dos valores patrióticos. Algumas dessas ideias foram publicadas em língua portuguesa nos primeiros números do periódico Acendedor, publicado pela filial brasileira da Seicho-no-Ie durante a segunda metade da década de 1960, contexto da ditadura civil-militar. A participação política da instituição religiosa cessou em 1983. Contudo, os conteúdos nacionalistas antigos ofertam em nossos dias parte do suporte ideológico do grupo conhecido Nippon Kaigi (Conferência do Japão), cujo anelo é a restauração das tradições japonesas anteriores à derrota de 1945. Na atualidade, a Seicho-no-Ie preserva mais elementos patrióticos que outras novas religiões japonesas, entre eles o hino nacional.
O movimento passou a existir oficialmente fora do Japão no início da década de 1960. Entretanto, focos religiosos já existiam nas décadas anteriores por vontade dos imigrantes japoneses que buscam na nova religião um meio de exercer sua identidade étnica nos países receptores. A visita de Masaharu Taniguchi ao Canadá, EUA e, em especial ao Brasil, país onde Taniguchi passou três meses em 1963, foi o marco da internacionalização da religião. Hoje, a maior parte dos adeptos do novo movimento religioso japonês vivem no Brasil e por volta de 95% deles, pelo menos no Brasil, não têm descendência nipônica.
Os líderes que sucederam Masaharu Taniguchi, Seicho e Masanobu Taniguchi, respectivamente genro e neto do fundador, ampliaram o esforço de acomodação da religião às demandas planetárias contemporâneas. Assim como o fundador, seus sucessores realizaram viagens pelo mundo e principalmente para o Brasil. Atualmente, o Supremo Presidente Masanobu Taniguchi compatibiliza os conteúdos ético-religiosos da Seicho-no-Ie ao combate do fundamentalismo, à promoção dos direitos humanos e, principalmente, à defesa do meio ambiente. A "virada ecológica" garantiu à instituição o selo ISO 14001 geralmente atribuído a empresas que promovem a sustentabilidade assim como inspirou a publicação em 2012 do livreto Daishizen Sanka, publicado no Brasil em 2014 com o título Canto em Louvor à Natureza. Ainda em 2014, a obra foi publicada em língua inglesa com o título Song in Praise of Nature.
Cisões O grupo religioso experimentou cisões nos últimos anos em virtude de esforços da instituição em acomodar seus conteúdos à cultura contemporânea. As cisões também estão relacionadas a inclusão de temas mais amplos, sociais e ambientais, pelo atual presidente mundial da Seicho-no-Ie. O atual presidente é acusado pelos dissidentes de tentar ocupar o lugar espiritual de seu avô e fundador da instituição religiosa. O propósito dos grupos que romperam com a instituição religiosa é o retorno às origens do movimento, com ênfase na dimensão patriótica da espiritualidade de Taniguchi.
A instituição Taniguchi Masaharu Sensei o Manabu Kai (Associação Para o Estudo Sobre o Mestre Masaharu Taniguchi) representa o esforço em preservar a integridade do ensinamento original revelado por Masaharu Taniguchi. Além do uso de palavras em língua japonesa, preservando a força da vibração espiritual original, segundo acreditam, os adeptos da cisão religiosa mantém intacta a revelação a respeito do Trono Japonês (Jissô do Imperador) e do lugar espiritual do Japão (Jissô do Japão). Ressalte-se que tais conteúdos estão presentes nas publicações de Mestre Masaharu Taniguchi, como é o caso do capítulo primeiro do décimo sexto volume da obra "A Verdade de Vida" editado antes do fim da II Guerra Mundial, em 1945. No Brasil, Osvaldo Murahara, ex-integrante da liderança da Seicho-no-Ie, é o principal divulgador da Manabu Kai.
Segundo acreditam, o movimento foi fundado para manter a integridade da obra de Taniguchi. Como em outros grupos sectários, compreendem que o caminho original traçado pelo fundador foi adulterado pela liderança contemporânea da instituição, em especial por conta da adesão à questão ecológica. Afirmam que a Manabu Kai detém a posse dos direitos autorais da coleção "A Verdade da Vida", "A Verdade" e das "Sutras Sagradas". Em sua prática diária, o grupo mantém diversos termos em japonês por entenderem que que é impossível traduzi-los sem prejuízos. Pelo mesmo motivo, entoam o Canto Evocativo de Deus na língua japonesa. Acreditam que a língua japonesa favorece o acesso ao sagrado e por isso as traduções não alcançam o sentido profundo da espiritualidade japonesa. Acrescenta-se ainda que a Manabu Kai se debruça sobre o Kojiki (Crônica das Coisas Antigas), texto mítico-religioso compilado a partir da tradução oral no século VIII da Era Comum, razão pela qual até nossos dias os dissidentes veneram o Imperador (Jissô do Imperador) e o Japão (Jissô do Japão). Com efeito, enfatizam o Japão enquanto axis mundi espiritual, razão pela qual discordam de qualquer expediente tradutor, tanto do ponto de vista da língua como da cultura religiosa.Sabe-se que membros do Manuabi kai participam do grupo nacionalista Nippon Kaigi (Conferência do Japão, em tradução livre).
Outro grupo dissidente é o Tokimitsuru-Kai, liderado no Japão por Kiyoshi Miyazawa, marido de uma neta de Masaharu Taniguchi e cunhado de Masanobu Taniguchi. Em agosto de 2015, o grupo Seicho-no-Ie Templo Sumiyoshi publica seu texto de fundação no Brasil. No site em língua portuguesa, encontramos sua filiação doutrinária com o Tokimitsuru-Kai do Japão.
Por enfatizarem uma ideia essencialista sobre a religião japonesa, a doutrina defendida pelos grupos dissidentes está em afinidade com a ideologia nacionalista conhecida por nihonjinron (Teoria da niponicidade, em tradução livre) que, grosso modo, sugere a existência de uma essência cultural e identitária japonesa historicamente homogênea e imune aos efeitos do tempo. Nesses termos, acreditam que o retorno à essência sagrada implica o acesso à sua manifestação mais pura e original cuja fonte espiritual é o Japão, o centro para onde todas as coisas convergem.
Os dissidentes alegam que a nova sede da religião, o Escritório da Floresta, inaugurado em julho de 2013 na cidade de Hakuto,Província de Yamanashi, corporifica a mudança em relação ao conteúdo original do mestre fundador. A nova sede, cercada por uma ampla área florestal e erigido a partir do pensamento sustentável da Ecologia Profunda, substituiu a sede original fundada por Masaharu Taniguchi em Tóquio.
Composição doutrinária Como vários outros novos movimentos religiosos, a Seicho-no-Ie bricola elementos de religiões diversas, em especial do cristianismo, do budismo e do xintoísmo, três grandes religiões presentes ao longo da história do Japão. Seus preceitos morais são enraizados em princípios familistas e organicistas provenientes do confucionismo. Desde o início, as revelações de Masaharu Taniguchi apontam para a essência comum de todos os credos, uma espécie de perenialismo religioso que certamente chegou até Taniguchi pela influência da doutrina da Ômoto. Apesar disso, a nova religião é vinculada principalmente ao xintoísmo. Assinala-se, contudo, que ao longo da história religiosa japonesa o budismo, o xintoísmo e confucionismo não foram experimentados como tradições distintas, mas complementares, como afirmam Joseph M. Kitagawa e Robert Ellwood.