A língua ianomâmi ou yanomam (em ianomâmi: yãnomamɨ), também conhecida como yanomae, yanomama ou yanomami, é uma língua da família linguística yanomami falada por grupos yanomami nos estados brasileiros Amazonas e Roraima e no sul da Venezuela.
A língua yanomam é o idioma yanomami com o maior número de falantes, sendo a língua materna de aproximadamente 46% da população da etnia Yanomami no Brasil e utilizada como língua franca entre os falantes das línguas yanomâmicas. A maior parte dos falantes do yanomam é monolíngue; além disso, a língua apresenta tradição predominantemente oral e não possui um sistema de escrita nativo, embora existam propostas de ortografia baseadas no alfabeto latino feitas por linguistas e missionários para fins de documentação.
Apesar de seu número expressivo de falantes no contexto das línguas indígenas brasileiras, o idioma yanomam é classificado como vulnerável em avaliações internacionais de vitalidade linguística, devido a pressões sociopolíticas, a perigos relacionados à saúde das populações yanomami e ao contato crescente com o português. Os esforços para a preservação dos idiomas yanomami se concentram na alfabetização de falantes nativos, na proteção de seu território e na documentação formal da língua.
As línguas yanomami evoluíram com pouca influência de outras famílias linguísticas, partilhando por isso traços estruturais profundos. Estes incluem a ordem sintática objeto-sujeito-verbo, a abundância de modificadores verbais e nominais, a harmonia nasal na fonologia e um vocabulário partilhado. Dada essa homogeneidade, as propostas de classificação taxonómica variam, sendo comum que variantes como o yanomam e o yanomami sejam tratadas como o mesmo idioma ou divisões de um contínuo dialetal.
Etimologia
O termo "yanomam" e suas variações são provenientes da expressão yanõmami thëpë, que significa "humano" ou "pessoa", e são fruto da denominação própria das comunidades falantes. Na ontologia yanomami, o primeiro xamã yanomami (e também primeiro humano) nasceu da união do demiurgo Omama com sua esposa Thuëyoma, uma criatura aquática que tomou forma de mulher depois de ser pescada por Omama.
Principalmente no decorrer do século XX, a língua yanomam e seus falantes foram designados pelo exônimo Waiká, o qual significa "pessoa braba", contudo, o termo caiu em desuso por ser considerado ofensivo e por não fazer parte da autodeterminação yanomami. Distribuição
As populações que deram origem aos Yanomami, conhecidos como proto-Yanomami, habitavam as terras altas do interflúvio entre o Rio Negro e o Rio Orinoco, onde hoje é região fronteiriça entre Brasil e Venezuela. Foi a partir do século XIX que os grupos yanomami passaram a ocupar outras regiões da bacia hidrográfica do Orinoco, principalmente em resposta à expansão europeia pelos territórios originalmente ocupados por esses e outros povos indígenas. miniaturadaimagem|Regiões de ocorrência das línguas yanomami. Área de presença do yanomam destacada em laranja saturado. A partir dessas diásporas e em função de conflitos com outros grupos yanomami e do desaparecimento de etnias indígenas que ocupavam territórios próximos, as comunidades yanomam passaram a ocupar, além das terras altas (endônimo: horepë hamɨ) da Serra Parima, os vales dessa cordilheira e as regiões próximas aos rios Uraricoera, Catrimani e Demini.
No âmbito geográfico, a fronteira internacional entre Brasil e Venezuela cria um limite administrativo que dificulta a mobilidade e a aplicação de políticas públicas, como programas educacionais de alfabetização, nas comunidades. Além disso, as características geomorfológicas, como o relevo acidentado e a alta densidade vegetal, que dificultam a circulação entre territórios dessas áreas promoveram a intensificação da diferenciação dos dialetos yanomam de outras línguas da família linguística yanomami, sendo estes catalogados a seguir: +Dialetos YanomamDialetoRegiõesNúmero aproximado de falantesYanomae ou Yanomam das BaixadasDemini, Toototopi, Missão Catrimani e Novo Demini2.300Yanomama ou Yanomami das Serras SulXitei, Homoxi, Haxiú, Papiú, Kayanaú, Alto Catrimani e Palimiú5.700Yanomami das Serras CentralSurucucu e Arathaú1.400Yanomam das Serras NorteParahuri, Waputha e comunidade de Polasai(Warais)2.437 esquerda|miniaturadaimagem|290x290px|Jovem yanomami - 1973.
Povos Yanomami Alguns povos Yanomam: Palimiu thëripë Wakathau thëripë Watorikɨ thëripë Yanomam do Rio Toototopi Maraxiu thëripë (em Haxiú e Papiú) Xaatha thëri (Alto Catrimani) Homoxi e Yaritha
História
História yanomami Evidências arqueológicas e históricas situam populações ancestrais dos Yanomami na região da Serra do Parima e nos planaltos do interflúvio Orinoco-Rio Negro há pelo menos cerca de mil anos, em que teria começado o processo de diferenciação interna que deu origem às atuais línguas yanomâmicas e onde esses povos faziam parte de uma rede de troca de bens com outras etnias indígenas.
O contato com os europeus se deu a partir do século XVIII, quando expedições portuguesas e espanholas começaram a se estabelecer ao longo Rio Branco e do Rio Orinoco devido às suas disputas de controle territorial. A partir dessa época, há registros de trocas entre europeus e povos yanomami que envolviam o escambo de pedras conhecidas como amazonitas por ferramentas de metal. Apesar de não se saber a intensidade e frequência desse tipo de comércio com os Yanomami, essas interações iniciaram a introdução de estrangeirismos e neologismos nas línguas yanomami. alt=|miniaturadaimagem|Indígena yanomami ao lado do jornalista Alex Shoumatoff, em 1976. Shoumatoff foi o primeiro a entrar em contatocom algumas tribos indígenas do interior da Amazônia. Entre as décadas de 1910 e 1940, ocorreram os primeiros encontros da sociedade nacional brasileira com comunidades yanomami, por meio de viajantes e representantes da fronteira extrativista, além da presença missões religiosas, como a dos missionários salesianos, que passaram a atuar ativamente a partir da década de 1950. Ao mesmo tempo, o Estado brasileiro atuava no território por intermédio do Serviço de Proteção ao Índio, que enviava representantes desde a década de 1910 e estabeleceu postos na região a partir da década de 1940, e, a partir de 1967, através da Fundação Nacional dos Povos Indígenas(Funai), que substituiu o SPI e passou a coordenar a política indigenista oficial.
Nas décadas de 1970 e 1980, houve um aumento das pressões externas por obras, prospecção e atividade garimpeira em terras yanomami, em função dos planos de crescimento econômico e desenvolvimento por meio da exploração dos recursos naturais presentes na Amazônia, como o Programa de Integração Nacional, o qual levou à construção da estrada Perimetral Norte(BR-210), que levou à morte e deslocamento forçado de muitos yanomami. O conjunto desses acontecimentos com a expansão do garimpo ilegal a partir dos anos 1980, principalmente depois da descoberta de grandes reservas minerais na Amazônia pelo Projeto Radam, gerou impactos ambientais, sanitários e de segurança que precipitaram mobilizações indígenas e de outras partes da sociedade civil, levantando como principal reivindicação a demarcação das Terras Indígenas Yanomami, pauta que mobilizou nomes influentes no cenário nacional, como Carlos Drummond de Andrade e Gilberto Freyre. Em resposta à crise de saúde e às necessidades de atenção especializada, foi criada em fevereiro de 1991 a organização responsável pela atenção sanitária diferenciada à área yanomami, o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami(DSEI-Y). No plano territorial, a demarcação administrativa e a homologação da Terra Indígena Yanomami foram formalizadas por meio de um decreto presidencial de Fernando Collor em 25 de maio de 1992, que homologou a demarcação das terras yanomami, consolidando limites oficiais e a proteção jurídica do território diante das pressões externas. miniaturadaimagem|Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva durante o anúncio de ações emergenciais para as populações yanomami, em Boa Vista (RR), dia 21 de janeiro de 2023.Apesar das medidas de proteção, brechas na fiscalização, descontinuidade de políticas públicas e a expansão do garimpo ilegal permitiram a permanência de atividades minerárias dentro da área demarcada. Esses processos resultaram em degradação ambiental, violência e agravamento de crises sanitárias. Em 2022, estudos e relatórios oficiais apontaram níveis elevados de contaminação por mercúrio em comunidades yanomamis associados à mineração aurífera, evidenciando impactos diretos sobre a saúde da população, incluindo casos de intoxicação e insegurança alimentar decorrente da contaminação de rios e peixes. A situação e sua repercussão na mídia motivou o reconhecimento de emergência em saúde pública no início de 2023 e a adoção de novas operações de desmantelamento de atividades ilegais e assistência humanitária por parte do governo federal.
Histórico de documentação do yanomam Esses processos de interação entre Yanomami e não-indígenas produziram mudanças socioculturais, demográficas, econômicas e políticas que tiveram reflexos na linguagem, em especial empréstimos lexicais do português (para tecnologia, instituições, bens etc), aumento do bilinguismo em áreas de maior contato e calques semânticos em certos domínios. Ao mesmo tempo, a estrutura morfossintática central das línguas yanomâmicas tem sido documentada como relativamente estável nas gramáticas de campo, sem indicação de reestruturações tipológicas profundas causadas pelo contato recente, embora pesquisas de longa duração continuem acompanhando mudanças incrementais em falares e comunidades.
Nesse aspecto, a documentação linguística sistemática das variedades yanomâmicas iniciou-se de forma substancial apenas a partir da metade do século XX, com levantamentos lexicais, textos e gramáticas produzidos por linguistas e por trabalhos etnográficos que reuniram material de campo. Entre os primeiros trabalhos de peso está a monografia de Ernest Cesar Migliazza (Yanomama Grammar and Intelligibility, 1972), que compilou dados gramaticais e listas lexicais e serviu de referência para estudos subsequentes. No campo antropológico, os relatos amplamente divulgados de Napoleon Chagnon (final da década de 1960) incluíram material linguístico e contribuíram para a circulação acadêmica sobre os Yanomami e suas línguas. Missões de caráter religioso também colaboraram para o registro do idioma, mesmo que seus participantes não sejam acadêmicos, como Loretta Emiri e Henri Ramirez, que publicaram dicionários e guias da língua. Mais recentemente, a documentação tem sido formada por trabalhos antropológicos e publicações de gramáticas de campo mais longas e analíticas, como os trabalhos de Helder Perri Ferreira, "Yanomama Clause Structure"(2017) e "As línguas Yanomami no Brasil: diversidade e vitalidade"(2019). Coletâneas institucionais e diagnósticos sociolinguísticos organizados por organizações brasileiras, como o Instituto Socioambiental, também sistematizam dados sobre idiomas indígenas, incluindo a língua yanomam.
História do ensino miniaturadaimagem|Ativista e educadora Christina Haverkamp junto a um indígena yanomami. A escolarização entre os Yanomami passou por várias fases, começando com intervenções missionárias e materiais de alfabetização esporádicos no século XX e evoluindo para políticas públicas e programas de educação indígena intercultural a partir das últimas décadas do século XX e início do XXI. Nos primeiros momentos de contato prolongado, missionários elaboraram cartilhas e alfabetos práticos para fins catequéticos e de alfabetização básica (esses materiais foram frequentemente os primeiros textos impressos em que a língua aparecia escrita).