thumb|Bloco de celas de punição em um dos subcampos de Vorkutlag, 1945 Gulag foi um sistema de campos de trabalho da União Soviética."Introduction: Stalin's Gulag." GULAG: Soviet Labor Camps and the Struggle for Freedom. US: Center for History and New Media, George Mason University. Retrieved June 23, 2020."Gulag." History.com. A&E Networks. 2018. Retrieved June 23, 2020. A palavra Gulag originalmente se referia apenas ao departamento da polícia secreta soviética responsável pela administração dos campos de trabalho forçado da década de 1930 ao início da década de 1950, durante o governo de Josef Stalin, mas, na literatura, o termo é popularmente utilizado para designar o sistema de trabalho forçado existente ao longo de toda a era soviética. A abreviatura GULAG (ГУЛАГ) significa "Glávnoye upravléniye ispravítel'no-trudovýkh lageréy" (Гла́вное управле́ние исправи́тельно-трудовы́х лагере́й, "Diretoria Principal dos Campos de Trabalho Corretivo"), embora o nome oficial completo do órgão tenha sido alterado diversas vezes.

O Gulag é reconhecido como um dos principais instrumentos de repressão política na União Soviética. Os campos abrigavam tanto criminosos comuns quanto presos políticos, muitos dos quais eram condenados por meio de procedimentos simplificados, como as troikas da NKVD ou outros instrumentos de punição extrajudicial. O órgão foi criado em 1930 e inicialmente era administrado pelo OGPU (1923–1934), posteriormente conhecido como NKVD (1934–1946) e, em seus últimos anos, como Ministério do Interior (MVD).

O sistema de internação cresceu rapidamente e atingiu uma população de 100 mil pessoas na década de 1920. Ao final de 1940, a população dos campos do Gulag chegava a 1,5 milhão de pessoas. O consenso emergente entre os estudiosos é que, dos 14 milhões de prisioneiros que passaram pelos campos do Gulag e dos 4 milhões que passaram pelas colônias do Gulag entre 1930 e 1953, aproximadamente 1,5 a 1,7 milhão morreram nesses locais ou pouco depois de serem libertados. Alguns jornalistas e escritores que questionam a confiabilidade desses dados baseiam-se fortemente em fontes memorialísticas que apresentam estimativas mais elevadas. Pesquisadores de arquivos não encontraram "nenhum plano de destruição" da população do Gulag nem qualquer declaração de uma intenção oficial de matá-la, e o número de prisioneiros libertados superou amplamente o número de mortes no Gulag. Essa situação pode ser parcialmente atribuída à prática comum de libertar prisioneiros que sofriam de doenças incuráveis ou que estavam próximos da morte.

Quase imediatamente após a morte de Stalin, uma ampla anistia geral foi concedida aos prisioneiros não políticos e aos presos políticos que haviam sido condenados a no máximo cinco anos de prisão. Pouco depois, Nikita Khrushchov foi eleito primeiro-secretário, dando início aos processos de desestalinização e ao Degelo de Kruschev, que provocaram a libertação em massa e a reabilitação de presos políticos. Seis anos depois, em 25 de janeiro de 1960, o sistema Gulag foi oficialmente abolido, quando os remanescentes de sua administração foram dissolvidos por Khrushchov. A prática jurídica de condenar pessoas ao trabalho penal continua a existir na Federação Russa, mas sua capacidade foi consideravelmente reduzida.

Alexander Soljenítsin, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, que sobreviveu a oito anos de encarceramento no Gulag, deu ao termo reconhecimento internacional com a publicação de Arquipélago Gulag, em 1973. O autor comparou os campos dispersos a "uma cadeia de ilhas" e, como testemunha ocular, descreveu o Gulag como um sistema no qual as pessoas eram obrigadas a trabalhar até a morte.Applebaum, Anne (2003) Gulag: A History. Doubleday. Em março de 1940, havia 53 diretorias de campos do Gulag — chamadas simplesmente de "campos" — e 423 colônias de trabalho na União Soviética. Muitas vilas e cidades mineradoras e industriais do norte e do leste da Rússia e do Cazaquistão — como Karaganda, Norilsk, Vorkuta e Magadan — tiveram origem em conjuntos de campos construídos por prisioneiros e posteriormente administrados por ex-prisioneiros.

Etimologia GULAG (ГУЛАГ) significa "Гла́вное управле́ние исправи́тельно-трудовы́х лагере́й" ("Diretoria Principal dos Campos de Trabalho Corretivo"). O órgão foi renomeado diversas vezes, como para Diretoria Principal das Colônias de Trabalho Corretivo (), nomes que podem ser observados nos documentos que descrevem a subordinação dos diferentes campos.ГЛАВНОЕ УПРАВЛЕНИЕ ЛАГЕРЕЙ ОГПУ–НКВД–МВД, a section from "Система исправительно-трудовых лагерей в СССР", Moscow, 1998, O termo não era utilizado com muita frequência em russo, nem oficialmente nem coloquialmente; as expressões predominantes eram os campos (лагеря, lagerya) e a zona (зона, zona), geralmente no singular, tanto para o sistema de campos de trabalho quanto para cada campo individual. O termo oficial "campo de trabalho corretivo" foi sugerido para uso oficial pelo Politburo do Partido Comunista da União Soviética, durante a sessão de 27 de julho de 1929.

Embora o termo tenha sido originalmente utilizado em referência a um órgão governamental, em português e em muitas outras línguas a sigla adquiriu características de substantivo comum e passou a designar o sistema soviético de trabalho não livre baseado em prisões.

Em um sentido ainda mais amplo, "Gulag" passou a significar o próprio sistema repressivo soviético, o conjunto de procedimentos que os prisioneiros chamavam de "moedor de carne": as prisões, os interrogatórios, o transporte em vagões de gado sem aquecimento, o trabalho forçado, a destruição de famílias, os anos passados no exílio e as mortes prematuras e desnecessárias.

Autores ocidentais utilizam o termo Gulag para designar todas as prisões e todos os campos de internação que existiram na União Soviética. Atualmente, o termo não é utilizado exclusivamente em referência às prisões e aos campos de internação que existiram na URSS, como na expressão "Gulag da Coreia do Norte", usada para designar campos que permanecem em funcionamento.

Visão geral thumb|upright|Guenrikh Yagoda (ao centro) inspecionando a construção do Canal Moscou–Volga, em 1935. Atrás de seu ombro direito está Nikita Khrushchov Alguns historiadores estimam que 14 milhões de pessoas foram encarceradas nos campos de trabalho do Gulag entre 1929 e 1953 — as estimativas referentes ao período de 1918 a 1929 são mais difíceis de calcular. Outros cálculos, realizados pelo historiador Orlando Figes, apontam para 25 milhões de prisioneiros do Gulag entre 1928 e 1953. Outros seis a sete milhões foram deportados e exilados para regiões remotas da URSS, enquanto quatro a cinco milhões passaram por colônias de trabalho corretivo, além de 3,5 milhões que já se encontravam em assentamentos de trabalho ou haviam sido enviados para eles.Conquest, Robert. 1997. "Victims of Stalinism: A Comment ." Europe-Asia Studies 49(7):1317–19, . Quote: "We are all inclined to accept the Zemskov totals (even if not as complete) with their 14 million intake to Gulag 'camps' alone, to which must be added 4–5 million going to Gulag 'colonies', to say nothing of the 3.5 million already in, or sent to, 'labor settlements'. However taken, these are surely 'high' figures." There are reservations to be made. For example, we now learn that the Gulag reported totals were of capacity rather than actual counts, leading to an underestimate in 1946 of around 15%. Then as to the numbers 'freed': there is no reason to accept the category simply because the MVD so listed them, and, in fact, we are told of 1947 (when the anecdotal evidence is of almost no one released) that this category concealed deaths: 100000 in the first quarter of the year'"

Segundo algumas estimativas, a população total dos campos variou de 510.307 pessoas, em 1934, a 1.727.970, em 1953. De acordo com outras estimativas, no início de 1953 o número total de prisioneiros nos campos ultrapassava 2,4 milhões, dos quais mais de 465 mil eram presos políticos. Entre 1934 e 1953, de 20% a 40% da população do Gulag era libertada a cada ano.

A análise institucional do sistema de campos de concentração soviético é dificultada pela distinção formal entre o GULAG e o GUPVI. O GUPVI (ГУПВИ) era a Administração Principal para Assuntos de Prisioneiros de Guerra e Internados (, ), um departamento da NKVD — posteriormente do MVD — responsável pelos civis estrangeiros internados e pelos prisioneiros de guerra mantidos na União Soviética durante e depois da Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1953. Em muitos aspectos, o sistema do GUPVI era semelhante ao GULAG.

Sua principal função era organizar o trabalho forçado de estrangeiros na União Soviética. Os dirigentes superiores do GUPVI provinham do sistema GULAG. A principal diferença em relação ao GULAG registrada nas memórias era a ausência de criminosos condenados nos campos do GUPVI. Nos demais aspectos, as condições dos dois sistemas de campos eram semelhantes: trabalho pesado, alimentação e condições de vida precárias e elevada taxa de mortalidade.

Para os presos políticos soviéticos, como Alexander Soljenítsin, todos os civis estrangeiros detidos e prisioneiros de guerra estrangeiros estavam encarcerados no Gulag; os civis estrangeiros e prisioneiros de guerra que sobreviveram também se consideravam prisioneiros do Gulag. Segundo as estimativas, durante todo o período de existência do GUPVI, houve mais de quinhentos campos de prisioneiros de guerra — dentro e fora da União Soviética —, nos quais mais de quatro milhões de prisioneiros de guerra foram encarcerados.MVD of Russia: An Encyclopedia (), 2002, , p.541 A maioria dos detentos do Gulag não era composta por presos políticos, embora um número significativo deles pudesse ser encontrado nos campos em qualquer período.

Pequenos delitos e piadas sobre o governo e as autoridades soviéticas podiam ser punidos com prisão.Uschan, M. Political Leaders. Lucent Books. 2002. Aproximadamente metade dos presos políticos dos campos do Gulag foi encarcerada "por via administrativa", isto é, sem julgamento perante um tribunal. Dados oficiais indicam que mais de 2,6 milhões de condenações à prisão foram proferidas em casos investigados pela polícia secreta entre 1921 e 1953. As penas máximas variavam de acordo com o tipo de crime e foram modificadas ao longo do tempo. A partir de 1953, a pena máxima para pequenos furtos passou a ser de seis meses; anteriormente, havia sido de um ano e de sete anos, em períodos distintos. O furto de propriedade estatal era punido com penas de sete a 25 anos de prisão. Em 1958, a pena máxima para qualquer crime foi reduzida de 25 para quinze anos.

Em 1960, o MVD deixou de funcionar como administração dos campos em toda a União Soviética, sendo substituído pelos ramos do MVD de cada república. As administrações centralizadas responsáveis pelos locais de detenção deixaram temporariamente de funcionar.

thumb|A cerca do antigo campo do Gulag em Perm-36, fundado em 1943 e posteriormente transformado em museu

História Antecedentes thumb|Prisioneiros em um navio a caminho de Sacalina, uma remota ilha-prisão, 1903