O Reino Suevo, também denominado Reino da Galécia (), foi um reino germânico pós-romano que existiu no noroeste da Península Ibérica entre o ano 411 e 585 e um dos primeiros reinos a separar-se do Império Romano. O reino foi fundado pelos Suevos, um povo de origem germânica que, no ano 409, invadiu a Península Ibérica juntamente com os Vândalos e os Alanos. Tendo ocupado inicialmente as regiões costeiras das províncias romanas da Galécia e do norte da Lusitânia e estabelecido a capital em Braga, o reino manteve a sua independência até 585, data em que foi anexado pelos Visigodos e convertido na sexta província do Reino Visigótico.
Ao longo do o reino inicia uma série de campanhas militares bem sucedidas na Península Ibérica. Em 419, Hermerico controlava toda a província da Galécia. Durante o reinado de Réquila os suevos conquistaram algumas das mais importantes cidades romanas, como Mérida (439), capital da Lusitânia, Mértola (440) e Sevilha (441), capital da Hispânia Bética. No entanto, em 456 os suevos são derrotados por um exército de federados enviado pelo imperador Ávito . A execução do rei Requiário deu origem a uma crise de sucessão e guerra civil no reino suevo, em que duas facções competiram pelo trono. Em 460, Remismundo uniu as duas fações e tornou-se rei, tendo conquistado as cidades romanas de Conímbriga (468) e Lisboa (469). Praticamente não existem fontes documentais sobre a história do reino entre 470 e 550, intervalo que os historiadores denominam período obscuro.
Na segunda metade do são convocados vários concílios católicos no reino que confirmam a conversão da corte ariana para o catolicismo e consolidam o papel da Igreja na administração do território. O arcebispo de Braga, Martinho de Dume, presidiu a vários concílios e promoveu o renascimento cultural e político do reino. Durante a década de 570 o vizinho reino Visigótico, que dominava já a maior parte da Península, inicia uma série de campanhas a norte e em 576 atravessa as fronteiras da Galécia. Em 583 o rei Miro é derrotado em Sevilha e forçado a assinar um tratado de fidelidade com os Visigodos. Em 585, o Reino Suevo é invadido pelo exército do rei Leovigildo e anexado no Reino Visigótico.
História
A Galécia e o norte da Lusitânia eram províncias remotas do Império Romano. Ao contrário de outros povos bárbaros, como os Vândalos, os Visigodos, os Ostrogodos ou os Hunos, que tiveram um papel importante na perda das províncias ocidentais de Roma, os Suevos praticamente não constituíam uma ameaça para os interesses de Roma. Ao longo da sua história enquanto nação independente, os Suevos mantiveram uma atividade diplomática significativa, principalmente com o Império Romano do Ocidente, com os Vândalos, Visigodos e, mais tarde, com os Francos.
Origem e migração dos Suevos
Pouco se conhece sobre os Suevos que na noite de 31 de dezembro de 406 atravessaram o Reno para ocupar o Império Romano. Especula-se que estes Suevos sejam o mesmo grupo que alguns registos da época mencionam como Quados, povos que viviam a norte do Danúbio no território que é hoje a Áustria oriental e e a Eslováquia ocidental. Este povo desempenhou um papel significativo nas guerras marcomanas do quando, em conjunto com os Marcomanos, lutaram contra as forças romanas comandadas pelo imperador Marco Aurélio. A principal razão para associar os Suevos e os Quados no mesmo grupo tem origem numa carta escrita por Jerónimo de Estridão que lista os invasores que em 406 atravessaram a Gália, na qual lista os Quados, mas não os Suevos. No entanto, o argumento para esta teoria baseia-se apenas no desaparecimento da menção aos Quados e na emergência dos Suevos, e contrasta com o testemunho de outros autores contemporâneos, como Orósio, que cita os Suevos entre os povos que atravessaram o Reno em 406, a par dos Quados, Marcomanos, Vândalos e Sármatas.
thumb|esquerda|Pormenor da Coluna de Marco Aurélio, erigida para celebrar o triunfo romano sobre, entre outros povos, as tribos suevas dos Marcomanos e dos Quados no ano 176
Gregório de Tours identifica os Suevos da Galécia como Alamanos,"Suebi, id est Alamanni", Gregório de Tours, História dos Francos, II.2 enquanto Procópio de Cesareia os identifica simplesmente como Germânicos. Jordanes menciona outros grupos de Suevos que viviam na região do Danúbio entre os séculos V e VI. Recentemente, tem-se sugerido que a falta de referência aos Suevos pode significar que eles não eram um grupo étnico distinto e antigo em si, mas antes o resultado de uma etnogénese recente de vários grupos de pequena dimensão, entre os quais os Quados e os Marcomanos, que migraram em conjunto do vale do Danúbio para a Península Ibérica.
Embora não exista documentação clara sobre as razões por trás da migração do ano 406, uma teoria com aceitação significativa sustenta que a migração forçada de vários povos germânicos para oeste do Reno se deveu à pressão dos Hunos em finais do . Independentemente das razões, os Suevos, juntamente com os Vândalos e os Alanos, atravessaram o Reno na noite de 31 de dezembro de 405. A sua entrada no Império Romano aconteceu numa época em que no Império do Ocidente ocorriam uma série de invasões e guerras civis. Entre 405 e 406 a península itálica foi invadida pelos Godos sob o comando de Radagaiso e o trono romano foi sucessivamente reivindicado por uma série de usurpadores. Isto permitiu aos povos bárbaros entrar na Gália com pouca ou nenhuma resistência e ocupar as províncias da Germânia Inferior e da Bélgica antes de terem sido considerados uma ameaça. Em resposta à invasão bárbara da Gália, o imperador Constantino III repeliu os invasores Vândalos, Alanos e Suevos, que ficaram confinados à Gália do norte. No entanto, na primavera de 409 o general Gerôncio liderou uma revolta na Hispânia e instalou no trono de Roma o seu próprio imperador, o usurpador Máximo. Constantino, que tinha sido recentemente elevado a Augusto, dirigiu-se para a Hispânia para conter a rebelião. Gerôncio respondeu instigando e mobilizando os bárbaros da Gália contra Constantino. No verão de 409, os Vândalos, Alanos e Suevos começaram a deslocar-se para sul em direção à Hispânia.
Fundação do Reino Suevo (409-416)
thumb|Em 411, os vários grupos bárbaros dividiram as províncias da Hispânia entre si. Os Vândalos Silingos estabeleceram-se na Hispânia Bética, os Alanos nas províncias da Lusitânia e da Hispânia Cartaginense e os Suevos partilharam a província da Galécia no noroeste peninsular
A guerra civil que irrompeu na Península Ibérica entre as forças de Constantino e Gerôncio deixou as passagens pelos Pirenéus propositada ou inadvertidamente negligenciadas, tornando a Gália do sul e a Península Ibérica vulneráveis a uma eventual invasão bárbara. Idácio de Chaves documenta que a travessia dos Vândalos, Alanos e Suevos para a Península Ibérica teve lugar ou a 28 de setembro ou a 12 de outubro de 409. Alguns historiadores assumem que as duas datas correspondem ao princípio e ao fim da travessia dos Pirenéus, uma vez que não seria possível para um grupo de milhares de pessoas atravessar uma barreira de tal magnitude em apenas 24 horas. Idácio escreve ainda que, após entrarem na Hispânia, os povos bárbaros e os próprios soldados romanos passaram os anos de 409 e 410 a pilhar comida e valores das cidades. Este processo causou uma fome generalizada que, ainda segundo Idácio, forçou os locais ao canibalismo.
Em 411, os vários grupos bárbaros decidiram firmar a paz e dividir as províncias da Hispânia entre si. A historiografia da época refere o termo sortes, ou lotes, para os territórios recebidos por cada federado bárbaro, pelo que muitos historiadores mencionam a possibilidade de ter existido um tratado com o governo de Máximo. No entanto, não existem evidências concretas de qualquer tratado entre os Romanos e os bárbaros. Idácio não menciona qualquer tratado e apenas refere que a paz de 411 foi resultado da compaixão de Deus, enquanto Orósio afirma que, numa data posterior, os reis dos Vândalos, Alanos e Suevos tentaram obter um pacto semelhante ao dos Visigodos.
Na divisão de territórios entre os quatro grupos bárbaros, os Vândalos Silingos estabeleceram-se na Hispânia Bética, os Alanos nas províncias da Lusitânia e da Hispânia Cartaginense e os Suevos partilharam a província da Galécia no noroeste peninsular. A divisão da Galécia entre os Suevos e os Asdingos colocou os Suevos na parte ocidental da província, na costa do Atlântico, muito provavelmente no território entre as atuais cidades do Porto, a sul em Portugal, e Pontevedra, a norte na Galiza. Pouco tempo depois, a cidade de Braga torna-se a capital da região e os Suevos expandem-se para as cidades de Astorga, para a região de Lugo e para o vale do rio Minho. Não existem evidências de que os Suevos tenham ocupado outras cidades na província antes do ano 438. A relação inicial entre os Galécios e os Suevos não era tão conflituosa como algumas vezes é sugerido. Idácio não menciona qualquer guerra ou conflito com os habitantes locais entre os anos 411 e 430 e Orósio afirma que os recém-chegados muito rapidamente "trocaram a espada pelo arado" após receberem as terras.
Com base em dados toponímicos, tem sido proposto que os Búrios, outro grupo germânico, teriam acompanhado os Suevos e se instalaram na Galécia na região entre os rios Cávado e Homem, na região de Búrio, atualmente Terras de Bouro.
Consolidação e expansão territorial (416-448) thumb|esquerda|Durante as sucessivas pilhagens suevas, os Galécios, pouco romanizados, foram obrigados a refugiar-se e a ocupar os antigos castros da Idade do Ferro
Em 416, os Visigodos entram na Península Ibérica, enviados pelo imperador ocidental para combater os bárbaros que aí chegaram em 409. Por volta de 418, os Visigodos, liderados pelo rei Vália, tinham devastado os Vândalos Silingos e os Alanos. De parte desta campanha ficaram os Vândalos Asdingos e os Suevos, que permaneceram as duas restantes forças na Península. Em 419, depois da partida de Vália para o território da Aquitânia, irrompeu um conflito entre os Vândalos, liderados pelo rei Gunderico, e os Suevos, liderados pelo rei Hermerico. Os dois exércitos defrontaram-se na Batalha dos montes Nervasos, mas a intervenção das forças romanas comandadas pelo general Astério foi decisiva no conflito, atacando os Vândalos e forçando-os a deslocar-se para sul, na atual Andaluzia, o que deixou toda a Galécia praticamente na posse dos Suevos. O restante reinado de Hermerico foi dedicado à consolidação do governo Suevo na província da Galécia. Em 430 rompeu com a paz mantida com os povos locais, pilhando a Galécia central e forçando os galécios, pouco romanizados, a ocupar os antigos castros da Idade do Ferro. Embora tenha sido estabelecida uma nova paz, firmada com a troca de prisioneiros, em 431 e 433 surgiram novos focos de conflito. Em 438, Hermerico adoece. Tendo anexado ao seu reino a totalidade da antiga província romana da Galécia, estabeleceu a paz com a população local e abdicou do trono dos Suevos em favor do seu filho Réquila.
thumb|Territórios conquistados durante o reinado de Réquila entre 438 e 448, incluindo as cidades romanas mais importantes como Mérida, Mértola e Sevilha