A poesia portuguesa tem raízes recuadas, ainda antes da afirmação da nacionalidade, e esteve na generalidade sempre presente durante toda a história literária e cultural de Portugal, tendo representado os diversos movimentos artísticos, filosóficos, mas também revolucionários, pelos quais o povo e as elites literatas atravessaram.

Poesia arábica em território nacional Entre os árabes, enquanto estes povoavam o território que mais tarde viria a ser Portugal, encontramos um punhado de poetas de grande valor, o que era constante, aliás, na civilização islâmica da altura, muito dedicada à poesia. Almutâmide (rei do Taifa de Sevilha), ibne Bassame (em Santarém, na altura chamada Xantarim), Abenamar e ibne Harbum (de Silves) são alguns exemplos. Ibn Darraj al-Qastalli, nascido em Cacela Velha, no século X, é considerado o maior poeta árabe do seu tempo.miniaturadaimagem|Um músico muçulmano e um cristão, num manuscrito medieval.

Poesia na Idade Média cristã Segundo a base de dados Littera, "as cantigas trovadorescas galego-portuguesas são um dos patrimónios mais ricos da Idade Média peninsular. Produzidas durante o período, de cerca de 150 anos, que vai, genericamente, de finais do século XII a meados do século XIV, as cantigas medievais situam-se, historicamente, nas alvores das nacionalidades ibéricas, sendo, em grande parte contemporâneas da chamada Reconquista cristã, que nelas deixa, aliás, numerosas marcas." Segundo Carolina Michaelis de Vasconcelos, pensa-se que a mais antiga poesia galaico-portuguesa seja de 1189 (ou 1198) e tenha tido como autor Paio Soares de Taveirós.http://www.filologia.org.br/abf/rabf/5/117.pdf Conhecida como "cantiga da Ribeirinha" ou "cantiga da garvaia", começa assim:

"No mundo non me sei parelha mentre me for, como me vay, ca já moiro por vós..." MONTEIRO, Clóvis - Esboços de história literária - Livraria Acadêmica - 1961 - Rio de Janeiro - Pg. 12

Os principais géneros da poesia galego-portuguesa profana são as cantigas de amor (canto em voz masculina, de influência provençal, tratando do amor cortês), as cantigas de amigo (canto em voz feminina, de tradição autóctone, geralmente com refrão e/ou estrutura paralelística) e a cantigas de escárnio e maldizer (cantiga satírica). Junto três géneros principais, os trovadores (poetas/músicos originários da nobreza) e jograis (oriundos do povo) cultivaram também outros géneros (mas em muito menor escala) como a tenção (disputa dialogada), o pranto (lamento pela morte de alguém), o lai (composição narrativa sobre a matéria de Bretanha) ou a pastorela (narrativa de um encontro entre o trovador e uma pastora). Foram compiladas em antologias manuscritas, a que se deu o nome de Cancioneiros. Podemos fazer referência a alguns dos mais importantes: Cancioneiro da Ajuda - Compilado em Portugal no final do século XIII ou no princípio do século XIV. Cancioneiro da Vaticana - Compilado em Itália no fim do século XV ou no princípio do século XVI. Cancioneiro Colocci-Brancutti ou Cancioneiro da Biblioteca Nacional - Compilado em Itália no fim do século XV ou no princípio do século XVI. Existe uma época da história desta poesia, considerada como uma idade de ouro, que compreende um período afonsino (de 1240 a 1280), com os reinados de Afonso X de Castela (autor das Cantigas de Santa Maria) e de Afonso III de Portugal. Segue-se o período dionisíaco, com o reinado de D. Dinis (filho de Afonso III). O seu filho bastardo, Dom Pedro, Conde de Barcelos (que morre em 1354), autor de algumas cantigas que encerram um período de florescimento poético.

esquerda|thumb|Trovadores: imagem do Cancioneiro da Ajuda,

A poesia galego-portuguesa passa, então, por um período de decadência, desde fins do século XIV e ao longo do século XV. A par desta poesia lírica, outros jograis divulgavam as gestas (canções de gesta), poemas de cariz épico e hagiográfico, muitas vezes utilizadas como fontes de informação para os cronistas da época. Alguns estudiosos desta manifestação cultural, como António José Saraiva, Lindley Cintra e Diego Catalán acreditam que terá existido um poema épico, cantado pelos jograis, onde se narrariam os feitos de D. Afonso Henriques. Transmitido oralmente, parece ter servido de mote para cronistas portugueses e castelhanos, que a transformaram em prosa (a forma poética tem também a função de tornar mais fácil de memorizar os longos relatos). O Romanceiro português alia o épico ao lírico nos seus romances bastante diversificados.

O alaúde era um instrumento muito usado na época.

Renascimento e Maneirismo thumb|200px|Luís de Camões

Após o desaparecimento do trovadorismo galego-português nos fins do século XIV e início do século XV, forma-se uma escola castelhano-portuguesa (escrevendo-se nos dois idiomas emergentes). Será Garcia de Resende a efectuar a compilação desta produção poética no seu Cancioneiro Geral, em 1516. Os poetas portugueses representados neste cancioneiro demonstram algum conhecimento de outras poéticas: Dante Alighieri, Petrarca, Juan de Mena, Marquês de Santillana, além de autores do classicismo romano. Os géneros mais populares são o vilancete, a cantiga de glosar, a trova e a esparsa, poesias sobretudo de temas amorosos e melancólicos, mas também com uma filão satírico, cultivadas nos serões palacianos, onde prepondera o verso de sete sílabas (a redondilha maior).

Gil Vicente e Francisco de Sá de Miranda marcam, na poesia, o verdadeiro início do Renascimento em Portugal, onde também se destaca António Ferreira. Luís Vaz de Camões é, contudo, o vulto maior da poesia portuguesa. Os Lusíadas, 1572 é o poema nacional por excelência. Não se deve, porém, esquecer a sua poesia lírica, a todos os níveis incomparável, reunida nas Rimas, postumamente, em 1595.

É com Camões que se faz, também, a nível de estilo e conteúdo, passagem para o Maneirismo, de uma poesia melancólica e de profundo questionamento existencial que já se verifica em Camões (onde a temática do exílio, na sua lírica, e a crítica aos aspectos menos heróicos de Portugal, como o "gosto d'hua austera, apagada e vil tristeza", n'Os Lusíadas, já faz entrever). Diogo Bernardes, Vasco Mouzinho de Quevedo, Baltasar Estaço, D. Manuel de Portugal, Sá de Miranda e Francisco Rodrigues Lobo são alguns dos nomes mais importantes deste período que irá desembocar no Barroco.

Virgílio, Horácio, Ovídio e Petrarca são os poetas mais admirados pelos autores renascentistas e maneiristas. De Petrarca tiraram a inspiração para a construção dos versos - é, vindo de Petrarca, através de Sá de Miranda, que chega a Portugal a "medida nova", isto é, o decassílabo, que pode ser heróico ou sáfico, quanto aos acentos rítmicos, e que costuma ser utilizado com o seu "verso quebrado", isto é, o hexassílabo. Das Rimas (também chamado Il Canzoniere) de Petrarca, adoptaram os vates portugueses as seguintes formas poéticas - soneto, sextina, terceto, oitava e a estância.

Barroco Do apogeu do Barroco, salientam-se as obras de Francisco Manuel de Melo e Jerónimo Baía. Foi, também um período de grande produção épica: Sucesso do Segundo Cerco de Diu (1584), de Jerónimo Corte-Real, A Elegíada (1588), de Luís Pereira Brandão, Ulisseia ou Lisboa Edificada (1636), de Gabriel Pereira de Castro, Malaca conquistada (1634), de Francisco de Sá de Meneses, Ulissipo (1640), de António de Sousa de Macedo, Afonso Africano (1611) de Vasco Mouzinho de Quebedo.

Luis de Góngora, na Espanha, a par com Francisco de Quevedo, é o modelo a imitar, no que diz respeito à poesia Barroca. Os poetas portugueses da altura, como Jerónimo Baía, Barbosa Bacelar e D. Tomás de Noronha (entre muitos anónimos), sem o mesmo brilho dos mestres espanhóis, glosam, então, num virtuosismo formal intrincado, os temas da Morte, e da inconstância da Sorte e da Fortuna, transmitindo um sentimento que marcava, também, a religião na Península Ibérica, na altura.

Arcadismo miniaturadaimagem|Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 – 1805), poeta português. Como reacção ao Barroco, seguindo o lema Inutilia truncat (cortar o inútil) o Neoclassicismo, inspirado nos modelos gregos e latinos (e no próprio Renascimento), inicia-se com Pedro António Correia Garção (pseudónimo arcádico: Córidon Erimanteu), na segunda metade do século XVII. A Arcádia Lusitana vai ser o movimento poético mais importante desta época até à primeira metade do século XIX, reunindo os nomes de Francisco Manuel do Nascimento (mais conhecido pelo pseudónimo arcádico Filinto Elísio), Manuel Maria Barbosa Du Bocage, Correia Garção, Reis Quita, Francisco Joaquim Bingre, Marquesa de Alorna, José Anastácio da Cunha, José Agostinho de Macedo, Nicolau Tolentino de Almeida, António Dinis da Cruz e Silva, entre outros.

A poesia desta época pretende seguir os preceitos de harmonia e simplicidade literária, tal como o recurso à mitologia clássica como ornamentação poética, o bucolismo, uma versificação cuidada, o emprego de verso branco (decassílabo heróico e o seu quebrado, o hexassílabo), de modo a imitar a poesia greco-latina (que não usava rima) e de formas poéticas antigas - a epopeia, a tragédia, a écloga, a ode horaciana, a epístola, etc. - tudo isto seguindo a teoria elaborada na Poética de Aristóteles e, sobretudo, na Epístola aos Pisões de Horácio.

Romantismo Pode-se dizer que o Romantismo tem início em Portugal com a publicação do poema Camões (1825), da autoria de Almeida Garrett, que fora educado pelo seu tio, D. Alexandre, bispo de Angra, nos preceitos da literatura neoclássica e arcadista, o que se faz sentir nas suas primeiras obras, de sabor assumidamente neoclássico. O próprio autor confessa, no prefácio de Camões, que se recusou a seguir os princípios da poesia épica enunciados por Aristóteles e Horácio, rompendo com a corrente neoclássica. Almeida Garrett participara na revolução liberal de 1820, de seguida fora para o exílio na Inglaterra em 1823, após a Vila-francada, e depois em França. Foi no exílio que tomou contacto com o movimento romântico, descobrindo Victor Hugo, Lamartine, Shakespeare, Walter Scott, Byron e outros autores e visitando castelos feudais e ruínas de igrejas e abadias góticas, vivências que se reflectiriam na sua escrita. Apresentou, em 1838, Um Auto de Gil Vicente, na tentativa de lançar alicerces a um novo teatro nacional, isento de influência clássica e estrangeira. Mas a sua obra prima seria Frei Luís de Sousa (1843), denominado pelo próprio como "drama romântico" e aclamado como obra excepcional. Também se dedicou à recolha de poesia folclórica, que resultou na publicação do Romanceiro (1843), que reunia poemas de redondilhas tradicionais, conhecidos como "romances", tratando de temas de cavalaria, hagiografia, cruzadas, amor cortês, etc. A transição para o Romantismo também se pode notar no facto de ter escrito os romances Helena, O Arco de Sant'Ana e Viagens na Minha Terra. miniaturadaimagem|Alexandre Herculano. Alexandre Herculano é, ao lado de Garrett, um dos chefes de fileira da primeira geração romântica portuguesa. Igualmente a Garrett, esteve exilado na Grã-Bretanha em França, pelas suas convicções liberais. Toda a sua poesia e prosa são (ao contrário de Garrett) inteiramente românticas, rejeitando as referências à mitologia e história greco-romana, procurando inspiração na Bíblia e nos poemas e nas crónicas da Idade Média, o que se sobretudo no seu livro A Harpa do Crente (1838).portoeditora_herculano_aharpacrente.pdf A sua obra é vasta e cobre diversos géneros: poesia, romance, teatro, ensaio e investigação histórica, opúsculos, nos quais resgata todo um mundo de tradições, lenda e história medieval portuguesa, especialmente em Eurico, o Presbítero e nas Lendas e Narrativas. A sua obra acusa, sobretudo, a influência de Chateaubriand, Klopstock e Walter Scott.